quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O hotel

É por isso que eu digo que todos aqueles que têm o hábito de escrever, devem carregar um bloquinho e um lápis pra todos os cantos que vão. São nas horas mais inusitadas que aparecem as melhores ideias. E, claro, são nas horas mais impróprias, que acontecem as coisas mais divertidas. Escritor que se preza, anota as babaquices do dia-a-dia, afinal, foi assim que essa história saiu.

Era o último domingo de março, e como todo último domingo de todos os meses, Lúcia colocou seu vestido florido curto, seu chapelão, deu um beijinho no marido e disse que ia à praia com sua irmã, Milena. O que era uma mentira deslavada, ela ia mesmo encontrar-se com Cadu, seu amante há quase um ano. Devia ser uma coisa muito bem tramada, afinal, Laércio não podia nem desconfiar. Por sorte ele era meio lento, pois não percebia que ela dava sempre a mesma desculpa de praia até nos dias em que estava chovendo.
Quem não se importava muito com isso era Cadu. O garotão, de 26 anos, queria era traçar a coroa cheia de grana; todo domingo eles iam para o mesmo hotel e ela bancava todas as regalias que podia, desde caviar aos quartos luxuosos com hidromassagem. E para Cadu, Lúcia fazia questão de pagar, era uma espécie de agradecimento. No auge de seus 42 anos, juíza do Supremo Tribunal, mal saía com seu marido... precisava aproveitar de algum modo. Nisso, o garoto sarado e cheio de gás apareceu em sua vida, oferecendo prazer e ela não perdeu a oportunidade.
Cortando as apresentações e a bonita história de como os dois se conheceram, lá foram eles para o Leme Othon Palace, um baita hotel com vista para o mar, que fica no Leme. Lúcia sempre quis do bom e do melhor e a última coisa que queria era transar em qualquer barraco, tanto que a vontade de ser juíza valia mais pelo ar condicionado do local que o próprio salário, mas entre ser taxista e juíza, já que táxi também pode ter o aparelho, aí sim ela pensou na grana.
Ela já havia feito a reserva a duas semanas atrás, no nome de Patrícia Flamboyant. Era uma espécie de nome de guerra, não queria que ninguém descobrisse que ela andava perambulando pelo hotel com tanta frequência. Tendo pego o cartão e a chave do quarto, os dois subiram e por lá ficaram por umas cinco horas. Teriam ficado mais tempo, mas o cheiro forte de fumaça que vinha pelos dutos de refrigeração já estava incomodando aos dois.

- A fumaça está ficando mais densa... - repetia Lúcia, a cada cinco minutos. - Não é melhor sair pra ver?

- Relaxa, minha gata, deve ser alguma coisa na rua e o cheiro está vindo pra cá. - também repetia Cadu, seguro de suas convicções.

- Não, vamos sair. E nem venha me contestar! Com a idade que tenho, eu podia ser a sua mãe!

A conversa nem tinha acabado quando batidas fortes soaram na porta. Sem botar a roupa, apenas de cueca, Cadu foi abrir. Quando abriu, a fumaça invadiu o quarto e dois bombeiros surgiram na sua frente.

- Vocês precisam sair daqui imediatamente! - gritou um dos bombeiros. - O andar está pegando fogo!

- Ai, meu Deus! - disse Lúcia completamente histérica. - Esperem, deixa eu botar a roupa...

- Não dá tempo, senhora! - gritou o bombeiro. - Vai assim mesmo, lá embaixo nós a cobrimos com um lençol.

Quando já iam saindo pelo corredor, um sujeito de pistola saiu de um dos quartos, surpreendendo os quatro.

- Porra de incêndio! - gritou o homem armado. - Atrapalhou meu sequestro!

- Sequestro?! - gritaram os quatro.

- Eu só queria grana, tá ligado, mas o cara derramou um bagulho na tomada lá, começou a dar um choque muito louco e a parada pegou fogo!

