terça-feira, 13 de setembro de 2011

O Boneco

Um dia desses, Deus estava dando uma repaginada no visual do Seu templo e resolveu jogar algumas coisas velhas fora. Abriu os armários e tratou de tirar todo aquele barro ressecado, os blocos de desenho e alguns tocos de lápis, que já não usava mais. Era tralha pra tudo quanto é lado, amigo, quem foi que disse que Deus era organizado? Alguns de Seus filhos, graças à Ele ou não, melhoraram esse costume. Eu nasci a cara do pai, se é que me entendem, mas enfim... Ainda assim, a desorganização acabou valendo a pena: no meio de tanta porcaria, Deus encontrou um de Seus bonecos. O barro já estava totalmente duro e sem alma.
Com uma tremenda cara de espanto e uma batida com a palma da mão bem no meio da testa, ele gritou: "Eu do céu!", e girou nos calcanhares em direção ao Seu escritório. Entrou empurrando a porta de carvalho, jogou no chão tudo que estava na mesa de pedra, apanhou Suas ferramentas e empenhou-se no conserto do velho boneco.
Enquanto Suas divinas mãos trabalhavam, os pensamentos rodopiavam em Sua cabeça:

"O mundo do jeito que está e eu esquecendo de mandar logo esse... que pecado da minha parte! E para quem eu vou pedir perdão, agora? Como eu detesto essa profissão, carambolas..."

Depois de não muito tempo, havia terminado. Em Suas mãos, um sujeito de baixa estatura, pouco cabelo e de pele escura. Mas percebia-se pela satisfação divina que era um daqueles bonecos salvadores. Não que Deus não ficasse satisfeito após cada criação, mas o olhar penetrante que Ele dera ao boneco era de um autêntico pacificador. Um herói, sendo mais emblemático.
E com um leve toque no peito do boneco e um sopro no ar, Deus lhe deu a vida e o enviou à Terra com a seguinte missão: fazer com que as pessoas aprendam a aconselhar a si mesmas.

- Pois o ser humano só não é conselheiro de si próprio... - Deus refletia. - É capaz de dar os melhores conselhos e solucionar os problemas de todos ao seu redor. Mas quando os mesmos problemas acontecem em sua própria vida, torna-se fraco e mal consegue começar a resolvê-los.


Então me diga, meu Deus... Quem é essa pessoa?

sábado, 2 de julho de 2011

Mulher da minha vida

Tem certos dias em que eu acordo completamente carente. Mas tão carente que até os casais da rua me causam inveja. Cheios de amores, risadas e beijos... idiotas. E aí fica na cabeça aquela baita sensação de que a mulher da minha vida está sempre na próxima esquina. Afinal, quem nunca passou por uma situação embaraçosa ou engraçada e pensou "caramba, parece filme, é essa a pessoa da minha vida!", e logo depois tudo acaba... não passou de um 'mal entendido' e eu fico ainda mais, perdoem-me, puto.
Mas continuo andando, procurando... passam várias, e eu olho para todas! TODAS! Me apaixono por cada uma delas. E olho de novo, insisto, eu sou determinado! Quero uma retribuição!
E das duas, uma: ou ela passa direto e eu a acompanho com os olhos... viro para trás... e nada. Ou ela retribui o olhar, mas fico completamente congelado; não penso em absolutamente nada que me faria conquistá-la, e tudo que consigo fazer é uma cara meio envergonhada, meio séria, meio pamonha... meio incógnita.
Será que elas não percebem? Se tornam a mulher da minha vida durante cinco segundos! Dei todo amor e carinho que podia oferecer naquela rápida troca de olhares e nem se deram conta... e então, como não as conquistei, esqueço no dia seguinte. Canalha sou eu que faço um absurdo desses, é uma coisa horrível se apaixonar por mais de 20 mulheres por dia. Tanto é, que provavelmente não vou saber identificar quando realmente encontrar essa pessoa tão querida. Juro, posso passar o dia todo olhando pra ela e não vou descobrir. Afinal de contas, eu sou do grupo das ciências humanas, comigo não tem essa história de rolar uma química ou ser a metade de um. A mulher da minha vida está além da troca de olhares; me apaixonarei por ela, com certeza, mas preciso de argumentos que me provem que ela é realmente isso que aparenta ser e tem que ter um contexto. Principalmente porque depois de me apaixonar por mais de mil mulheres diferentes, meu coração está muito apertado, coitadinho.

... E se a mulher da minha vida morreu? Quer dizer, um casamento de 30 anos acaba com a morte... a pessoa viúva pode até namorar outra pessoa, mas sempre dirá que o verdadeiro amor da vida dela foi aquele que morreu. Ou seja, está com alguém que não ama... Mas que diabos é isso, meu Deus? Eu posso estar com uma pessoa e ela não ser aquilo que eu quero? Já posso começar uma relação com a certeza de que vou terminar, porque ela não é a pessoa pra passar a minha vida toda? Mas quem será, então? Isso tudo é o que, distração? Experiência? Deve ser... porque até encontrar essa tal pessoa da minha vida, vou continuar me apaixonando por várias, é impossível viver sozinho. Aquelas que não são 'A Escolhida', vão servir até certo ponto, pois cada uma delas, de alguma forma, vai me chamar a atenção, e eu sou homem, é claro que vou notar. Mulher é como música, meus amigos, cada uma tem um ritmo, um estilo, seus momentos repetitivos de refrão, algumas ficam na sua cabeça apesar de serem horríveis e outras você tem o prazer de ouvir... o importante mesmo é ser eclético! Perceber o que elas podem lhe oferecer, todas têm um ponto forte, todas são belas de alguma forma. E é justamente por esses pontos fortes que mais me atraio, eu gosto de ser músico.
Em qualquer esquina ou qualquer lugar do mundo, eu ainda sonho te encontrar. Dar aqueles cinco segundos de amor incondicional e dar ainda mais quando perceber que você é Ela. Mas pelo amor de Deus, não demora, elas não param de me ligar e eu estou caindo em tentação...

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Eu.

