segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O CÉU e o DETRAN

Imagine se os portões de entrada do Paraíso fossem controlados pelo DETRAN?

Eu cheguei lá em cima, ainda meio atordoado, procurando alguém que pudesse me orientar. Afinal, tudo era novidade. Eu havia acabado de ser atropelado. Que sensação horrível, me sentia um paralítico voador. Não sentia nenhuma parte do meu corpo, mas flutuava suavemente. Parece estranho, mas um dia você vai entender, é exatamente assim que funciona. Pois bem, fui procurar ajuda. Como sempre fui muito desprendido de crenças, resolvi procurar aquela luz que tanto falavam pra mim, em vida, e que eu não fazia ideia do que se tratava. Agora que sei, posso jurar, quase pela minha vida, que seguir a luz é uma cilada. Repito: cilada! Prestem atenção.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A maleta

E lá estávamos nós novamente, eu e o França, deixando o Rio Grande do Sul. À trabalho, infelizmente, nunca à passeio. O que não significa, claro, que não aproveitaríamos a linda Lisboa; devia haver mais cidades como a capital portuguesa: cidade linda, povo agradável, comida gostosa.

- Tomaste o teu calmante? - perguntei ao França.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Rapidinha da semana #23


Hoje é o 96° dia de greve. E olha que bacana, o Ministério da Educação continua sem pressa alguma. Nossa presidenta (ai, que neologismo!) Dilma Roussef também está de braços cruzados. Enquanto isso, os alunos continuam sem estudos, os professores sem respeito, e o descaso segue em passadas largas. Se quer um belo exemplo do que é sofisma, examine a mídia e o governo tratando os professores grevistas como vagabundos (o que aliás, é mais por parte do governo, porque, sejamos sinceros, a mídia está de olho num peixe maior por aí, pois nunca fala e trata do assunto como deveria, e nos deixa meio assim, 'aquém'), colocando metade da população contra os profissionais que mais deveriam ser respeitados, talvez até os que deveriam estar no Top 10 dos mais ricos.

Mas não.

Pensamentos #1

Os números podem até ser exatos, mas não é possível que eles sejam totalmente exatos, quando em parceria com a lógica fordista e impulsiva humana. Somos acostumados a pensar em determinadas sequências por um longo período da nossa vida, e nem sempre a exatidão dos números vai satisfazer nossas deduções:

2, 4, 6, 8, ...

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Clima de mudança

Expressões e ditados populares existem aos montes, e mesmo assim eu não conheço um terço deles. O outro terço eu até já ouvi, mas nem sei o que significa, como "cor de burro quando foge". E tem aquele outro tercinho que são as expressões que a gente realmente se identifica. Aquelas que escutamos e pensamos "nossa, verdade, né?", tem alguma coisa na popularidade delas que as torna muito pessoais, parece que fomos nós mesmos quem escrevemos, em determinado momento da nossa vida, pra refletir sobre um problema particular.

Uma expressão que conheço e que soava muito clichê no meu ouvido era a tal da "nunca é tarde para mudar". Eu sempre recriminei essa frase, ficava me imaginando lendo aquele livro grosso de auto-ajuda, sentado no vaso sanitário do meu banheiro, enquanto buscava uma solução ideal para o meu estado desagradável atual. Nunca gostei de clichês, então nunca gostei da ideia de que não era tarde pra mudar alguma coisa.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Dia do índio

http://pib.socioambiental.org/pt


- E aí, qual o legado dos índios para a nossa cultura atual?

- Fácil, os seres fantásticos do folclore, a mandioca, o açaí... ah!, e a rede.


Vivemos numa sociedade em que a cultura indígena, para uma boa parte, se resume a isso. Não posso dizer 'maioria' porque não tenho dados, mas com certeza é uma parte grande. E o problema, é que não posso culpar diretamente quem dá essa afirmação, pois não está na nossa tradição aprender sobre a cultura dos índios. Nunca esteve.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Como cuidar da própria vida

Como disse Mario Quintana, "uma página em branco é a virgindade mais desesperada que existe." Olhei meu caderno às 5 da manhã e senti tesão para escrever. Segue aí o passo-a-passo!

