terça-feira, 26 de outubro de 2010

Tiroteio verbal


Quem assistiu aos últimos debates à presidência do Brasil (exibidos por RedeTV! e Rede Record), pôde perceber claramente que a campanha de ambos aí da foto desandou para a baixaria. Uma eleição que transcorre num cenário de crescimento econômico, que deveria girar em torno das propostas e projetos dos candidatos, algo que foi prometido, inclusive, desde o início de suas candidaturas, há quase oito meses. O grande problema, é que ao invés de debaterem suas propostas, o que se viu foram ataques diretos de um contra o outro, acusações mentirosas, anônimas e pancadaria verbal. Mas o que acarretou toda essa baixaria? Acredito eu que tenha começado em meados de abril, quando as pesquisas indicavam uma larga vantagem do pré-candidato Serra. Lula, então, percebendo a desvantagem de sua sucessora, percebeu que era hora de um apoio consistente; nada melhor que o apoio do próprio presidente para alcançar a vitória. E fazendo propagandas na televisão e ocupando o horário eleitoral, Dilma se tornou a favorita.

E então começaram a vir os altos e baixos de cada um. Vendo que não teriam chance contra o 'Presidente Popular', os oposicionistas começaram a retalhar a imagem de Dilma, se aproveitando de questões religiosas e o 'Fator Erenice'. E de uma eleição que, para os petistas, estava ganha ainda no primeiro turno, Serra encostou novamente nas pesquisas, abrindo caminho para o segundo turno das eleições. Aí, meus caros, foi a vez do PT de atacar e retalhar a imagem de Serra, utilizando-se de boatos sobre sua suposta intenção de privatizar o petróleo do pré-sal (algo que se tornou a plataforma de campanha de Dilma, mas que na verdade nem fora devidamente explorado pela falta de coragem de investir bilhões e bilhões em sua exploração). O clima, logicamente, só poderia esquentar...

Agora apertem os cintos, cidadãos brasileiros: podem esperar ataques muito mais pesados nesta última semana e isso já se comprova no debate de hoje, exibido pela Rede Record, onde todas as perguntas feitas pelo candidato Serra não foram respondidas pela candidata Dilma e vice-versa. Só nos resta esperar pra ver se mais bolinhas de papel e bexigas d'água vão continuar sendo atos da mais pura criminalidade.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Natal Flocos com Bacon

Meus queridos! Como toda pessoa normal deve saber, já estamos em outubro e o Natal se aproxima. Época de reunir-se à família, celebrar, ganhar presentes e engordar mais uns 10 quilos de tanto comer aquelas benditas rabanadas da vovó e o pernil mais gordo do mercado.

Porém, por mais que seja divertido para nós, pra muitos outros (principalmente crianças), o Natal é tristonho, simplesmente por não ter ceia pra comer, presentes pra abrir e até mesmo uma família pra celebrar. E são justamente nessas horas que eu sinto mais pena e mais vontade de ajudar. O problema é que não vou conseguir fazer isso sozinho, portanto aqueles que estiverem dispostos a apoiar, peço que entrem em contato comigo para que possamos, juntos, fazer um Natal mais feliz para muitas crianças que ainda precisam desse espírito natalino nos corações.

Eu sei que a situação ($$$) está difícil, pra mim também está... Mas se todos ajudarem, não será necessário um gasto muito grande. Se você tem brinquedos que guardou que nem usa mais, roupas que já ficaram apertadas e um quilinho de alimento não perecível extra no armário, já é de grande ajuda. Importante mesmo é participar para que elas tenham uma noite de Natal feliz.



Desde já, agradeço a atenção de vocês!

Nota de esclarecimentos



O 'Flocos com Bacon' foi criado por mim há dois anos (uhuul!), primeiramente como válvula de escape para os meus problemas. Porém após a divulgação, hoje já são quase 2.500 visitantes e minha vontade de escrever foi além das minhas aflições, dando-me ânimo para expôr ideias sérias e coisas engraçadas para o meu pequeno público leitor. E agora escrevo mais que problemas, escrevo contos, crônicas e coisas cotidianas, que além de agradar à mim mesmo, agrada a muitos outros. Mas o que quero realmente falar nessa rapidinha, é que estou pouco me importando com o que certas pessoas, que não preciso citar os nomes, falam do que escrevo. Quero deixar claro que isso é um país livre e você não é obrigado a pensar igual à mim, o que significa que o seu ponto de vista pode ser diferente do meu. Em outras palavras, se você não gosta do que escrevo, não se sinta na obrigação de ler, não sou seu formador de opinião nem vou mudar as minhas ideias porque você é contra o meu pseudo-trabalho.

Em contra partida, quero agradecer muito à todos aqueles que leem meus textos e gostam do que leem. Alguns leitores assíduos são até contra algumas das minhas opiniões, mas todos me expõe isso com argumentos e caráter. Obrigado mais uma vez, o Flocos com Bacon só tende a crescer.

No mais, peço que comentem ao final das postagens e não pelo MSN, como a esmagadora maioria tem feito... Isso ajuda muito na divulgação que o próprio Blogger desenvolve.