Fisicamente eu moro no movimentado Rio de Janeiro, mas tenho quase certeza que vivo no mundo da Lua. Sou completamente distraído e ingênuo, quero sempre acreditar nas pessoas. Talvez por essa razão eu continue acreditando no progresso da raça humana e na duvidosa amizade entre homens e mulheres. Até porque, se sua melhor amiga é uma gata cobiçada por todos os outros homens do círculo social, você é um tremendo idiota.
Também acredito em ETs. Pode parecer um trocadilho infame, dizer que acredito nessa tal de amizade tanto quanto em ETs, mas é verdade; eu acredito mesmo neles. Já cismei em ter visto vários por aí e acredito até hoje que algumas das pessoas próximas à mim são realmente de outro planeta. Pessoas próximas, os célebres amigos, aqueles que me odeiam e me criticam e que por alguma razão a qual desconheço, não consigo deixar de gostar. Ora me acham um fantástico especialista em porra nenhuma, ora me acham um esquisitão que gosta de escrever tudo que vem à mente.
Mas escrever é bom. E pronto. Poucos tem uma sensação agradável de sorrir quando acabam de escrever alguma coisa. Escrever é um dos meus maiores prazeres, talvez a terceira coisa pela qual eu tenha me apaixonado na vida. Primeiro as meninas, depois os desenhos animados... é, foi a quarta, na verdade, ainda tem o futebol. E mesmo que tenha todo esse amor, escrever nunca me levou a lugar nenhum. Sou tremendamente frustrado por isso.
E enquanto você ainda se pergunta porque sou um especialista em porra nenhuma, já trago-lhe a resposta: Eu toco violão, guitarra e bateria, escrevo crônica e poesia, sou dublador, desenhista e professor. Leio de José de Alencar à Bula de Genéricos Medley. Sou ótimo filho, neto, amigo e conselheiro, sei cozinhar, lavar, passar, adoro animais, o cachorro no gato, o gato no rato, o rato na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar. E por mais que saiba isso tudo, não sou bom em absolutamente nada dos citados acima, não sou perfeito. Preciso de palavras que confortem e dos mais variados assuntos para me sentir útil e organizar a desordem. Sou sincero ao extremo e isso sempre me causou dores de cabeça, sou cético, cheio de dúvidas e manias, ansioso, analítico e detalhista. Tenho o maldito defeito de não conseguir ser eu mesmo em todas as minhas relações. Aliás isso ninguém consegue, não posso me sentir mal. Ninguém é todo em todas as relações. Todos nós somos apenas partes de nós nos meios sociais. Eu, por exemplo, sou um com a minha mãe, outro com os amigos, outro com os meus superiores. Queria ser eu inteiro sempre, mas é praticamente impossível. Por mais que eu não queira agradar ninguém, eu não agrado o mundo. Sinto que por melhor que eu seja, sempre serei odiado por alguém, mas essa porcaria nunca fez mal para o meu ego. Portanto, serei sempre o que você vê... mas SÓ pra você, o mundo não está preparado para um Eu completo.
Meu jeito e minha vida são uma novela: sensacionalista, cheia de reviravoltas e com doses diárias de problemas e humor. Isso se reflete em tudo que eu falo, podem notar. A cada verso, parágrafo ou travessão, sempre vai ter um pouco de sotaque de Eu no meio, chega ser detestável. Umas e outras vezes eu me odeio por certos comentários e atitudes, mas isso se chama autocorreção. Só não pense que pode sair por aí me corrigindo, achando que vou adorar. Eu odeio ser corrigido. Odeio isso mais que qualquer coisa, talvez mais até que negligência, desperdício e dependência. Não imagine que minha gentileza seja motivo para ser imbecil, se tentar montar em mim, logo vai perceber que meu orgulho e meu senso de obrigação vão te pisotear, até você se sentir tremendamente culpado, mesmo que a culpa não seja sua. Cuidado comigo, Diabo.
Eu sou assim, sou o que sou e quer você goste ou não, continuarei sendo e não preciso de ninguém me dizendo o que devo me tornar. Acredito em mim mesmo, e naquilo que posso ser capaz de alcançar. Eu tenho talento, não tanto quanto gostaria, queria ser mais inteligente, mas eu sinto que posso chegar mais longe com o pouco de astúcia que Deus e as lições de moral dos filmes da Disney me deram.
Hoje sou quase um adulto, que vira-e-mexe volta ao mundo das crianças pra esquecer dessa vida de muito trabalho, pouca diversão; quando não estou ocupado, estou cantando no chuveiro, contando azulejos, fingindo ser um astro de futebol ou um detetive ou um super-herói. Eu conto meus passos, eu piso na areia e olho pra trás pra ver a pegada, eu faço desenhos engraçados no vidro embaçado do carro em dias de chuva, sinto mais prazer em lamber a colher do que comer o bolo pronto. Gosto de debater sobre política e economia tanto quanto gosto de comentar sobre tentar sambar sentado.
Hoje sou quase uma criança, que vira-e-mexe volta ao mundo dos adultos pra esquecer essa vida de muitos monstros no armário, poucos peixinhos dourados no aquário.
Sou isso. Interrogação, exclamação e reticências. Sou toda essa linguística e tudo aquilo mais que ainda pode existir na minha vida. Não me mudem, não me mudo.

domingo, 19 de junho de 2011

Rápida reflexão sobre o Dom

- Você acredita em dom?, perguntaram pra mim.

Não. Aqueles que dizem que 'a pessoa nasceu com dom' para tal coisa, é desclassificar todo o trabalho que essa pessoa teve pra chegar onde está. "Não tenho coordenação alguma pra tocar violão... você toca porque tem dom!" Isso é ridículo, é desmerecer o violonista pelo tempo que passou praticando acordes no seu quarto. Não tem coordenação, mas provavelmente nunca tentou praticar muito para chegar lá, dizer que não sabe pegando um violão uma vez só na vida é mole, é claro que não vai saber, nem mesmo os melhores têm essa capacidade.
(...)Eu não acredito em dom, acredito no talento. Talento esse, que a pessoa tem pra se dedicar a alcançar tudo que quer, sem pestanejar. Empenhar-se ao máximo e alcançar objetivos. Talvez o único dom que certas pessoas tenham e outras não, seja a força de vontade. Alguns não possuem força de vontade alguma, enquanto outros crescem cheios dela. Acredito que todos nasçam com essa força, mas em grande parte de nós, ela se faz adormecida. A vontade é, mais do que um dom, uma virtude; é ter o poder de não desistir, nas próprias mãos... é acreditar no seu próprio talento.
Não existe dom pra aprender coisas, não existe dom pra tornar-se capaz... existe a vontade e o talento, dentro de todos nós. Desperte essa vontade e vai perceber que 'dom' nunca devia ter feito parte do seu vocabulário e que tudo vai se tornar mais fácil, enquanto tiver confiança em si mesmo.