O que não nos ocorre na cabeça que já não tenha sido pensado e muito melhor elaborado por um escritor ou filósofo? Tudo que precisamos entender sobre nós mesmos, na maioria das vezes, já vem mastigado, escrito no passo-a-passo. E a nossa conformidade em acreditar nos pensamentos dos outros sem tentar formar nossas próprias ideologias e opiniões, criou um comodismo bem dinâmico entre o 'eu' e o 'pensador'; um comodismo intelectual, pode-se assim chamar.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Rapidinha da semana #22



Como de costume, tá rolando no Centro Cultural do Banco do Brasil (famoso CCBB) diversas exposições, cada uma melhor do que a outra. Eu estava nas minhas andanças pelo Centro da cidade e dei uma passada lá pra conferir e agora não posso deixar de recomendar.

Tive tempo de sobra e além de ver as exposições permanentes da Coleção de Moedas e da História do Banco do Brasil, ainda vi as exposições Divortium Aquarium, do José Rufino, Anticorpos, dos irmãos Fernando e Humberto Campana e o Percurso Afetivo, da Tarsila do Amaral. Se liga só:

Divortium Aquarium - Norteado pela apropriação e transmutação de memórias locais, socioculturais e políticas, a exposição do paraibano José Rufino recupera memórias relacionadas ao universo dos rios e dos mares. O tipo de exposição que cabe em uma única sala, mas que precisa de horas para ser decifrada. A expressão dos materiais dispostos em aglomerado ou nas estantes refletiam dor, agonia e histórias de pescador. Gostei muito! NOTA 8

Anticorpos - A exposição dos irmãos Campana aponta a variedade formal e de materiais usados por eles. Contempla, ainda, a biografia de Fernando e Humberto, filmes, fotos e os objetos-chave decisivos para o crescimento das formulações acerca dos princípios criativos. Não é muito a minha praia esse tipo de arte, mas algumas eculturas eram verdadeiramente impressionantes e chamaram atenção. Muitas cores e muita criatividade. NOTA 7

Percurso Afetivo - Primeira exposição individual nos últimos 40 anos no Rio de Janeiro de uma das mais importantes e emblemáticas artistas do modernismo brasileiro. O conceito curatorial teve inspiração no diário da artista e reuniu 82 obras, entre pinturas, desenhos, objetos e gravuras para um percurso emocional, afetivo e único. Fantástico! Mostra toda a trajetória da artista nos tempos de Academia, da Equipe Modernista e suas influências na arte cubista. NOTA 9

CONFIRAM, VALE A PENA!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

PORTO NÃO!

Tenho quase certeza de que todos vocês já ouviram falar nas descobertas de poços de petróleo e gás na camada chamada de pré-sal. A produção de petróleo brasileira, com a descoberta dos tais poços cresceu mais de 30%, o que, para os nacionalistas, é motivo de orgulho e a sensação de que o Brasil está se desenvolvendo industrial e economicamente forte no cenário mundial.
Para atender a essa nova demanda de produção, está sendo construída a Refinaria de Itaboraí, conhecida como Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (COMPERJ). Em pararelo à essa construção, as autoridades públicas entenderam que a melhor solução para o escoamento da produção, com o intuito de atender as necessidades do mercado externo, é a construção do Terminal de Ponta Negra, o TPN. Esse pólo será composto por um porto e um estaleiro e será construído no canto direito da praia de Jaconé. Espera-se que a sua construção se torne uma âncora para o COMPERJ.
A DTA Engenharia, responsável pelo projeto - avaliado em mais de cinco bilhões de reais - afirma que o porto terá capacidade para receber 40% de toda a atual produção do país, o que equivale a 850 mil barris de petróleo por dia.

MAS ENTENDAM QUE:

A DTA, em parceria com a prefeitura de Maricá, está elaborando um pedido de licenciamento ambiental que pode ser expedido no segundo semestre desse ano. Em dezembro do ano passado, a Câmara dos Vereadores de Maricá modificou o Plano Urbanístico, alterando o zoneamento urbano do município, transformando àquela área em pólo industrial naval. PORÉM, a legalidade dessa alteração é questionável, por ter pulado etapas legalmente necessárias para efetuar essa alteração no Plano. A população de Jaconé, Ponta Negra e da vizinha Saquarema são contrárias a construção desse porto. Boa parte das pessoas, inclusive, está 'curiosa' para saber por que não foi consultada ou informada, dada a importância da mudança. O fato da população não saber do que está acontecendo mostra que as afirmativas do atual prefeito, Washington Quaquá, a respeito do apoio a obra por conta dos habitantes, são falsas:

- Sempre vai ter gente contrária, mas o projeto é bom. Vai gerar empregos e continuaremos com o turismo - disse ele. - O empreendimento compensará o impacto, transformando Ponta Negra em complexo turístico.

