segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sentimento


Confesso que nunca havia visto tantos acidentes com jet ski em tão pouco tempo. Só essa semana, depois do ocorrido com a menininha de três anos, já vi dois deles nos jornais. Parece que as pessoas resolveram botar seus jet skis na água, todas ao mesmo tempo, como se nunca tivessem feito isso. Parece que nunca houve um acidente envolvendo um jet ski. O problema é justamente esse: acidentes no mar acontecem por aí aos montes. E você ligou? Não... ninguém ligou.
Não estou aqui para acusar sua compaixão, muito menos mostrar um coração gelado que nem tenho. Mas casos assim já aconteceram antes (e provavelmente estão acontecendo agora) e nem foram divulgados pela mídia. Por que, então, os meios midiáticos tem que servir de combustível para os nossos sentimentos? Por que precisamos mostrar todo nosso moralismo e nosso senso de justiça somente quando as notícias saem no jornal e ficam rolando por semanas, talvez meses? Crianças de três anos morrem diariamente, de um jeito pior do que o outro e você não sabe nem da metade. Talvez se importasse, mas nem sabe.
Isabela Nardoni, por exemplo, ficou quase um ano em todos os jornais. A pequena menina jogada do alto do prédio: a comoção nacional, a moralidade aflorada em todos ao meu redor. E só pra você saber, no prédio onde moro, juro, tiveram dois casos iguais a esse, que não foram notícia de primeira página, tampouco de quinta, de sexta ou de última.
Ainda sob juramento, vejo menores abandonados todos os dias, literalmente morrendo de fome. Vejo pessoas serem espancadas sem motivo e outras sendo acusadas por crimes que nem cometeram. Tantas notícias que me faria perder horas escrevendo e cansariam sua leitura... e sabe onde está seu sentimento de pena nessas horas? Está jogado dentro de uma gaveta de escritório, junto com mais quatro ou cinco notícias que sairão no jornal de amanhã ou de semana que vem. Sua compaixão vai esperar até semana que vem? E se notícias como estas deixarem de aparecer, vai parar de sentir pena e vai sentir o quê, culpa?
Não sou de pedra, nem sou insensível, sinto tanta pena quanto a maioria. Mas não espero a mídia jogar as coisas em cima de mim pra saber o que é ou não é um total absurdo. Não engulo nem um terço das informações que esses formadores de opinião me passam. Formei sozinho a minha política emocional e ela, felizmente, independe do calendário do jornal. Precisamos mudar esse conceito de pena que a mídia nos atém. Se a dor dos outros também dói em você, mobilize-se. Faça algo que possa ajudar. E não fique esperando sair um acidente no jornal para descobrir que, antes do veiculado, já tiveram outros milhares.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Político na prova da Auto-escola

Político do PSDB na auto-escola:

- Estou nervoso.

- Relaxa, diz o examinador, engata a segunda e mantém aqui, na terceira via.

- Espere aí... Terceira Via?!

- Exatam...

Antes que pudesse completar, o PSDBista dá uma guinada violenta pra pista do meio.

- Você ficou maluco?, pergunta o examinador, com as pernas no teto do carro.

- Pois fique sabendo que eu não caio mais nessa de reconciliação! E nem me venha com ideologia social-democrata, eu sei do que vocês de esquerda são capazes com essa história de socialismo. Depois tiram nosso fôlego na corrida eleitoral e nos fazem perder espaço no cenário político. O FHC foi um idiota...

- Senhor, apenas pedi para que o senhor se mantesse na terceira via.

- Me manter? Eu nunca quis participar disso, muito menos apoio! Sabe a confusão que deu com o coitado do Clinton por causa disso?! E o Blair? O BLAIR?!

- Senhor, estou falando da estrada...

- Chame como quiser, mas não seja um defensor entusiasta dessa corrente na minha frente.

- Tudo bem, senhor, encoste o carro, o senhor foi reprovado.

- Ora, mais por quê?!

- Já perdeu quatro pontos: dois pela guinada sem motivo para o meio da pista e mais dois por não ligar a seta para esquerda.

- Seta para esquerda? NUNCA!

- Então saia do carro.

O político sai do carro furioso:

- Babacas, nunca vão entender o conservadorismo!


Nota do autor: Terceira Via, é o nome dado a uma política criada por volta de 1980, que tenta recociliar a direita e a esquerda numa política conservadora e de uma política social progressista. Aqui, na América Latina, porém, a política não deu certo, uma vez que as políticas neoliberais apareceram associadas à questão da renegociação da dívida externa, como se fosse um problema na política econômica. No Brasil, houve a consolidação do PSDB e do Presidente Fernando Henrique Cardoso participando ativamente da política ao lado de Tony Blair e Clinton. A Terceira Via, porém, perdeu espaço nos anos 2000 após sucessivas derrotas nas urnas.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Eu abulo

Dois amigos conversando no metrô:

- Aí, cara, eu tava pensando...

- Pronto, lá vem.

- Que é?

- Você. Já te disse que pensar não é teu forte.

- Para de graça, Arthur, tô falando sério!

- Quer parar de gritar no metrô?

- Não tô gritando!

- Tá sim...

- Tô? Ah, enfim, me escuta... Sabe a Princesa Isabel?

- ...isso é nome de guerra de puta?

- Não, idiota, tô falando da princesa, Princesa mesmo...

- Ah, aquela daquela lei lá?

- Isso. Áurea.

- ...quem é Áurea?

- A LEI Áurea!

- Sem gritar, Gilberto, sem gritar.

- Tá, tá... sabe de quem eu tô falando?

- Sei, sei, que que tem ela?