Para Kadu Abreu.

domingo, 12 de junho de 2011

Bulinando geral

- Seu gordo!


Pronto. Virou bullying. Não adianta, qualquer coisa que falarem agora, tornou-se um gigantesco e chato bullying. É a palavra da moda e todo mundo quer ter a oportunidade de usá-la mesmo quando não há necessidade alguma para tal.


Eu já fui gordo, baixinho e chorão. Tudo bem, hoje eu não sou mais chorão. Diabo. Mas eu me lembro que ser gordo e baixinho era motivo pra todos tirarem um sarro da minha cara, até porque tudo que saía um pouco do padrão era gozação na certa. Tinha sempre o magrelo, o gigante, o narigudo e por aí vai. Mas porque essa porra nunca foi um motivo pra pessoas se comportarem de maneira doentia? Porra mesmo, não achei palavra melhor, não quero que fiquem recriminando meus palavrões, todo mundo fala, por que eu não posso falar? É porra mesmo.


Ser chamado de gordinho e baixinho nunca foi uma razão pra eu querer matar todos os amiguinhos de classe ou me sentir a pessoa mais odiada do mundo. Tem que haver um limite, sim, mas essa dependência indireta que a sociedade cria torna a pessoa covarde. Meu pai sempre me dizia que eu tinha que resolver meus problemas na rua, chegar chorando em casa era coisa de marica. Quando eu sentia que as coisas 'iam longe demais' eu resolvia. "Eu não discuto, eu chuto, eu não debato, eu bato", dizia O Pensador, e era mais ou menos assim. Quando não ultrapassava essa barreira, tudo não passava de uma grande brincadeira de mau gosto, a tradicional sacanagem.


E por que tornar tudo uma sacanagem? Cadê o limite? Tem uma diferença muito grande entre aquele que brinca e aquele que humilha. Eu concordo plenamente que devem haver punições pra'queles covardes que batem, maltratam e que futuramente podem causar um dano mental grave. Mas pelo amor de Deus, querem comparar um cara que chama de gordinho e um cara que afunda a cabeça de outro na privada, e isso não tem o menor cabimento! Precisamos punir, mas precisamos também evitar a super proteção: estamos tornando todos os jovens grandes vítimas de qualquer coisa. Crianças mimadas, protegidas pelos pais que não tomam frente em nada, só sabem se esconder atrás da saia da mãe. Pode parecer ridículo, vão dizer muito que eu quero promover a violência e deixar a criança se virar. Não é bem por aí... elas precisam desde cedo aprender a se defender pra que, no futuro, possam se impor como seres humanos que são. Já imaginou? O sistema já controla todo mundo, imagina uma sociedade hiperdependente que não sabe se defender? Vamos todos regredir...


Outro dia passou na tv um político, que não me lembro nome, nem cargo, falando que estava sofrendo bullying da imprensa. PORRA! E a população que sofre bullying desse maldito parlamento a vida toda? Aí dizem que a culpa é nossa, por eles estarem lá, afinal nós quem elegemos. Então isso se chama o quê?, 'autobullying'? Se for assim, tudo no mundo é um grande bullying ambulante. Quem é da minha geração pôde ver essa sacanagem toda exposta na tv, com os famosos desenhos da Looney Toones. O Pernalonga certamente foi o maior praticamente de bullying da face da terra nos últimos anos. Então o coitado do Coiote era um bulinado sofredor?
Passe isso pra vida real e temos uma banalização do que é 'ser ofendido' e essa banalização está ultrapassando todos os limites aceitáveis, talvez até prejudicando o comportamento de boa parte da sociedade. Na minha faculdade, uma mãe acusou uma merendeira de bullying, porque a mesma 'acusou' a filha de não ter pago o lanche. E aí? Por que essa porra é bullying?


Como eu disse, tá na moda, tudo é bullying. O próprio bullying é bullying. O bullying bulina nossa cultura, pois é uma palavra americana incorporada no nosso dia a dia.


Portanto, meu Brasil, tome cuidado! Tudo isso só mostra o quanto esse fuzuê nos prejudica. Lembrem-se sempre de que têm pessoas cruéis nesse mundo, e toda essa banalização pode ser usada contra nós mesmos, por esse sistema controlador que vai tomar conta mais ainda de nossas vidas, porque não teremos bagagem pra recursar a sacanagem. Desculpa, brasileirizei... resusar o bullying.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Rapidinha da Semana #20

O Museu Imperial, em petrópolis, na Região Serrana do Rio, vai transmitir ao vivo em um telão o casamento do príncipe William e Kate Middleton, nesta sexta-feira (29). A transmissão será no auditório do museu, às 7h e terá entrada grátis ao público.


É muita falta de assunto mesmo né, puta que pariu... o MUSEU IMPERIAL transmitindo um casamento midiático que não vai mudar em nada a vida de nós, brasileiros, mas que já virou a sensação do momento em qualquer canto que passamos. Mas sabe o que é pior? Esse auditório tem espaço pra umas 200 pessoas... e vai lotar.
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William: notou como esse povo não tem o que fazer?


Kate: fala baixo e sorri, eles tão olhando!

Festa infantil

Andei pensando por esses dias e cheguei uma conclusão interessante: festas infantis são a melhor coisa que existe. Reflita comigo: existe algum lugar na face da terra que tenha mais comida gostosa e grátis, que uma festa de criança? Claro que não. Você pode achar a festa uma droga, mas com certeza volta pra casa sem precisar fazer uma boquinha:

- E aí, cara, como foi a festa?

- Uma porcaria, mas pelo menos eu comi pra cacete.