O empreendimento compensará o impacto? Deixo essa pra vocês refletirem.

Para muitos, a escolha do local foi totalmente equivocada, pois um empreendimento desta magnitude põe em xeque uma das mais bonitas praias do Rio de Janeiro, afetando diretamente a natureza, a paisagem e a população. Ecossistemas seriam os primeiros a sucumbir. O projeto precisa (e muito) ser repensado; a região, para quem não sabe, é importante para quatro espécies diferentes de baleias: Jubarte, Orca, Franca e Bryde. Quem frequenta a praia da região, sabe que as baleias estão sempre próximas da costa.
E o presidente da DTA, Oliveira Neto, não passa de um brincalhão:

- A não ser que descubram que lá é o local de procriação da baleia branca de papo amarelo, não vemos maiores impactos ambientais.

Deixo essa piadinha pra vocês refletirem também...

Outra piadinha interessante é a do Secretário de Desenvolvimento Econômico, Energia, Insdústria e Serviços do Estado do Rio de Janeiro (ufa!), Júlio Bueno, que confirma que a iniciativa tem o apoio do Governo Estadual e que um estudo preliminar não detectou maiores problemas ambientais:
- O porto pode ser o início da redução de uso do Tebig (o terminal mais usado pela Petrobras no estado, em Angra dos Reis), ou seja, é a chance de retirar a atividade de petróleo de um paraíso.

Bacana né? Retirar a atividade do paraíso, para que ele não seja destruído... e o NOSSO PARAÍSO? Continuem reflitindo...

Tudo isso preocupa, não só aos ambientalistas, mas também a nós, frequentadores da região desde a infância, moradores que vivem lá há mais de 50 anos e querem que tudo continue do mesmo jeito: o lugar perfeito para descansar, praticar a pesca e o surfe. De uma forma geral, todos tememos os impactos na região. O desenvolvimento não irá trazer 'somente' a poluição e a destruição do ecossistema local. O crescimento urbano traz problemas de super-lotação, violência, sujeira, engarrafamentos, acidentes e assaltos. De alguns meses para cá, moradores de meio século na região ouviram tiros, coisa que nunca pensaram ouvir:

- Nunca pensei ficar com medo de sair do meu condomínio. Antes eu podia deixar minha vara de pesca e todo o meu material na praia e voltar pra almoçar, que ninguém mexia. Não tinha assaltante, não tinha barulho de tiro. Daqui a pouco começa a favelização e o lugar vai virar comunidade de Jaconé... - disse um morador e vizinho.

A manutenção das embarcações e plataformas envolvem despejo de óleo no mar, além da possibilidade real de acidentes provocarem vazamentos de grandes proporções, o que afetaria diretamente a vida de muitas famílias que dependem da atividade da pesca artesanal.
Para evitar críticas, os empreendedores prometem revolucionar com uma nova tecnologia contra vazamento de óleo. O presidente Oliveira (Brincalhão) Neto afirma que:

- Criamos uma tecnologia, que vamos patentear, que reduz o impacto de um eventual vazamento de óleo. Será uma cortina que liga os moles (estruturas de pedra que cercam o porto, reduzindo as ondas no terminal). No caso de derramamento, ela subirá e deixará o óleo restrito à área do porto.

Eventual? E se...?

