sábado, 23 de março de 2013

A chuva e o futebol

Tragédia em Petrópolis: já são 35 mortos.

Em um jogo de futebol, a regra é clara. Cometeu falta dentro da área, é pênalti. Contudo, no futebol moderno, o empurra-empurra, o agarra-agarra e os outros-outros tantos já são considerados normais. Por uma razão óbvia, se o juiz marcasse pênaltis sempre que tivesse um empurrão dentro da área, teríamos um futebol com placar de basquete. Ou seja, a regra existe, mas a coisa toda funciona de uma forma mais adaptada, porque a dita regra é frágil nesse sentido.
 
No Rio de Janeiro, a regra da moda é: Choveu, o Rio sucumbe. Essa regra existe e funciona. Nao se adapta. Já virou rotina, um carma, uma situação que cada vez mais expõe a fragilidade do estado diante de um evento natural. Da penúltima vez, a vítima foi Xerém. A última, Petrópolis. E a próxima?


Acontece que se o juiz deixar o jogo correr assim, uma hora ele vai ter que marcar um pênalti, independentemente de ser apenas um empurrão. O juiz precisa sempre manter o jogo na mão, pra não deixar nunca a situação fugir de seu controle. E no Rio? A situação ainda não saiu do controle? Será mesmo que o Governo consegue apontar o foco do problema e elaborar uma solução sólida para contorná-lo? O caos é o mesmo há mais de quarenta anos e as desculpas também. A água invade tudo, destrói municípios, leva tetos embora. A água desaloja. A água soterra. A água mata. E o poder público caiu na inércia. Plano de Emergência não há. Até existe, mas nunca saiu do papel. Há quase três anos, o árbitro auxiliar Eduardo Paes organizou um grupo para tratar deste assunto e não se sabe que fim levou essa comissão e o nosso PLEM. Cabral perdeu o controle do jogo e os jogadores já estão ficando mais nervosos a cada falta não marcada. A explicação não apresenta surpresa alguma, é sempre a mesma velha história mal-contada. "Eu não vi, segue o jogo!" Por que não conseguimos reagir? Quanto tempo mais a torcida terá que acompanhar essa vergonha? Todo jogo é a mesma coisa, o mesmo desespero, a mesma tragédia.
 
Não podemos nunca deixar que tais "situações atípicas", como dizem as autoridades, tomem conta das nossas preocupações. O Rio precisa estar preparado para todas elas! Ainda que seja uma coisa atípica, o estado não soube lidar com ela. As obras da Praça da Bandeira parecem longe do fim e continuam como referência na mente do cidadão carioca quando o assunto é a chuva.
 
 
Eu sempre achei que o futebol e a política precisavam se modernizar. O futebol já começou: o juiz hoje em dia anda cheio de parafernalhas penduradas que o ajudam na hora de tomar certas decisões. Mas cadê a parafernalha do governador? Um governador precisa de uma rede pluvial bem postada em todas as quatro linhas do campo, precisa que os gandulas busquem o lixo sempre, para evitar que este atrapalhe o funcionamento das galerias. O governador sabe que alguns jogadores jogam sujo, não tem educação, então é preciso ter jogo de cintura, conversar no pé do ouvido. Às vezes é preciso dar um cartãozinho. Mas um bom juiz tem que ter a manha e, acima de tudo, tem que saber improvisar.
 
E o Rio todo já clama: São Pedro, feche bem as suas torneiras durante a Copa. O espetáculo agradece.

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