sábado, 27 de novembro de 2010

Entrevista com o 'tio' do craque

A história pode parecer clichê, afinal, a grande maioria dos jogadores de futebol vêm de famílias pobres e tornam-se ícones de superação. Me lembro como se fosse ontem, daquele garoto magrelo de olhos desconsolados, jogando bola no campinho de barro da minha rua. Ele é filho de um grande amigo meu, hoje já falecido, Roberto; podem conhecê-lo como têta, não faz lá muita diferença. Pegou esse apelido porque adorava apertar o peito dos outros e odiava que apertassem o seu. Mas enfim, isso não é algo que interfira na história, muito menos que você precise saber. Falo do menino magro, boleiro quase desde que nasceu. Queriam Roberto Júnior, pra lembrar o pai, com quem parecia muito, mas acabou ficando Valterson, por causa da mãe, baiana por sinal. Não sei por quê essa mania que baiano tem de colocar 'son' no final de todos os nomes, mas vá.
Valterson, como já disse, cresceu jogando bola no campo de barro, na pequena comunidade do morro do... da... como era mesmo? Enfim, na comunidade aí onde eu morava, que já nem existe mais praticamente, maldita violência. E, como muitos outros garotos, seu sonho era ser jogador. Não só pela própria vontade, mas é que seu pai, o têta, adorava futebol e sempre quis que o filho fosse um goleador de seleção. Para encurtar, graças a toda dedicação de Valterson e seu pai, eis que o menino conseguiu sua vaga nas divisões de base do Flamengo, seu time de coração. Meu também, não nego, mas esqueça, estou encurtando a história. Lá no Flamengo, aprendeu de verdade como se jogava uma bola; juntou aquele talento de moleque de rua com as técnicas refinadas do bom futebol profissional e logo virou um pequeno craque, pretendido por times e mais times de todos os lugares, até de fora do Brasil.
Em menos de oito anos (entrara com doze, se não me engano), Valterson já estava entre os profissionais! E o pai, orgulhoso que só, ia a todos os jogos. Fazia questão de pagar o ingresso e a passagem, como sempre fez, apesar da situação financeira ruim. Nunca quis o dinheiro do filho, sempre lutou para manter-se com o que ganhava, lavando carros, entregando gás, catando latinhas e até mesmo pegando chapinhas de garrafa para uma coleção que tanto gostava... muito tempo depois, Valterson viria a dar uma casa pra ele, como recompensa por tudo que fizera, mas calma, vou chegar lá.
Foram cinco anos de Flamengo, com conquistas e glórias. Naturalmente, por ser um jogador diferenciado, não aguentou a pressão do exterior e foi vendido para o Internazionale, da Itália. Com o Euro em alta, enriqueceu em menos de duas temporadas, se tornando um dos jogadores mais bem pagos de toda Europa. Temos tempo? Não? Tudo bem, vou cortar a parte da Copa, do título de melhor jogador... leiam na biografia do menino, daqui a um tempo.
Confesso que o que mais me impressionou nesse moleque danado, foi que nunca esqueceu suas raízes. Sempre que tinha uma folga, pegava o avião e vinha até o Rio, ver a família e levar presentes pra todos, até pros velhos amigos da favela. Numa vez, comprou uma casa de três andares (viu, cheguei lá) perto da comunidade, para que seus pais e sua vó morassem. Sempre foi muito querido e nunca escondeu de ninguém que veio de família pobre, isso sempre foi lhe ensinado pelo já muito velho, têta.
Agora já foram onze anos de carreira e Valterson sentiu que era hora de voltar para o Brasil, ficar mais tempo com a sua gente, sentir-se em casa. Ficar com seu pai, que sentira muita falta.
Voltara em meados de julho. Voltou, claro, para o rubro-negro carioca. Viu e ajudou seu time a se classificar para a Libertadores do ano que vinha; ia passar o Natal feliz da vida. Iria, se a vida não fosse lá tão desanimadora.
Na noite de Natal, estava uma alegria só. Valterson já havia dado todos os presentes que comprara, o mais barato beirava os 500 dólares. A família, em recíproco e querendo agradar, deu presentes caros também: par de chuteiras, cordões de prata e roupas caríssimas! Todos, menos têta, que tirou uma caixa de sapato velha de dentro do armário, mas não quis entregar, talvez estivesse sem graça, eu não estava lá pra ver. Disse que entregaria no momento certo. Mas já no meio da ceia, têta sofreu uma parada cardio-respiratória. O curioso foi que no meio do desespero da família, ainda pediu que levassem a caixa de sapato velha para o hospital, mas que não a abrissem.
Já no hospital, têta foi colocado na UTI, em constante observação dos médicos e acompanhado da família. Todos estavam do lado de fora, menos Valterson, que quis ficar ao seu lado o tempo todo.
Seu pai, que havia sido sedado, acabara de acordar. Estava com os olhos marejados e quase fechados. A voz estava fraca, muito baixa, por causa do remédio, mas ele queria falar alguma coisa. Com o pouco de energia que tinha, apontou para a caixa de sapato ao seu lado. Valterson a pegou e abriu. As lágrimas não paravam de escorrer pelo seu rosto. Era a velha coleção de chapinhas que seu pai colecionara quase a vida toda. O velho ainda teve forças pra sorrir e balbucear:

- F-f-feliz na-natal, filhão...