MINHA HUMILDE OPINIÃO:

Brasileiro tem essa mania de construir. Nunca reaproveitar. Só construir. Os números é que são importantes. Não basta haver 80 escolas destruídas, o governo não as conserta e ainda constroi mais 30. Não bastam existir 150 hospitais em condições precárias para atendimento, o governo não os conserta e ainda constroi mais 50. Tudo pra quê? Para que, na campanha, possa dizer que construiu. Constroi algo que não pode manter. E assim, temos 110 escolas destruídas e 200 hospitais precários, quando o que realmente poderiam fazer, era consertar o que já está construído. O gasto é menor e a sustentabilidade é maior.
Com o porto funciona do mesmo jeito. Não é melhor fazer um planejamento e aproveitar melhor as instalações e estruturas já existentes? Para que ter uma pilha de portos em mau funcionamento ou com pouco aproveitamento? Aí construírão o porto de Maricá e depois de anos construírão outro e este se tornará obsoleto. E o paraíso será destruído por mero capricho? O estado do Rio possui estruturas portuárias que podem servir de apoio para essa futura produção. O Porto de Angra dos Reis já dá suporte à produção nacional de petróleo, e poderia ser ampliado para atender a nova demanda.
Faz ideia do impacto que isso pode causar? Da destruição de um ecossistema gigantesco, com frequente visita de animais como baleias, golfinhos e até pinguins? De como a vida das pessoas que moram lá pode piorar? Pode ser muito fácil dizer que o crescimento é muito bom, quando não se faz ideia dos problemas que ele pode causar. Garanto que nem metade das pessoas que apoia a obra sabe realmente de tudo que ela acarretará, pois o impacto social e cultural seria desastroso. A região NÃO TEM infraestrutura urbana para receber um empreendimento dessa envergadura, como moradias, saneamento básico, escolas, hospitais, transporte público, além de surgir uma criminalidade decorrente das possíveis mudanças. Portos para serem instalados precisam de pesquisas em diversos seguimentos, diversos estudos preliminares. Um projeto como este não pode ser feito da noite para o dia, precisariam anos para sua elaboração, devido a complexidade do sistema.
Tem um ponto chamado de "Beachrock Jaconé", um sítio arqueológico e biológico de imenso valor científico. Atualmente fonte de pesquisas das Federais UFRJ e UFF e da Estadual UERJ. Sua principal importância se deve ao fato de ali ter sido catalogado por Charles Darwin, no século XIX, como de relevada importância científica.
A praia de Jaconé é considerada uma das melhores para a prática do surf, além de ser um ótimo local para a pesca artesanal e profissional. Diversas espécies de animais e vegetais teriam seus habitats naturais destruídos, causando danos ambientais irreversíveis. Os vazamentos e efluentes químicos fatalmente transformariam este cenário natural, como os exemplos de outros portos situados próximo as populações.
Concluindo, várias ONG's, associações de surf, ambientalistas e moradores, se uniram, lançando a campanha "S.O.S. JACONÉ. PORTO NÃO!"

REFLITAM MUITO SOBRE TUDO QUE ESTÁ AQUI! NOSSO PARAÍSO NÃO PODE MORRER! PORTO NÃO!

COMPARTILHEM E NOS AJUDEM!

domingo, 25 de março de 2012

Sem sono

- Bento...

- Fala.

- Não consigo dormir...

- Nem eu. Sem sono?

- É... ainda tem daqueles comprimidos aí?

- Nenhunzinho.

- Merda, preciso acordar cedo amanhã.

- Só você? Eu tenho que estar na Cinelândia às 7.

- Bom... a gente precisa gastar energia, né? Bem que podíamos fazer aquilo...

- Meu Deus, de novo, Kátia?

- Ué, que que tem?

- Passamos o dia todo fazendo isso ontem!

- E daí? É regra, não pode fazer dois dias seguidos?

-  Poder até pode, mas é que já está tarde né...

- Ah. Bento, quando você não quer tem sempre uma desculpa.

- Não é que eu não queira, Kátia, mas você é muito escandalosa, vai acordar os vizinhos.

- Escandalosa não, eu fico animada!

- Tanto faz, você não para de gritar.

- A culpa é minha agora? E você que não para quieto, se jogando de um lado pro outro? Quase quebrou a mesinha de centro ontem.

- Só porque você gritou no meu ouvido. Aliás, não acordo ninguém só me remexendo.

- Tá bom, Bento, tá bom, a culpa é minha mesmo, tá?. Deixa pra lá, eu vou tentar dormir, boa noite.

- Kátia, para de drama...

- Não tô fazendo drama. Só esquece isso e dorme.

- Ai, caramba... uma rapidinha só e a gente dorme, tudo bem?

- Ah, agora você quer? Também não quero.

- Tá vendo como é drama? Deixa de bobeira, Kátia, vamos logo.