- Do que que esse rapaz está falando? - perguntou Lúcia sem entender uma palavra.

- Agora não é hora pra conversar! - gritou o segundo bombeiro. - Pessoal, vamos descer, lá embaixo vocês discutem!

- Ah, mas eu não desço mesmo! - falou o assaltante. - Eu quero a minha trêta!

- Têta?

- Trêta, coroa jeitosa, t-r-e com acento circuns... sei lá, um troço aí. Eu quero grana, mano, só saio daqui com dinheiro no bolso!

- Eu te dou o dinheiro, menino, mas vamos descer logo, pelo amor de Deus! - bradava Lúcia.

- Esperem - falou o bombeiro. - Cadê o cara que você ia sequestrar?

- ih, ficou lá no quarto. Ele e um negão, devia ser o macho dele. Os dois apagaram lá no chão, um por causa da fumaça e o outro quando viu minha pistola.

Por um momento, o bombeiro fez menção de rir, mas controlou os ânimos devido à situação.

- Tudo bem, Moura. - disse o segundo bombeiro. - Eu pego os dois caras, leva o resto com você. E você aí, me dá a arma.

- Fica tranquilo, bombeiro do Y.M.C.A., tá descarregada, era só pra meter medo nos cara.

E então desceram rapidamente pelas escadas Lúcia, Cadu, o bombeiro e o assaltante. Quando chegaram lá embaixo, a primeira cara que fizeram, foi de espanto: banhistas, repórteres, transeuntes e mendigos cercavam a entrada e mal dava para ver a praia, por causa de tanta gente concentrada. Lúcia saiu correndo de volta para a porta da escada.

- Que que foi, Lúcia? - perguntou Cadu.

- Espertinho, eu estou pe-la-da. Além do mais, está cheio de gente da televisão aí fora, você acha mesmo que eu vou sair? Primeiro a imprensa, falando da juíza safada e segundo minha cara no jornal das 8 pro meu marido ver! Desiste, eu não saio.

Não adiantou nada reclamar. Lúcia foi arrastada lá pra fora pelos bombeiros que estavam no saguão do hotel. As pessoas na rua acompanhavam impacientes, os repórteres jogavam microfones em cima de todos que saíam e um pequeno coro de adolescentes não parava de rir e cantar para os casais que apareciam seminus:

- Olha lá, olha lá! Aeê! Gostosa! Gostosa! Olha a coroa enrolada no lençol, cara! Arrasou hein!

Lúcia ficou do tamanho de um milho, na frente de todas aquelas pessoas, de tanta vergonha. A última coisa que queria era ser reconhecida por alguém e mostrar seu rosto nas câmeras.
Poucos minutos depois, o bombeiro descia com um dos homens sobre os ombros. O outro, um negão gordo e bigodudo já estava recuperado, andando normalmente. Quando pediu para as pessoas se afastarem para deitar o corpo do desacordado numa das macas, Lúcia ficou em estado de choque: era Laércio. Estava ali, do lado, o tempo todo, na companhia de outro cara. Sua raiva subiu tanto à cabeça que ela esqueceu da multidão e começou a esbofetear a barriga e o rosto do velho com toda força que tinha. Quando foi contida pelos bombeiros, Laércio abriu os olhos e com uma cara de dor e pavor, enxergou a mulher, visivelmente descontrolada.

- Lúcia? - perguntou ele. - Que está fazendo aqui?

- Eu é que pergunto! - gritou ela, com uma voz aguda e desagradável. - Nesse hotel com esse, esse... esse gordo aí!

- A gente estava só se divertindo, meu bem. - disse o negão, com uma voz pomposa e grossa. - Seu marido sempre me chama quando você vem pra "praia".

O negão deu uma risadinha bem afeminada, batendo palminhas. O bombeiro risonho não aguentou e começou a rir. Cadu o acompanhou na gargalhada, mas Lúcia pensou e repensou naquilo que ouviu e chegou a maldita conclusão:

- Você é gay, não é, Laércio?