O melhor é que festas infantis nunca são chiques, as comidas são sempre as mesmas. Aquelas bandejas enormes de salgadinhos deliciosos e gordurosos, sempre com metade da bandeja para as coxinhas e a outra metade pra qualquer sabor. Não adianta, coxinha é o salgadinho mais disputado em qualquer lugar. Tanto que quando o garçom serve, as pessoas costumam pegar duas, só pra garantir que vão comer mais que as outras. Se não tiver garçom é cilada, faça uma festa só com coxinhas. E brigadeiro. Não sei de onde tiraram essa ideia de fazer cajuzinho pra botar na mesa do bolo. O maldito cajuzinho sempre sobra! Só quem come o cajuzinho é a mãe e a avó do aniversariante, pois elas ficaram horas na cozinha fazendo isso e comem pra não deixar o coitado subtraído da festa. Mas o brigadeiro não! Fazem pouco de propósito, pra ver a cara daquela criança com olhos gigantescos por cima do enfeite da mesa, perguntando: "só tem cajuzinho?" Faça-me o favor.
Festa de criança não tem só a comida como ponto forte de atração. Qualquer ser humano que gosta de ver lutas, pode ver muita pancadaria gratuita. Basta esperar a hora em que eles estouram aquele balão gigante, no meio do salão, depois do parabéns. Aquele negócio com certeza tem feitiços, pois não há UMA criança que não passe com olhares curiosos e fique bem embaixo dele, imaginando o que tem lá dentro. Eu já fui assim, a minha diversão era ficar brincando no salão, dando pequenas olhadelas para cima, só pra conferir se ele ainda estava lá. E talvez este seja meu maior trauma de infância; eu nunca consegui pegar NADA desse maldito balão. Era sempre a mesma história: esperto que sou, já ficava embaixo dele antes mesmo de acabar o parabéns. Após o parabéns, a tia gritava "vou estourar o balão!" e é nessa hora que começa o trauma. Todas as crianças se amontoavam, com as mãos para o alto, esperando as surpresinhas, e as minhas mãos sempre ficavam por baixo, porque eu sempre fui verticalmente prejudicado. Pra piorar, nunca conseguiam estourar aquela droga com um palito, então precisavam pegar o isqueiro. Como eu tinha medo de fogo, saía de perto. No fim, o balão estourava e toda aquela massa de crianças se jogava no chão pra pegar tudo que podia com as mãos. Às vezes nem sabiam o que pegavam, simplesmente pegavam e depois examinavam o que era. No fim, eu era o único a ficar sem nada, me restando apenas um punhado de confete que eu jogava pro alto e aquela porcaria de guarda-chuva de chocolate, que tinha gosto realmente de guarda-chuva. Felizmente hoje em dia eu só assisto essa tal violência gratuita. Quem vê de fora, como eu, percebe a transformação de uma simples criança n'um animal faminto, que só a super câmera lenta pode captar.
Comida, combate... esqueci algo? Ah, sim, os animadores. Festa infantil que se preze tem que ter aqueles animadores retardados. O pior é que eu fazia tudo que eles mandavam. Fico imaginando até hoje o porre que era para os adultos, quando tinha aquela brincadeira em que eles nos mandavam pegar alguma coisa tipo 'óculos' e 'batom' com alguém. E todas aquelas crianças ensandecidas pulando em cima de todos os velhos que tinham óculos pendurados e depois voltavam correndo, corpo a corpo, pra ser o primeiro. Ou quando eles faziam a Dança da Cadeira e aquela garotinha de formato paquidérmico sentava em cima de você, quando a música parava. Por falar nisso, eu nunca fui campeão de dança da cadeira... inferninho.
Ainda assim, eu me diverti muito com essas festas. Elas são a melhor coisa pra um ser humano que está com fome e entediado. Tem não, tinham né, porque hoje tem o Playstation 3 e o Hot Pocket...

A esposa, a sogra e o Flamengo

Hoje em dia, as pessoas mais velhas só sabem dizer que os bons costumes estão sumindo, que já não se passa mais tanto tempo assim com a família... Tudo bem, eu até entendo, também sinto falta desses programas familiares.
Agora, em pleno século XXI, sua mulher querer que você vá todo maldito final de semana pra casa da mãe dela passar a tarde, é castigo. Quer dizer, não que eu não goste, a mãe dela é até legal quando não está acordada, mas tem certas coisas na vida de um homem que são impossíveis de excluir. Exemplo: os jogos do meu Mengão nas tardes de domingo! As mesmas tardes em que eu estou sentado num sofá desbotado e duro, enquanto ouço minha mulher e sua mãe tagarela, falando sobre muita, mas muita coisa desnecessária! E é por uma penca de fatores que eu não posso fazer o que gosto. Primeiro porque essa casa só tem UMA televisão e ela fica justamente na sala em que elas conversam. Não, elas reclamam do volume alto e não, elas não podem trocar de cômodo; as fofocas funcionam como uma espécie de ritual e precisam acontecer na sala. Qualquer mudança de ambiente pode ser perigosa. E nem me venha com essa de assistir o jogo sem som, a emoção jamais será a mesma, pois eu gosto é da barulheira, dos gritos, dos xingamentos e, é claro, da torcida.
O segundo grande problema nisso tudo é minha mulher. E só. Ela engloba todos os outros motivos. Da última vez que reclamei de uma coisa, fiquei sem... aulas de piano (!), por quase três semanas. Imagina quanto tempo eu ficaria sem minhas 'aulas', se dissesse que quero trocar a mãe dela pelo Flamengo?
Mas o tempo foi passando e eu fui morrendo aos poucos... definhando... vendo só a reprise dos gols no Fantástico. Minha vida foi se tornando um inferno: quase perdi meu emprego, gastei meio salário em bebida e me arrependi, pois poderia ter gasto num celular com TV. Até que eu resolvi encarar o problema de frente: era hora de ter uma séria conversa com Dona Juliana. Ah é, esqueci de contar, Juliana é o nome da minha esposa.
Como todo bom amante latino, conversas sérias pedem medidas drásticas. "Amorzinho" pra começar o diálogo foi importantíssimo, mostrou que eu queria ser agradável. O fato é que quando não se sabe muito bem como dizer que você quer 'futebol' ao invés de 'sogra', é preciso respirar fundo e soltar tudo de uma vez. E logo depois de falar, já esperava um comportamento agressivo e palavras de baixo calão, tanto que encolhi os ombros e fechei os olhos, mas a resposta foi bem mais sutil do que eu imaginava:
"Nós podemos ir quando quiser, eu sempre tive curiosidade, mas tinha medo de te contar e você me dizer que era coisa de homem"!
Aquilo soou como um coro de Anjos, tocando harpa; foi FÁCIL! E eu, desesperado, achando que ela não gostaria da ideia! Na mesma hora, abracei Juliana, corri em direção ao quarto, peguei minha carteira e saí pra comprar os ingressos... mal podia esperar!
"Compra três, mamãe também vai!"