- Bom, a lei que ela assinou, em mil oitocentos e sei-lá-quanto, aboliu a escravatura, certo?

- Aham...

- Bom, se ela aboliu a escravidão, do tipo, verbo abolir... como foi que ela escreveu?

- ...cê tá bem, Gilberto?

- Não, sério, percebe só... se é abolição dos escravos... sabe, como eu posso explicar? Ela não poderia ter usado o verbo abolir, entendeu?

- Não.

- Ela não poderia escrever 'eu abulo'.

- Por que não?

- Porque é um verbo defectivo.

- Tá, e daí?

- E daí que isso não existe!

- Não existe o quê?

- Eu abulo!

- Sem gritar. Você abole o quê?

- Não abulo nada, foi o que a princesa escreveu. E 'abole' também não existe.

- A princesa escreveu o quê?

- Eu abulo!

- Mas que maniazinha feia de gritar em lugar fechado, hein? Que que tem ela ter escrito isso?

- É errado, ela não poderia ter escrito isso, 'eu abulo' não existe.

- Por que não?

- Porque é um verbo defectivo, Arthur....

- O que é isso?

- É um verbo que não tem todas as conjugações, por causa do significado ou pela falta de eufonia.

- Você quer me explicar uma coisa difícil usando outra coisa difícil... assim fica difícil.

- O que é difícil?

- Essa euforia aí, que você falou.

- EufoNia.

- É, é...

- Eufonia, Arthur, não tem boa sonoridade, sabe, o som fica esquisito.

- Ah tá... e só por isso ele não... 'existe'?

- É.

- Por que?

- Sei lá. Mas se ela não existe, e a Princesa usou 'eu abulo' na lei... tecnicamente ela não disse que estava libertando os escravos, certo? Quer dizer, ela usou uma coisa que não existe, nunca existiu uma libertação.

- Talvez... o que significa abolir?

- Extinguir, deixar de usar...

- Libertar?

- Hum, não exatamente, mas é, sim, libertar.

- Bom, ela pode ter colocado 'eu liberto' na lei. Assim, isso não muda nada.

- Verdade, não tinha pensado nisso...

- Viu, eu disse que pensar não é o seu forte.

- Cala a boca, Arthur!

- Não grita, Gilberto, não grita.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

pontinho pontinho pontinho

A gente sempre imagina a linha reta como uma linha contínua, normal. O que poucos sabem, é que a reta não passa de uma grande sequência de pontos. Isso mesmo, pontos. Pontos enfileirados que se transformarão numa linha, pequenos momentos que se tornarão uma história. Reticências de uma frase que são a linha de pensamento para os complementos.
A vida é feita de pontos, de linhas e reticências, da maneira que traçamos estas linhas, da maneira como lidamos com nossa forma de desenhar. E toda linha, todo pensamento, começa num ponto. Do ponto inicial até a linha de chegada. É isso que faz do desenho da nossa vida a geometria frustrada de tentar entender o quão difícil é lidar com uma simples sequência de pontos. É isso que nos engrandece, nossa capacidade de não tentar entender... só de desenhar... retiências... ponto.

Cachaça e Vodca

Deixe-me lhe falar sobre três coisas. Só três. A primeira é sobre caipirinhas. Eu amo caipirinhas. Uma boa caipirinha depende de uma combinação harmoniosa entre os ingredientes, não se pode sentir mais gosto de açúcar que de limão, por exemplo. É preciso ficar em dúvida, pensar 'tá legal, qual sabor eu sinto primeiro?', e geralmente esta combinação perfeita só se encontra nos piores bares. Não fique pensando que só porque a caipirinha feita com vodca daquela boate lhe custou dez pratas, ela será melhor. Não sei quem teve essa ideia de meter vodca na caipirinha. Caipirinha que é caipirinha é feita com cachaça barata. Nem sempre, quase nunca, coisas caras significam coisas boas. Transportes coletivos (essa é a segunda coisa sobre qual ia lhes falar) são um exemplo. Tenho quase certeza de quem colocaram vodca nos ônibus. Quase certeza. A combinação não é mais harmoniosa, às vezes tem pouco lugar, quando tem lugar, tem espera demais, quando não tem espera, não tem troco... e pra piorar, colocaram vodca. Não existe outra explicação para que uma passagem fique cada vez mais cara, quando faltam tantos ingredientes no ônibus. Os empresários cortaram carros da frota, manutenção e até mesmo trocadores... não sei como eles alegam tanto prejuízo, deve ser realmente a maldita da vodca pra fazer com que o preço fique sofrendo esses reajustes regulares.
Estou até planejando uma campanha publicitária em prol destas duas causas. Falando nisso, publicidade era a terceira coisa que ia falar. Que jeito prático de se ganhar dinheiro, não é verdade? A publicidade está aí, pra todo e qualquer tipo de público alvo. Você sai de casa e lá estão elas, as propagandas, espalhadas pelas ruas, não tem como não ver, mesmo que não queira. E dependendo do local que estejam, elas geram uma receita ainda maior. Já pensou, senhor empresário, na grana que ganharia colocando dois ou três anúncios dentro de cada um dos coletivos da sua frota? Milhões e milhões de pessoas passam por eles todos os dias, milhões e milhões lhe seriam pagos pelas empresas que desejam vender a sua marca. Quem sabe até com toda essa parafernalha de propaganda, o preço das passagens poderia diminuir, as condições do transporte melhorarem... acho que dá até pra cortar a vodca do orçamento.
Com o dinheiro que as pessoas economizarão com seu transporte durante a semana, os sábados e domingos serão de festa, sentados em botecos, tomando aquela maravilhosa caipirinha gelada. Com cachaça, é óbvio.