- Estúpido.

- Dramática.

- Grosso.

- Pentelha.

- Te amo.

- Também. Vamos? Três sets só hein.

- Tá, vou ligando a tevê e o Wii, vai procurando o Mario Tênis, acho que está na terceira gaveta.

sábado, 17 de março de 2012

Rapidinha da semana #21


De 23 a 25 de fevereiro (2012), o Canal Rural estava em Restinga Seca (RS), onde aconteceu a 22ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz. O canal transmitiu, ao vivo, no dia 24, o III Fórum do Arroz, que este ano trouxe como tema a campanha publicitária "Marketing do arroz + feijão: a dupla imbatível que precisa se reinventar", que consiste na elaboração de uma campanha, em parceria com o governo, para a popularização do arroz e feijão na vida dos brasileiros, uma vez que este costume tem sido cada vez menos frequente, devido aos preços e as opções mais baratas e práticas do mercado, como o macarrão, além da agravante crise financeira pela qual o setor passa. Tendo como base o marketing feito pelos cafeicultores em 2010, a campanha "Beba Café!", que recebeu (muita) ajuda financeira do governo para incentivar o consumo do produto, que também estava em baixa, os orizicultores esperam um resultado positivo, já que a campanha governamental foi um sucesso, aumentando as vendas do café em quase 30%.

Essas campanhas de incentivo do governo são um sucesso, né? Agora, imagina se eles resolvem fazer uma campanha dessas para Educação, Saúde, Cidadania... é, é...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sentimento


Confesso que nunca havia visto tantos acidentes com jet ski em tão pouco tempo. Só essa semana, depois do ocorrido com a menininha de três anos, já vi dois deles nos jornais. Parece que as pessoas resolveram botar seus jet skis na água, todas ao mesmo tempo, como se nunca tivessem feito isso. Parece que nunca houve um acidente envolvendo um jet ski. O problema é justamente esse: acidentes no mar acontecem por aí aos montes. E você ligou? Não... ninguém ligou.
Não estou aqui para acusar sua compaixão, muito menos mostrar um coração gelado que nem tenho. Mas casos assim já aconteceram antes (e provavelmente estão acontecendo agora) e nem foram divulgados pela mídia. Por que, então, os meios midiáticos tem que servir de combustível para os nossos sentimentos? Por que precisamos mostrar todo nosso moralismo e nosso senso de justiça somente quando as notícias saem no jornal e ficam rolando por semanas, talvez meses? Crianças de três anos morrem diariamente, de um jeito pior do que o outro e você não sabe nem da metade. Talvez se importasse, mas nem sabe.
Isabela Nardoni, por exemplo, ficou quase um ano em todos os jornais. A pequena menina jogada do alto do prédio: a comoção nacional, a moralidade aflorada em todos ao meu redor. E só pra você saber, no prédio onde moro, juro, tiveram dois casos iguais a esse, que não foram notícia de primeira página, tampouco de quinta, de sexta ou de última.
Ainda sob juramento, vejo menores abandonados todos os dias, literalmente morrendo de fome. Vejo pessoas serem espancadas sem motivo e outras sendo acusadas por crimes que nem cometeram. Tantas notícias que me faria perder horas escrevendo e cansariam sua leitura... e sabe onde está seu sentimento de pena nessas horas? Está jogado dentro de uma gaveta de escritório, junto com mais quatro ou cinco notícias que sairão no jornal de amanhã ou de semana que vem. Sua compaixão vai esperar até semana que vem? E se notícias como estas deixarem de aparecer, vai parar de sentir pena e vai sentir o quê, culpa?
Não sou de pedra, nem sou insensível, sinto tanta pena quanto a maioria. Mas não espero a mídia jogar as coisas em cima de mim pra saber o que é ou não é um total absurdo. Não engulo nem um terço das informações que esses formadores de opinião me passam. Formei sozinho a minha política emocional e ela, felizmente, independe do calendário do jornal. Precisamos mudar esse conceito de pena que a mídia nos atém. Se a dor dos outros também dói em você, mobilize-se. Faça algo que possa ajudar. E não fique esperando sair um acidente no jornal para descobrir que, antes do veiculado, já tiveram outros milhares.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Político na prova da Auto-escola

Político do PSDB na auto-escola:

- Estou nervoso.