segunda-feira, 28 de março de 2011

Famoso herói

Quando eu vi aquele aglomerado de gente na porta da capela, pensei: 'morreu algum famoso hoje'. Pura lógica, eram mais de cem, cento e vinte pessoas e eu só vejo tanta gente assim em enterro de artista. Mas enquanto adentrava à capela, via velhos amigos, rostos conhecidos e quando me aproximei... não era ninguém famoso... era Neném. Aquele que provavelmente nunca foi famoso como os célebres atores de Hollywood ou como os heróis infantis da Marvel. Então por que, meu Deus? De onde saiu tanta gente pra chorar pela sua partida? Com certeza ele era famoso... e como era.

Famoso por seu caráter, pela sua energia e mesmo não sendo uma grande celebridade, Neném ganhou fãs. Que talvez nem devessem estar sofrendo sua ausência, principalmente por se tratar de um homem que nunca fugiu da luta e odiava ser dependente. Pergunte à quem quiser, pergunte à família. A família... o maior motivo de orgulho que tinha. É verdade, eu estava lá pra ver o brilho nos olhos quando falava dos filhos e dos netos. E sempre foi mesmo uma família diferente, muito unida e alegre, porque Neném estava lá e, como poucos, ensinou valores que hoje em dia se tornaram superficiais. Os verdadeiros valores que pouca gente conhece, que ele nunca deixou faltar.


Vendo desse ângulo, talvez ele seja mesmo uma celebridade, uma figura que todos vão lembrar. Talvez ele seja mesmo um herói, alguém que sempre esteve lá pra defender as pessoas que gostava. Portanto, fiquem com a certeza de que viver é o melhor remédio pra'queles que estão sofrendo de saudade, pois para alguém que nunca deixou de viver e sorrir vendo o mundo de uma cadeira de rodas, é muito mais do que sensato para nós continuarmos nossa luta e alcançar tudo aquilo que ele queria ver, sem nunca deixar o espírito de companheirismo de lado.


Que Deus nos dê paz para suportar a sua ausência.


Gilberto José (Neném) Rojas.

sábado, 19 de março de 2011

Rapidinha da Semana #19

Com um deselegante atraso de quase meia-hora em relação ao programa oficial, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chegou ao Palácio do Planalto para o encontro com a presidente Dilma Roussef. Após todas as formalidades, Obama discursou abordando temas como comércio, energia, cooperação na área de segurança e desenvolvimento 'verde', que abrange as tecnologias como o biodiesel e um desenvolvimento sustentável e limpo. Ao fim, agradeceu e frisou que EUA e Brasil estão em rota de cooperação e que podem, sim, estreitar ainda mais suas relações e fortalecer ambos os lados.

Resumindo: papo furado para atrair mercado, com um apoiando o ombro no outro. Os mesmos velhos interesses políticos de sempre... mas da fila gigante todos os dias no Consulado Americano para retirada do visto, ninguém falou. Da burocracia e da demora para aprovação, também. E aí, presidentes, como fica?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Um mínimo de respeito

A matemática é bem simples: hoje há cerca de 100 milhões de trabalhadores no Brasil, formais ou não. Ou seja, para cada Real que ganham, o custo aos cofres do governo é de 100 milhões, certo? Tendo-se isso em mente, não é difícil imaginar que um aumento de salário é algo que deve ser feito aos poucos, pois esse aumento não pode pesar no orçamento.
Não faz muito tempo, houve uma aprovação de 70% de aumento para parlamentares e de 150% para ministros e presidente. Ainda que a população tenha ficado indignada, ficou no ar aquele misto de euforia e felicidade, pois se o governo pode dar um aumento tão alto como esse para nossos consagradíssimos políticos, é claro que, em breve, aumentariam o salário, humoristicamente chamado de 'mínimo', dos batalhadores trabalhadores brasileiros.
O que é o mínimo? O mínimo de respeito que se espera de um governo pelos que tanto trabalham para sustentar os pilares da sociedade, que apesar da dificuldade tem um máximo de humildade e enfrentam todos os dias os mesmos problemas porque precisam (e muito) daqueles míseros R$540,00 no fim do mês para alimentar seus filhos.
Os trabalhadores, que vivem como escravos em senzalas, que não têm o mínimo de segurança, o mínimo de decência dos locais em que trabalham e ficam sujeitos a tudo, porque o mínimo é o máximo que podem ganhar.
O mínimo é isso: são os poucos trocados que mais da metade da população luta pra conseguir, que não chega nem ao mínimo suficiente pra sobreviver. Como mudar isso? Como tornar possível a vida digna de tantos trabalhadores que ganham pouco?
Tamanha foi a chuva de reclamações, angústias, fofocas, esperanças e orações, que finalmente a Câmara aprovou um novo aumento para esses bolsos vazios. Pense em tudo que pode ter com esse novo aumento: mais comida na mesa, roupas novas, aparelhos eletrônicos. SIM! A expectativa do povo foi ao máximo na espera de um acréscimo nada mais do que justo.
No fim, o aumento foi de... 5 reais! Se era pra ser assim, pelo menos que esperassem um planejamento mais maciço; é preferível um acréscimo menos vergonhoso à ganhar esmolas.

