quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Pensamentos #2

1- O homem de terno bem cortado pegou seu prato numa bandeja, pagou pela refeição e saiu da frente da balança; foi sentar-se do lado de fora do restaurante, na praça de alimentação do shopping. Em poucos passos, um tropeço, e uma nuvem de comida sobrevoando... caindo lentamente até o chão, terminando com o barulho alto do prato quebrando em grandes estilhaços. O homem nem começara a comer, nem havia sentado à mesa ainda e viu suas batatas e seu filé desperdiçados e a pulseira de seu relógio de ouro suja de molho. Resolveu deixar como estava. Foi embora, não quis comer, não quis nada. Não quis nem saber se poderia pegar outro prato; só saiu,
insatisfeitíssimo, gritando:

- Porra, hoje não é mesmo meu dia...


2- Um menino e seu pai passeavam pelo shopping; o garoto fingia ser um aviador, com seu novo boneco da força aérea, enquanto seu pai o acompanhava e o observava com semblante tranquilo e um sorriso fraterno. Em poucos passos, um escorregão num monte de comida e pedaços brancos de um prato recém-quebrado, e uma criança estirada no chão, aos prantos, chorando, com a mão direita no antebraço esquerdo. O pai, desesperado nem pensara duas vezes, nem parou pra pegar o boneco que seu filho havia deixado cair. Pegou o filho no colo, insatisfeitíssimo:

- Porra, hoje não é mesmo meu dia...


3- Um faxineiro varria os corredores do shopping; viu comida e cacos de vidro no chão de um deles e lembrou-se de que acabara de varrer outros cinco iguais a esse no andar de cima da praça. Varreu tudo: batatas, filé, arroz... e um boneco de soldado, que ele não sabia de que desenho era. Pegou e jogou tudo num saco preto e o amarrou. Levou-o até a lixeira do lado de fora do shopping e depois do esforço de carregar o saco pesado, queixou-se, insatisfeitíssimo:

- Porra, hoje não é mesmo meu dia...


4- Um mendigo, menino de rua, andava pelas calçadas, catando tudo que via pela frente que lhe chamasse a atenção: moedas, papéis, restos de comida. Revirava as lixeiras, pegava latinhas e garrafas plásticas... sentia fome. Sentia um aperto no coração, sentia que aquele não era seu lugar. Revirou, latas de lixeira... revirou, revirou, revirou até encontrar um bonequinho sujo. A alegria tomou conta de seu rosto: pensou em todas as possibilidades de diversão que podia ter com seu novo amigo. Largou as porcarias que carregava e saiu correndo com o brinquedo, imaginando que todos os problemas haviam sumido, e que ele poderia fingir ser quem quisesse. Abraçou o boneco, satisfeitíssimo:

- Porra, hoje é mesmo meu dia...

O destino é mesmo uma coisa engraçada, a gente nunca sabe quanto a insatisfação de um empresário pode virar a felicidade de uma criança pobre...

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