- Relaxa, diz o examinador, engata a segunda e mantém aqui, na terceira via.

- Espere aí... Terceira Via?!

- Exatam...

Antes que pudesse completar, o PSDBista dá uma guinada violenta pra pista do meio.

- Você ficou maluco?, pergunta o examinador, com as pernas no teto do carro.

- Pois fique sabendo que eu não caio mais nessa de reconciliação! E nem me venha com ideologia social-democrata, eu sei do que vocês de esquerda são capazes com essa história de socialismo. Depois tiram nosso fôlego na corrida eleitoral e nos fazem perder espaço no cenário político. O FHC foi um idiota...

- Senhor, apenas pedi para que o senhor se mantesse na terceira via.

- Me manter? Eu nunca quis participar disso, muito menos apoio! Sabe a confusão que deu com o coitado do Clinton por causa disso?! E o Blair? O BLAIR?!

- Senhor, estou falando da estrada...

- Chame como quiser, mas não seja um defensor entusiasta dessa corrente na minha frente.

- Tudo bem, senhor, encoste o carro, o senhor foi reprovado.

- Ora, mais por quê?!

- Já perdeu quatro pontos: dois pela guinada sem motivo para o meio da pista e mais dois por não ligar a seta para esquerda.

- Seta para esquerda? NUNCA!

- Então saia do carro.

O político sai do carro furioso:

- Babacas, nunca vão entender o conservadorismo!


Nota do autor: Terceira Via, é o nome dado a uma política criada por volta de 1980, que tenta recociliar a direita e a esquerda numa política conservadora e de uma política social progressista. Aqui, na América Latina, porém, a política não deu certo, uma vez que as políticas neoliberais apareceram associadas à questão da renegociação da dívida externa, como se fosse um problema na política econômica. No Brasil, houve a consolidação do PSDB e do Presidente Fernando Henrique Cardoso participando ativamente da política ao lado de Tony Blair e Clinton. A Terceira Via, porém, perdeu espaço nos anos 2000 após sucessivas derrotas nas urnas.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Eu abulo

Dois amigos conversando no metrô:

- Aí, cara, eu tava pensando...

- Pronto, lá vem.

- Que é?

- Você. Já te disse que pensar não é teu forte.

- Para de graça, Arthur, tô falando sério!

- Quer parar de gritar no metrô?

- Não tô gritando!

- Tá sim...

- Tô? Ah, enfim, me escuta... Sabe a Princesa Isabel?

- ...isso é nome de guerra de puta?

- Não, idiota, tô falando da princesa, Princesa mesmo...

- Ah, aquela daquela lei lá?

- Isso. Áurea.

- ...quem é Áurea?

- A LEI Áurea!

- Sem gritar, Gilberto, sem gritar.

- Tá, tá... sabe de quem eu tô falando?

- Sei, sei, que que tem ela?

- Bom, a lei que ela assinou, em mil oitocentos e sei-lá-quanto, aboliu a escravatura, certo?

- Aham...

- Bom, se ela aboliu a escravidão, do tipo, verbo abolir... como foi que ela escreveu?

- ...cê tá bem, Gilberto?

- Não, sério, percebe só... se é abolição dos escravos... sabe, como eu posso explicar? Ela não poderia ter usado o verbo abolir, entendeu?

- Não.

- Ela não poderia escrever 'eu abulo'.

- Por que não?

- Porque é um verbo defectivo.

- Tá, e daí?

- E daí que isso não existe!

- Não existe o quê?

- Eu abulo!

- Sem gritar. Você abole o quê?

- Não abulo nada, foi o que a princesa escreveu. E 'abole' também não existe.

- A princesa escreveu o quê?

- Eu abulo!

- Mas que maniazinha feia de gritar em lugar fechado, hein? Que que tem ela ter escrito isso?

- É errado, ela não poderia ter escrito isso, 'eu abulo' não existe.

- Por que não?

- Porque é um verbo defectivo, Arthur....

- O que é isso?

- É um verbo que não tem todas as conjugações, por causa do significado ou pela falta de eufonia.

- Você quer me explicar uma coisa difícil usando outra coisa difícil... assim fica difícil.

- O que é difícil?

- Essa euforia aí, que você falou.

- EufoNia.

- É, é...