Compre um X-búrguer e dê-se por satisfeito, cidadão.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A magia do Carnaval

Há quem diga que o Carnaval é uma época de folias, de pular e sambar até não poder mais. Outros, mais preguiçosos e caseiros, o veem pura e simplesmente como uma miserável festa barulhenta, sem propósito algum. Seja lá qual for a sua definição para o Carnaval, ele não deixa de ser uma coisa interessante, com um jeito bem particular. Me lembra muito o sexo, aquele prazer do orgasmo... graças à Deus o sexo não é totalmente igual ao Carnaval e não acontece só uma vez por ano, nem é organizado pela LIESA. Ainda assim, ele me passa uma sensação tão única, que parece até magia.
Sim, muitos já disseram por aí... a magia do Carnaval. Contagiante, com suas escolas na avenida, com suas mulatas de samba no pé e um incrível poder de indução, que faz os gringos mais excêntricos arriscarem um dois-pra-lá-dois-pra-cá. Juntando isso e mais outros tantos ingredientes, nasce essa tal mágica, que só quem viu de perto pode (tentar, pelo menos) explicar.
E como toda boa mágica, os segredos nunca são revelados. Claro, o truque fica sem graça se você souber como funciona. Deve ser por esse motivo que ninguém descobriu até hoje como aquele incêndio apareceu nos galpões das escolas, um mês antes do desfile, na Sapucaí. E foi um senhor truque!
Os assistentes, todos vestidos de bombeiro, ficaram apenas olhando para o lado de fora para tirar atenção do público. Eram muitas pessoas em volta, então se fazia necessário muitos assistentes. Eram, pelo menos, 70 homens, todos bombeirinhos. Enquanto isso, o mágico aprontava as artemanhas e não precisou nem dizer Abracadabra para o galpão virar um archote bárbaro; um show de pirotecnia! Ficaram todos maravilhados, aquela fumaça toda, as labaredas, uma beleza! E, como todo bom mágico, este não revelou seus segredos, nem mesmo sua identidade. Saiu pela porta dos fundos antes de receber os aplausos.
E o fogo? Bem, o fogo ficou lá e os assistentes nem perceberam. Demoraram mais de um dia para se tocar que o ilusionista havia ido embora e não o controlara. As chamas se espalharam e deu no que deu.
Mas é isso que se ganha por confiar em assistentes mal pagos. Agora não se sabe quem foi o real culpado disso tudo, nem se o mágico deixou tudo queimar sem querer.
Será que foi armação? Mesmo que tenha sido, ninguém vai saber mesmo; esperta é a LIESA, que assiste todos os espetáculos e nunca percebeu que os que tiram coelhos da cartola, querem, na verdade, serrar todos os oponentes ao meio. Todo ano é a mesma coisa, a diferença é que os mágicos estão ficando mais habilidosos. Olho vivo, foleões, não façam isso em casa, o Carnaval está ficando competitivo demais e muito perigoso! Isso é assunto para profissionais. E esse ano, o desfile promete fortes emoções, pois muita coisa ainde pode desaparecer debaixo dos panos!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Rapidinha da Semana #18

O ex-vice-presidente da República, José de Alencar, voltou a ser internado nesta quarta-feira (9), por volta das 14h no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. De acordo com o boletim médico, Alencar foi internado por conta de uma inflamação causada por uma perfuração no intestino e está na UTI. O estado de saúde dele é grave. Ainda de acordo com o boletim, Alencar está consciente e sendo submetido a exames para avaliação da conduta médica a ser adotada.



Alguém aí sabe qual é o ponto fraco desse ser aparentemente imortal??? Arranca a espada da mão dele, Dilma!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O hotel

É por isso que eu digo que todos aqueles que têm o hábito de escrever, devem carregar um bloquinho e um lápis pra todos os cantos que vão. São nas horas mais inusitadas que aparecem as melhores ideias. E, claro, são nas horas mais impróprias, que acontecem as coisas mais divertidas. Escritor que se preza, anota as babaquices do dia-a-dia, afinal, foi assim que essa história saiu.

Era o último domingo de março, e como todo último domingo de todos os meses, Lúcia colocou seu vestido florido curto, seu chapelão, deu um beijinho no marido e disse que ia à praia com sua irmã, Milena. O que era uma mentira deslavada, ela ia mesmo encontrar-se com Cadu, seu amante há quase um ano. Devia ser uma coisa muito bem tramada, afinal, Laércio não podia nem desconfiar. Por sorte ele era meio lento, pois não percebia que ela dava sempre a mesma desculpa de praia até nos dias em que estava chovendo.
Quem não se importava muito com isso era Cadu. O garotão, de 26 anos, queria era traçar a coroa cheia de grana; todo domingo eles iam para o mesmo hotel e ela bancava todas as regalias que podia, desde caviar aos quartos luxuosos com hidromassagem. E para Cadu, Lúcia fazia questão de pagar, era uma espécie de agradecimento. No auge de seus 42 anos, juíza do Supremo Tribunal, mal saía com seu marido... precisava aproveitar de algum modo. Nisso, o garoto sarado e cheio de gás apareceu em sua vida, oferecendo prazer e ela não perdeu a oportunidade.
Cortando as apresentações e a bonita história de como os dois se conheceram, lá foram eles para o Leme Othon Palace, um baita hotel com vista para o mar, que fica no Leme. Lúcia sempre quis do bom e do melhor e a última coisa que queria era transar em qualquer barraco, tanto que a vontade de ser juíza valia mais pelo ar condicionado do local que o próprio salário, mas entre ser taxista e juíza, já que táxi também pode ter o aparelho, aí sim ela pensou na grana.
Ela já havia feito a reserva a duas semanas atrás, no nome de Patrícia Flamboyant. Era uma espécie de nome de guerra, não queria que ninguém descobrisse que ela andava perambulando pelo hotel com tanta frequência. Tendo pego o cartão e a chave do quarto, os dois subiram e por lá ficaram por umas cinco horas. Teriam ficado mais tempo, mas o cheiro forte de fumaça que vinha pelos dutos de refrigeração já estava incomodando aos dois.

- A fumaça está ficando mais densa... - repetia Lúcia, a cada cinco minutos. - Não é melhor sair pra ver?

- Relaxa, minha gata, deve ser alguma coisa na rua e o cheiro está vindo pra cá. - também repetia Cadu, seguro de suas convicções.

- Não, vamos sair. E nem venha me contestar! Com a idade que tenho, eu podia ser a sua mãe!

A conversa nem tinha acabado quando batidas fortes soaram na porta. Sem botar a roupa, apenas de cueca, Cadu foi abrir. Quando abriu, a fumaça invadiu o quarto e dois bombeiros surgiram na sua frente.

