sábado, 16 de março de 2013

O homem novo

 
"Em uma carta ainda pode cair uma lágrima, mas um e-mail nunca se fará acompanhar de emoções.", disse José Saramago. Os tempos modernos são insensíveis. Troca-se o contato, o afeto e o toque pelo touchscreen. No mundo moderno, o homem se vê livre, encurtando distâncias, fazendo viagens ao mundo sem sair do lugar. E ao mesmo tempo, se vê preso a um universo que não é real, um mundo simulado. O 'homem novo' é um comunicador em potencial, obsessivo, intenso, quase que 24h por dia conectado ao resto do globo. Ao passo que este homem novo também tornou-se um refém das próprias evoluções, limitado ao uso de meios não necessariamente reais de comunicação. Um universo criado paralelamente dentro de seu telefone que o transforma, que controla sua vida, que lhe dá outra visão: uma visão tautológica, que repete os mesmos processos durante todo o tempo.

E quando estes dois mundos se chocam, na frágil consciência do homem novo, ele se perde. Perde-se em sua própria identidade. "Quem sou eu, afinal? Serei um louco? Ou um personagem fictício?" Talvez nem se saiba mais o que é o mundo real e o que é o abstrato do mundo tecnológico digital. Foucault sempre propusera que é necessário reconhecermos os detemrminados processos de exclusão, que levam o homem a tornar-se submisso. Um destes processos é a relação de razão e loucura, que persiste desde os tempos da Idade Média. O discurso do louco nunca pôde circular com o dos outros ditos 'sãos'.

E hoje? Hoje a loucura circula livremente entre os homens que criaram este universo paralelo ao da razão e ninguém se dá conta... Afastamo-nos da razão sem mesmo sabermos que estamos fazendo isso, pois a evolução tecnológica e o compartilhamento de ideias, ao mesmo tempo em que é realizado em segundos, priva o indivíduo de construir novos conceitos. Obedece-se à fantasia e abandona-se o mundo real... a fantasia que hoje engloba as famílias e assume a posição de educadora e que nunca oferecerá um relacionamento legítimo, pois os carinhos, aos poucos, tornam-se uma retórica. O tempo passa e cada vez encontram-se mais atitudes relacionadas às máquinas, sentimentos mecanizados pelos jogos eletrônicos e o consumo deliberado de meios ilusórios, que colocam o homem novo à margem do delírio; um homem novo e frio, sem emoções.

Este tal homem novo é diferente do que existiu na era pré-industrial e diferente do que existiu antes do processo de globalização. É o homem do mundo moderno que se acostumou a uma rotina, que foge aos velhos conceitos sensíveis, que vão se perdendo aos poucos, numa dissociação causada pelo isolamento universal que a tecnologia oferece. O ritmo de vida atual infere na criação de um novo conceito de sociedade, aonde as crianças que agora chegam, encontram uma educação marcada pela ausência dos pais e pela enxurrada de informações que as fazem mergulhar em vidas fantásticas, sem contrariedades, sem ouvirem "não" uma vez sequer... a loucura toma conta da sociedade, agora já esquizofrênica pela perda de contato com o mundo exterior, de tal forma que talvez nem mesmo o próprio Michel Foucault saberia dizer se, enquanto caráter social, histórico e patológico, esta loucura seria uma PRODUÇÃO ou uma CONSTRUÇÃO social.

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