- Valeu pai, disse o menino magrelo, com os mesmos olhos desconsolados... foi o meu melhor presente.

E com essa pequena troca de conversas e olhares, meu amigo têta fechou os olhos novamente, dessa vez pra sempre. O Valterson? Bom, encerrou a carreira no ano seguinte e abriu uma associação para crianças pobres, batizada de Roberto Júnior.

domingo, 21 de novembro de 2010

Quando o sofrimento vira marketing

Quando se vive num mundo globalizado, tecnológico, com informações circulando 24 horas por dia, é provável que, em algum momento, você já tenha recebido um e-mail. Não um e-mail qualquer, estou falando das (malditas, escrotas e insuportáveis) correntes.
É só uma questão de pontos de vista, algumas pessoas realmente gostam delas e enviam todas que recebem, talvez até pra mais pessoas do que ela pede. Mas esses dias, algo me chamou atenção nas correntes que estão sendo passadas e repassadas e infelizmente percebi que existem ser humanos sem o mínimo de compaixão que, além de veicular informações falsas, fazem do sofrimento alheio uma brincadeira de péssimo gosto.
Aparentemente, trata-se de uma informação importante com suas letras grandes dizendo 'URGENTE'. Lê-se aquele e-mail pedindo ajuda para um bebê que nasceu com um tumor cerebral e um câncer e a cada mensagem enviada, os pais ganhariam X centavos para o tratamento. E logo eu, que nunca fui de ligar pra correntes, enviei uma pela primeira vez. A segunda, a terceira... Até que um dia, recebo uma outra completamente diferente, com pais diferentes, apelos diferentes e doenças diferentes, mas com um único detalhe: a foto era a mesma. Por que fazer isso? Falta tanto amor assim, a ponto de que pessoas vejam graça na compaixão de outras?
Ainda houveram muitas outras, com animais, adultos, idosos... e todas elas por mais emocionantes que fossem, já haviam passado pelo meu computador com outras versões. E agora, com toda essa mentira, em qual devo acreditar? Qual delas realmente é um apelo de verdade?
Não somos dotados da racionalidade à tôa, portanto usem suas cabeças para algo que realmente preste e não sejam infantis pela vida toda, achando que é legal ver 500 pessoas repassando e-mails falsos, achando que estão ajudando alguém que só existe na cabeça entorpecida de vocês. Vocês aí mesmo, desocupados de plantão, fazendo marketing de problemas que não existem; se querem salvar suas vidas, enviem esse texto para 15 pessoas e apertem f7; uma coisa maravilhosa vai acontecer: eu vou ganhar 15 visitas no meu contador. Se não enviarem, vão todos morrer afogados numa demência sem fim, sendo obrigados a passar essas correntes para sua própria família, com sua própria foto, com seus próprios problemas. Não custa nada enviar, são só 2 minutos do seu tempo e mil horas de aborrecimento pro mundo à que elas estão ligadas.

domingo, 7 de novembro de 2010

vExame Nacional do Ensino Médio

Daí você se prepara um ano inteiro: são noites em claro, dias em que abandona festas e amigos para que, no final do ano, você seja capaz de realizar uma boa prova e atingir o tão sonhado objetivo, de ser aluno de uma universidade federal. A expectativa é grande, a concorrência também, mas alguém que tenha 'desperdiçado' quase 300 dias de sua vida, trancafiado no quarto estudando para uma bateria de provas vestibulares, o resultado pode ser favoravelmente fantástico. Até seria se o ENEM não voltasse a mostrar sua incompetência.

Como se já não bastasse o ano anterior (2009), em que a prova vazou e foi adiada 2 dias antes de ser aplicada (a nova prova só foi realizada em dezembro), o que prejudicou algo em torno de algumas 4 milhões de pessoas. Coisa boba. Mas essa galera é persistente; em agosto deste ano, uma nova dor de cabeça, dessa vez com a falha no sistema do Inep, que permitiu o acesso a dados pessoais como nome, RG e CPF de quem prestou os exames nos últimos 3 anos.

E agora, meus queridos, sabendo de todos esses pequenos problemas decorrentes da falta de organização, será que esse ano o exame transcorreria sem dificuldades? Não. É como se fosse um teste emocional, todo ano tem algum impasse diferente. A bola da vez do ENEM 2010, foi o erro de impressão dos cartões-resposta, algo que poderá levar (pelo segundo ano seguido) à anulação da prova na Justiça, visto que a Defesoria Pública da União vai pedir ao Minitério da Educação (consagradíssimo MEC) um novo exame para substituir o que foi aplicado ontem, para mais de 3 milhões de estudantes em todo o país. O que causa indignação não é o erro de fato, mas sim a displicência de percebê-lo APENAS no dia do exame! Passou-se quase um ano de inscrições, era mais que tempo para perceber um erro em algo tão importante, como o cartão-resposta, local onde o aluno colocaria, perdoem-me a redundância, suas respostas.