- Vocês precisam sair daqui imediatamente! - gritou um dos bombeiros. - O andar está pegando fogo!

- Ai, meu Deus! - disse Lúcia completamente histérica. - Esperem, deixa eu botar a roupa...

- Não dá tempo, senhora! - gritou o bombeiro. - Vai assim mesmo, lá embaixo nós a cobrimos com um lençol.

Quando já iam saindo pelo corredor, um sujeito de pistola saiu de um dos quartos, surpreendendo os quatro.

- Porra de incêndio! - gritou o homem armado. - Atrapalhou meu sequestro!

- Sequestro?! - gritaram os quatro.

- Eu só queria grana, tá ligado, mas o cara derramou um bagulho na tomada lá, começou a dar um choque muito louco e a parada pegou fogo!

- Do que que esse rapaz está falando? - perguntou Lúcia sem entender uma palavra.

- Agora não é hora pra conversar! - gritou o segundo bombeiro. - Pessoal, vamos descer, lá embaixo vocês discutem!

- Ah, mas eu não desço mesmo! - falou o assaltante. - Eu quero a minha trêta!

- Têta?

- Trêta, coroa jeitosa, t-r-e com acento circuns... sei lá, um troço aí. Eu quero grana, mano, só saio daqui com dinheiro no bolso!

- Eu te dou o dinheiro, menino, mas vamos descer logo, pelo amor de Deus! - bradava Lúcia.

- Esperem - falou o bombeiro. - Cadê o cara que você ia sequestrar?

- ih, ficou lá no quarto. Ele e um negão, devia ser o macho dele. Os dois apagaram lá no chão, um por causa da fumaça e o outro quando viu minha pistola.

Por um momento, o bombeiro fez menção de rir, mas controlou os ânimos devido à situação.

- Tudo bem, Moura. - disse o segundo bombeiro. - Eu pego os dois caras, leva o resto com você. E você aí, me dá a arma.

- Fica tranquilo, bombeiro do Y.M.C.A., tá descarregada, era só pra meter medo nos cara.

E então desceram rapidamente pelas escadas Lúcia, Cadu, o bombeiro e o assaltante. Quando chegaram lá embaixo, a primeira cara que fizeram, foi de espanto: banhistas, repórteres, transeuntes e mendigos cercavam a entrada e mal dava para ver a praia, por causa de tanta gente concentrada. Lúcia saiu correndo de volta para a porta da escada.

- Que que foi, Lúcia? - perguntou Cadu.

- Espertinho, eu estou pe-la-da. Além do mais, está cheio de gente da televisão aí fora, você acha mesmo que eu vou sair? Primeiro a imprensa, falando da juíza safada e segundo minha cara no jornal das 8 pro meu marido ver! Desiste, eu não saio.

Não adiantou nada reclamar. Lúcia foi arrastada lá pra fora pelos bombeiros que estavam no saguão do hotel. As pessoas na rua acompanhavam impacientes, os repórteres jogavam microfones em cima de todos que saíam e um pequeno coro de adolescentes não parava de rir e cantar para os casais que apareciam seminus:

- Olha lá, olha lá! Aeê! Gostosa! Gostosa! Olha a coroa enrolada no lençol, cara! Arrasou hein!

Lúcia ficou do tamanho de um milho, na frente de todas aquelas pessoas, de tanta vergonha. A última coisa que queria era ser reconhecida por alguém e mostrar seu rosto nas câmeras.
Poucos minutos depois, o bombeiro descia com um dos homens sobre os ombros. O outro, um negão gordo e bigodudo já estava recuperado, andando normalmente. Quando pediu para as pessoas se afastarem para deitar o corpo do desacordado numa das macas, Lúcia ficou em estado de choque: era Laércio. Estava ali, do lado, o tempo todo, na companhia de outro cara. Sua raiva subiu tanto à cabeça que ela esqueceu da multidão e começou a esbofetear a barriga e o rosto do velho com toda força que tinha. Quando foi contida pelos bombeiros, Laércio abriu os olhos e com uma cara de dor e pavor, enxergou a mulher, visivelmente descontrolada.

- Lúcia? - perguntou ele. - Que está fazendo aqui?

- Eu é que pergunto! - gritou ela, com uma voz aguda e desagradável. - Nesse hotel com esse, esse... esse gordo aí!

- A gente estava só se divertindo, meu bem. - disse o negão, com uma voz pomposa e grossa. - Seu marido sempre me chama quando você vem pra "praia".

O negão deu uma risadinha bem afeminada, batendo palminhas. O bombeiro risonho não aguentou e começou a rir. Cadu o acompanhou na gargalhada, mas Lúcia pensou e repensou naquilo que ouviu e chegou a maldita conclusão:

- Você é gay, não é, Laércio?

- Lúcia...

- ih, deu merda! - gritou o assaltante.

- Fala logo! É ou não é?

- ...Sim. Mas eu sempre gostei muito de você. Quer dizer, como amiga, assim, não necessariamente como esposa e...

- Eu já entendi. - terminou ela. - Por isso não queria ter filhos, por isso não queria mais fazer nada comigo... Por que, então?

- Manter a integridade moral, não é, Caduzinho? - disse o negão, com uma risadinha e passando a mão no bigode.

- Opa... - disse Lúcia, encarando o rapaz. - Você conhece esse cara de onde?

- Bom...

- Ele adora isso também, meu amor! - completou o negão rindo.

- Você é gay também?! - disse Lúcia, sentando na calçada, completamente desconsolada.

- Bi! - berrou Cadu. - Vamos esclarecer isso, eu também gosto de mulheres. Mais até do que de homem, juro.

Enquanto a conversa rolava, o assaltante só ria da cara de todos eles e não parava de fazer piada para os bombeiros, policiais e pessoas que estavam ao seu redor.

- Se deu mal, hein, coroa enxuta! Só pegou cara que corta pros dois lados!

- E você aí! - disse ela ao assaltante, ainda sentada na calçada. - Só falta me dizer que é gay também!

- Eu?! Tá brincando, né, coroa? Eu sou é muito macho! Gosto é de mulher, tá ligado, num tem essa de dar carinho não, é só tapa e catucadão! Nasci e cresci na favela, no meio do tráfico, nunca seria boiola. Ainda mais com essa terceira perna que Deus me deu!