- Lúcia...

- ih, deu merda! - gritou o assaltante.

- Fala logo! É ou não é?

- ...Sim. Mas eu sempre gostei muito de você. Quer dizer, como amiga, assim, não necessariamente como esposa e...

- Eu já entendi. - terminou ela. - Por isso não queria ter filhos, por isso não queria mais fazer nada comigo... Por que, então?

- Manter a integridade moral, não é, Caduzinho? - disse o negão, com uma risadinha e passando a mão no bigode.

- Opa... - disse Lúcia, encarando o rapaz. - Você conhece esse cara de onde?

- Bom...

- Ele adora isso também, meu amor! - completou o negão rindo.

- Você é gay também?! - disse Lúcia, sentando na calçada, completamente desconsolada.

- Bi! - berrou Cadu. - Vamos esclarecer isso, eu também gosto de mulheres. Mais até do que de homem, juro.

Enquanto a conversa rolava, o assaltante só ria da cara de todos eles e não parava de fazer piada para os bombeiros, policiais e pessoas que estavam ao seu redor.

- Se deu mal, hein, coroa enxuta! Só pegou cara que corta pros dois lados!

- E você aí! - disse ela ao assaltante, ainda sentada na calçada. - Só falta me dizer que é gay também!

- Eu?! Tá brincando, né, coroa? Eu sou é muito macho! Gosto é de mulher, tá ligado, num tem essa de dar carinho não, é só tapa e catucadão! Nasci e cresci na favela, no meio do tráfico, nunca seria boiola. Ainda mais com essa terceira perna que Deus me deu!

Lúcia não estava entendendo muita coisa que ele dizia, mas a expressão 'terceira perna' a deixou curiosa.

- Você é casado? Tem filhos?

- Não, senhora.

- Laércio, - completou ela. - Eu quero divórcio e é pra já!

O que você faz para mudar o mundo?

É curioso deveras, olhar pela janela e pensar: como o mundo mudou, não foi? As ladies charmosas, de vestes compridas e calorentas, sempre vistosas com seus leques e guarda-sóis, hoje deram lugar às depravadas de mini-saia. Não que eu esteja reclamando, podem mostrar suas pernas e dois dedos de calcinha à vontade, eu prefiro o 'sexy' ao 'vulgar'. Os homens, então, que se julgavam gentlemen já não são mais a sombra do que foram, sem seus paletós e chapéus-coco. Percebam, só se vê homem de paletó no fórum ou no ônibus e ainda o chamam de maluco ("nesse calor?!").

Abrimos espaço para as futilidades, deixamos de gostar de nós mesmos, passamos a nos sentir bem com tudo que nos empurram por aí. Tem gente que nem gosta de calça colorida e apertada e sai pela rua usando pra se sentir observado, no seu reallity show pessoal. Tanto fizemos por nada, que esquecemos nosso verdadeiro propósito; nos tornamos egoístas. Afinal de contas, viver se tornou, resumidamente, ter uma situação financeira agradável, carro na garagem e comida nas prateleiras do armário de aço inoxidável da cozinha. Sem lembrar que ainda há um mundo lá fora que mata pra sobreviver. Não estou te dizendo que ter essas coisas fazem de você um idiota, nem ficar com um papo furado psicologicamente correto que você reclama da sua vida tendo outras piores em frente à sua casa, batendo à sua porta. Só estou te alertando sobre o que está se passando na sua própria mente e nem se dá conta. Foram dias de luta, de glória e conquistas, mas o que você fez até hoje para mudar o mundo? Deu uns trocados para o mendigo? Ajudou uma senhora com a sacola de compras? Estou falando de algo maior, falo de mostrar pro mundo que você é realmente bom e não faz isso só pra garantir seu lugar em cima de uma nuvem fofinha, tocando harpa.