- Eufonia, Arthur, não tem boa sonoridade, sabe, o som fica esquisito.

- Ah tá... e só por isso ele não... 'existe'?

- É.

- Por que?

- Sei lá. Mas se ela não existe, e a Princesa usou 'eu abulo' na lei... tecnicamente ela não disse que estava libertando os escravos, certo? Quer dizer, ela usou uma coisa que não existe, nunca existiu uma libertação.

- Talvez... o que significa abolir?

- Extinguir, deixar de usar...

- Libertar?

- Hum, não exatamente, mas é, sim, libertar.

- Bom, ela pode ter colocado 'eu liberto' na lei. Assim, isso não muda nada.

- Verdade, não tinha pensado nisso...

- Viu, eu disse que pensar não é o seu forte.

- Cala a boca, Arthur!

- Não grita, Gilberto, não grita.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

pontinho pontinho pontinho

A gente sempre imagina a linha reta como uma linha contínua, normal. O que poucos sabem, é que a reta não passa de uma grande sequência de pontos. Isso mesmo, pontos. Pontos enfileirados que se transformarão numa linha, pequenos momentos que se tornarão uma história. Reticências de uma frase que são a linha de pensamento para os complementos.
A vida é feita de pontos, de linhas e reticências, da maneira que traçamos estas linhas, da maneira como lidamos com nossa forma de desenhar. E toda linha, todo pensamento, começa num ponto. Do ponto inicial até a linha de chegada. É isso que faz do desenho da nossa vida a geometria frustrada de tentar entender o quão difícil é lidar com uma simples sequência de pontos. É isso que nos engrandece, nossa capacidade de não tentar entender... só de desenhar... retiências... ponto.

Cachaça e Vodca

Deixe-me lhe falar sobre três coisas. Só três. A primeira é sobre caipirinhas. Eu amo caipirinhas. Uma boa caipirinha depende de uma combinação harmoniosa entre os ingredientes, não se pode sentir mais gosto de açúcar que de limão, por exemplo. É preciso ficar em dúvida, pensar 'tá legal, qual sabor eu sinto primeiro?', e geralmente esta combinação perfeita só se encontra nos piores bares. Não fique pensando que só porque a caipirinha feita com vodca daquela boate lhe custou dez pratas, ela será melhor. Não sei quem teve essa ideia de meter vodca na caipirinha. Caipirinha que é caipirinha é feita com cachaça barata. Nem sempre, quase nunca, coisas caras significam coisas boas. Transportes coletivos (essa é a segunda coisa sobre qual ia lhes falar) são um exemplo. Tenho quase certeza de quem colocaram vodca nos ônibus. Quase certeza. A combinação não é mais harmoniosa, às vezes tem pouco lugar, quando tem lugar, tem espera demais, quando não tem espera, não tem troco... e pra piorar, colocaram vodca. Não existe outra explicação para que uma passagem fique cada vez mais cara, quando faltam tantos ingredientes no ônibus. Os empresários cortaram carros da frota, manutenção e até mesmo trocadores... não sei como eles alegam tanto prejuízo, deve ser realmente a maldita da vodca pra fazer com que o preço fique sofrendo esses reajustes regulares.
Estou até planejando uma campanha publicitária em prol destas duas causas. Falando nisso, publicidade era a terceira coisa que ia falar. Que jeito prático de se ganhar dinheiro, não é verdade? A publicidade está aí, pra todo e qualquer tipo de público alvo. Você sai de casa e lá estão elas, as propagandas, espalhadas pelas ruas, não tem como não ver, mesmo que não queira. E dependendo do local que estejam, elas geram uma receita ainda maior. Já pensou, senhor empresário, na grana que ganharia colocando dois ou três anúncios dentro de cada um dos coletivos da sua frota? Milhões e milhões de pessoas passam por eles todos os dias, milhões e milhões lhe seriam pagos pelas empresas que desejam vender a sua marca. Quem sabe até com toda essa parafernalha de propaganda, o preço das passagens poderia diminuir, as condições do transporte melhorarem... acho que dá até pra cortar a vodca do orçamento.
Com o dinheiro que as pessoas economizarão com seu transporte durante a semana, os sábados e domingos serão de festa, sentados em botecos, tomando aquela maravilhosa caipirinha gelada. Com cachaça, é óbvio.