Lúcia não estava entendendo muita coisa que ele dizia, mas a expressão 'terceira perna' a deixou curiosa.

- Você é casado? Tem filhos?

- Não, senhora.

- Laércio, - completou ela. - Eu quero divórcio e é pra já!

O que você faz para mudar o mundo?

É curioso deveras, olhar pela janela e pensar: como o mundo mudou, não foi? As ladies charmosas, de vestes compridas e calorentas, sempre vistosas com seus leques e guarda-sóis, hoje deram lugar às depravadas de mini-saia. Não que eu esteja reclamando, podem mostrar suas pernas e dois dedos de calcinha à vontade, eu prefiro o 'sexy' ao 'vulgar'. Os homens, então, que se julgavam gentlemen já não são mais a sombra do que foram, sem seus paletós e chapéus-coco. Percebam, só se vê homem de paletó no fórum ou no ônibus e ainda o chamam de maluco ("nesse calor?!").

Abrimos espaço para as futilidades, deixamos de gostar de nós mesmos, passamos a nos sentir bem com tudo que nos empurram por aí. Tem gente que nem gosta de calça colorida e apertada e sai pela rua usando pra se sentir observado, no seu reallity show pessoal. Tanto fizemos por nada, que esquecemos nosso verdadeiro propósito; nos tornamos egoístas. Afinal de contas, viver se tornou, resumidamente, ter uma situação financeira agradável, carro na garagem e comida nas prateleiras do armário de aço inoxidável da cozinha. Sem lembrar que ainda há um mundo lá fora que mata pra sobreviver. Não estou te dizendo que ter essas coisas fazem de você um idiota, nem ficar com um papo furado psicologicamente correto que você reclama da sua vida tendo outras piores em frente à sua casa, batendo à sua porta. Só estou te alertando sobre o que está se passando na sua própria mente e nem se dá conta. Foram dias de luta, de glória e conquistas, mas o que você fez até hoje para mudar o mundo? Deu uns trocados para o mendigo? Ajudou uma senhora com a sacola de compras? Estou falando de algo maior, falo de mostrar pro mundo que você é realmente bom e não faz isso só pra garantir seu lugar em cima de uma nuvem fofinha, tocando harpa.


Ficamos por décadas valorizando o materialismo e abdicamos do valor das nossas almas e de tudo que isso implica. Seja na hora de dizer 'obrigado' ou de simplesmente dar um abraço. O melhor jeito de se resolver algo é no tapa ou dando um presente? POR QUE? Foi essa mesma falta de diálogo para promover ideias e corrigir defeitos que transformou a nossa sociedade nessa terapia grupal, que não sai do seu estado de torpor. Anos e anos de avanços tecnológicos e por incrível que pareça, continuamos em inércia, porque perdemos nossos verdadeiros valores e não sabemos mais como resolver alguma coisa sem ajuda de um livro escrito bem grande "Auto-ajuda", dourado e em relevo, na capa.

O que você pode fazer para mudar o mundo? Muita coisa, ser o que você sempre quis ser, ajudar as pessoas pela própria vontade e não porque é uma coisa bonitinha. Mesmo que não possa fazer nada, tome iniciativas morais, reúna legiões que estejam em sintonia contigo e parta em busca de um ideal maior, não só por um, mas por todos ao redor. Foi por falta de amor que deixamos de pensar em outras pessoas. Nem em nós pensamos mais, pois se pensássemos, não estaríamos do jeito que estamos. Nenhum ser dotado de inteligência deixaria seu próprio corpo e mente chegar num estágio tão avançado de ignorância e ridicularidade.

Seja lá qual for o caminho que escolher, pense em tudo que pode e quer fazer. E, claro, pense se isso vai, de fato, mudar o mundo pra melhor. Lembre-se que promover o bem sempre foi o bem maior.


"Cada tantinho de paz que eu levo para as pessoas, vale a paz que nunca foi minha." - Chico Xavier.

"Temos motivos de sobra na vida pra rir. Pra que tanta discórdia? Se um mendigo ri e lhe faltam até os dentes, porque logo NÓS, que temos tudo, inclusive os dentes, não podemos sorrir para os outros?" - Gabriel Cardoso.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Planeta água. Literalmente.

Dizem que Noé foi o único homem digno da misericórdia de Deus, quando a humanidade já era decretada como 'completamente tomada pelo ódio e pela guerra'. Alguém muito legal chegou no ouvido do todo poderoso e disse que ele era o único que merecia ser salvo; os antigos falaram sobre Noé e sua história dura até hoje e você provavelmente já deve ter ouvido à respeito. Basta lembrar-se do cara que foi avisado de um grande dilúvio, construiu um barco gigante, encheu de animais e levou sua família para o novo mundo.
E hoje em dia, quando vejo os noticiários, fico me perguntando: e nós? Sobre qual catástrofe envolvendo as chuvas falarão no futuro? E quem sobreviverá?
É difícil imaginar tantas mortes e a quantidade enorme de pessoas que perderam suas casas e tudo que tinham por um mero capricho de Deus. Não que Ele não tenha poder pra isso, mas se Ele realmente existe e nos ama tanto quanto dizem pra mim desde que nasci, não creio que isso é um um tipo de castigo.
Partamos então de outra premissa, esquecendo o tal do divino. Como pensar na situação como sendo um 'aviso natural'? Será que já não é tempo de pensar que precisamos mudar nossos conceitos e tomar conta de tudo que ainda sobrou da nossa natureza urbanizada?
'No Brasil não tem terremoto e furacão'. Balela! Foi-se o tempo em que eu podia dizer isso, contente de estar em terras seguras. O que temos que fazer agora, quando não existem mais soluções cabíveis, é respeitar o que nos foi dado faz tempo e conservar aquilo que ainda restou. Quem sabe assim, o tempo seja favorável e as pessoas não morram mais por conta de uma coisa que devia ser o maior bem do nosso planeta: a água.
Estou sendo irônico: Até porque morrer na chuva ou perder tudo na enchente é coisa de pobre, e disso o Brasil entende melhor que ninguém. Mas nem todos nós somos pobres, meu Deus, uma realidade dolorida de cada vez, por favor.