Ficamos por décadas valorizando o materialismo e abdicamos do valor das nossas almas e de tudo que isso implica. Seja na hora de dizer 'obrigado' ou de simplesmente dar um abraço. O melhor jeito de se resolver algo é no tapa ou dando um presente? POR QUE? Foi essa mesma falta de diálogo para promover ideias e corrigir defeitos que transformou a nossa sociedade nessa terapia grupal, que não sai do seu estado de torpor. Anos e anos de avanços tecnológicos e por incrível que pareça, continuamos em inércia, porque perdemos nossos verdadeiros valores e não sabemos mais como resolver alguma coisa sem ajuda de um livro escrito bem grande "Auto-ajuda", dourado e em relevo, na capa.

O que você pode fazer para mudar o mundo? Muita coisa, ser o que você sempre quis ser, ajudar as pessoas pela própria vontade e não porque é uma coisa bonitinha. Mesmo que não possa fazer nada, tome iniciativas morais, reúna legiões que estejam em sintonia contigo e parta em busca de um ideal maior, não só por um, mas por todos ao redor. Foi por falta de amor que deixamos de pensar em outras pessoas. Nem em nós pensamos mais, pois se pensássemos, não estaríamos do jeito que estamos. Nenhum ser dotado de inteligência deixaria seu próprio corpo e mente chegar num estágio tão avançado de ignorância e ridicularidade.

Seja lá qual for o caminho que escolher, pense em tudo que pode e quer fazer. E, claro, pense se isso vai, de fato, mudar o mundo pra melhor. Lembre-se que promover o bem sempre foi o bem maior.


"Cada tantinho de paz que eu levo para as pessoas, vale a paz que nunca foi minha." - Chico Xavier.

"Temos motivos de sobra na vida pra rir. Pra que tanta discórdia? Se um mendigo ri e lhe faltam até os dentes, porque logo NÓS, que temos tudo, inclusive os dentes, não podemos sorrir para os outros?" - Gabriel Cardoso.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Planeta água. Literalmente.

Dizem que Noé foi o único homem digno da misericórdia de Deus, quando a humanidade já era decretada como 'completamente tomada pelo ódio e pela guerra'. Alguém muito legal chegou no ouvido do todo poderoso e disse que ele era o único que merecia ser salvo; os antigos falaram sobre Noé e sua história dura até hoje e você provavelmente já deve ter ouvido à respeito. Basta lembrar-se do cara que foi avisado de um grande dilúvio, construiu um barco gigante, encheu de animais e levou sua família para o novo mundo.
E hoje em dia, quando vejo os noticiários, fico me perguntando: e nós? Sobre qual catástrofe envolvendo as chuvas falarão no futuro? E quem sobreviverá?
É difícil imaginar tantas mortes e a quantidade enorme de pessoas que perderam suas casas e tudo que tinham por um mero capricho de Deus. Não que Ele não tenha poder pra isso, mas se Ele realmente existe e nos ama tanto quanto dizem pra mim desde que nasci, não creio que isso é um um tipo de castigo.
Partamos então de outra premissa, esquecendo o tal do divino. Como pensar na situação como sendo um 'aviso natural'? Será que já não é tempo de pensar que precisamos mudar nossos conceitos e tomar conta de tudo que ainda sobrou da nossa natureza urbanizada?
'No Brasil não tem terremoto e furacão'. Balela! Foi-se o tempo em que eu podia dizer isso, contente de estar em terras seguras. O que temos que fazer agora, quando não existem mais soluções cabíveis, é respeitar o que nos foi dado faz tempo e conservar aquilo que ainda restou. Quem sabe assim, o tempo seja favorável e as pessoas não morram mais por conta de uma coisa que devia ser o maior bem do nosso planeta: a água.
Estou sendo irônico: Até porque morrer na chuva ou perder tudo na enchente é coisa de pobre, e disso o Brasil entende melhor que ninguém. Mas nem todos nós somos pobres, meu Deus, uma realidade dolorida de cada vez, por favor.