Para entender melhor, os alunos tinham 90 questões a serem respondidas, em primeiro lugar, as de C.Humanas (1 a 45), e depois as de C.da Natureza (46 a 90). Porém, no cabeçalho do cartão-resposta, a ordem estava invertida. O que teve de fiscal falando pra inverter, seguir ordem, dizer ambos e dizer pra RASURAR depois não está nem no gibi. O Inep tentou suavizar a questão e disse que o transtorno ocorreu em todo o Brasil e que os fiscais foram orientados a passar a informação aos estudantes de ignorarem o cabeçalho... só no dia da prova, pra avisar?

O segundo dia de provas está rolando agora e nem sei que surpresas virão, mas com certeza milhares de estudantes serão prejudicados, uma vez que bagunçaram seus cartões por culpa do sistema e não deles próprios. Apenas mais uma demonstração da fragilidade do ministério, que provavelmente tem como base 'culpar o número excessivo de candidatos' e que 'não é fácil lidar com milhões de pessoas'. Oras, se fosse difícil assim, não unificassem o vestibular para ficar cometendo esses erros grosseiros, desrespeitando as pessoas que se sacrificam para estar lá, garantindo seu futuro. E aí, MEC, qual vai ser?


p.s.: desculpa, não sei mexer em photoshop, mas a intenção da foto é a que vale!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Mar tímido

São poucos aqueles que se aventuram a encarar a força do mar. Olhar as ondas baterem contra a areia e sentir uma baita vontade de enfrentá-las; acordar cedo e sair, munido apenas de uma prancha, partindo em direção ao imenso azul. Mas a caminhada é longa: quem quer subir nas costas do oceano não pode simplesmente entrar lá e achar que sabe nadar. Saber nadar é o menor dos problemas, uma vez que para ser um autêntico surfista como Andy Irons, é necessário sentir-se parte do mar.
Para Andy, a praia e ele eram um só. Do caminhar descalço pela areia até sentir o gosto de sal nos lábios, era uma distância curta e proveitosa, que poucos conseguem entender. Esse sentimento pelo surfe se fez desde criança, quando ele tinha apenas 8 anos. Desde lá, Andy ia percebendo toda a magia da praia. O dorso agitado do mar era um fascínio a mais e a areia quente era uma eterna plenitude, em que ele se sentava pra sentir o vento e olhar as ondas quebrando-se nas pedras.

Tamanho era o amor de Andy Irons pelo surfstyle, que o garoto cresceu surfando e com apenas 18 anos sagrou-se campeão de sua primeira competição profissional. De lá pra cá, foram três títulos mundiais e dois vice-campeonatos, ficando atrás apenas do inigualável Kelly Slater. E foram com essas premiações que Andy tornou-se um dos maiores campeões da década, ficando famoso pelo mundo do surfe e sendo espelho de muitos pequenos surfistas.

E como todo grande homem que sai de cena abruptamente e deixa histórias pra serem contadas, eis que Andy despediu-se do mundo para tornar-se uma lenda. O surfista havaiano morreu na cidade de Dallas, por ter contraído dengue hemorrágica, abandonando o circuito mundial pela metade. Não só ao circuito como também sua esposa, Lyndie, grávida de 8 meses. E mais que deixar este mundo, Andy Irons também deixa uma ferida grande no coração dos surfistas, que só vai se cicatrizar à medida que seu nome for se tornando um dos maiores da história do surfe, pelo carisma, simpatia e jeito tranquilo na areia e pelo estilo ofensivo e ferocidade dentro do mar. As ondas agora, com certeza ficarão mais tímidas...

Parabéns Andy Irons, pela vitoriosa carreira e pela pessoa que você foi. À você, minha singela homenagem.



Andy (Messias) Irons - * 24/07/1978 + 02/11/2010.

Rapidinha da Semana #16

A candidata do PT, Dilma Rousseff, venceu a disputa pela presidência da república e tornou-se a primeira mulher presidente do Brasil. Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), com 93% das urnas apuradas, Dilma já havia conquistado mais de 52 milhões de votos, o equivalente a 55% dos votos. A petista derrotou José Serra (PSDB), que conquistou apenas 45%, o que representa quase 42 milhões de votos. Aos 62 anos, a mineira assume no lugar do populista Luís Inácio Lula da Silva durante os próximos 4 anos.


Senhor! Tenha piedade de nós... De todo modo, parabéns à candidata e que ela faça merecimento a grande quantidade de votos que recebeu, senão o circo brasileiro vai pegar fogo. Bem mais fogo.