Gabriel Cardoso.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O banheiro

Ele já foi considerado, por muitos, um santuário, um espaço de concentração, reflexão, talvez até palco de algumas aflições. O que seria de nós sem o precioso banheiro, um recinto de solidão e privacidade que nem mesmo seu próprio quarto pode ter. E aventureiro que sou, não podia deixar de te carregar pra dentro desse universo paralelo junto comigo, que é o banheiro, pra lhe revelar algumas verdades obscuras sobre ele. Entre e feche a porta.

Não fui do tempo em que só existia um banheiro para todos os moradores da casa (além, claro, do de empregada, mas esse ninguém queria usar, só em emergências); os banheiros eram templos, obras faraônicas, com janelas e banheiras grandes, só não se perdia lá dentro porque a porta nunca era da mesma cor dos azulejos. Hoje eles se procriaram e já são mais de três por apartamento! Não é porque a população está defecando mais que antigamente nem porque as famílias ficaram maiores, é uma mera modernidade da arquitetura: achar que as casas precisam de um banheiro pra cada morador. E eu posso provar: tente achar um apartamento de três quartos SEM suíte, pra vender. Impossível. Provavelmente você vai achar um de três quartos. Todos eles são suítes. Parece que cada um tem que ter seu próprio banheiro, pra que ninguém sinta seus cheiros, veja suas bagunças, nem use sua pasta de dente. É tanta coisa, que provavelmente na sua casa já deve ter mais privada do que gente morando. O problema é que com tantos banheiros, todos foram diminuindo de tamanho e agora se torna impossível pegar um simples sabonete no chão sem que sua cabeça bata na pia. Nem janelas têm mais! Precisam sempre de um produto que deixe cheiro de rosas, de cachoeira, de paçoca, só pra disfarçar o cheiro de fossa que não tem por onde sair, já que o basculante está emperrado; até o papel higiênico é perfumado. Nunca senti cheiro neles, mas dizem que é, então eu acredito.

Junto com toda essa modernidade, lógico, inventaram que por mais 'kitnet' que fosse o apartamento, precisaria ter um lavabo. É como se as pessoas que fossem te visitar não pudessem usar o seu banheiro, como se tivesse algo de secreto por lá. Porém se tornou tão comum, que quando não se tem um lavabo, de fato, me sinto meio envergonhado, pois o banheiro, tão particular dos moradores, é cheio de produtos de beleza, shampoos e às vezes dá vontade de se secar com a toalha grande de banho pra sentir um odor peculiar. Até as visitas precisam do seu próprio banheiro. E se o banheiro do quarto de casal já é pequeno, imagine o lavabo! Cuidado pra não se inclinar demais na pia, visitante, sua bunda pode bater na maçaneta.

Como estamos tratando de banheiros e já estou quase dando descarga pra encerrar, não podia faltar a parte principal desse local frequentadíssimo por todos: o vaso sanitário. Tão imponente, tão necessário, tão versátil, podendo ser usado até como uma poltrona bem fofa de leitura, o vaso é uma peça fundamental em qualquer sala de banho (só pra ficar chique). Tão importante que estar nele, no banheiro em si, é algo que deve ser tratado com muito respeito:



- Cadê o Paulo?



- Tá no banheiro.



Pronto. Foi o suficiente para que ninguém mais perguntasse, batesse à porta ou atrapalhasse o momento íntimo do Paulo ou de quem quer que seja. Pode ser que rolem algumas risadas se a pessoa demorar muito, mas ainda assim ela merece muito respeito. Estar no banheiro é como estar num congresso em Brasília.

Portanto, devemos sempre olhar para nossos banheiros, que apesar de drásticas alterações ao longo dos anos, continuam sendo o espaço de maior concentração mental de nossas casas. Pequenos ou grandes, lavabos ou não, todos têm aquela mesma função... O que precisa mudar é a maneira como você o compra, nunca vi ninguém sentar num vaso antes de comprá-lo. Depois ainda ficam reclamando que o banheiro é ruim... Hunf, loucos, vão cagar no mato, então!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Rapidinha da Semana #15


A petista Dilma Roussef, candidata à presidência do Brasil, divulgou hoje em nota oficial que deseja contar com Marina Silva, candidata derrotada do PV, com cerca de 19% dos votos válidos. Em sua nota, Dilma atacou seu adversário Serra, falando a respeito das inverdades veiculadas sobre ela durante a campanha (contra a vida, a favor do aborto) e disse também que quer esquecer o passado de brigas com Marina nos tempos de ministras e que agora prevalecem mais semelhanças do que diferenças entre elas; 'contar com Marina seria maravilhoso, é uma mulher de presença e muita força, que eu respeito e seu apoio teria muito valor', disse Dilma.


Marina, minha gracinha! Esquece que eu te chamei de doméstica, semialfabetizada e incapacitada de governar um país! Vamos ser sócias? Amigas não, isso é para os fracos.

domingo, 3 de outubro de 2010

Eleições

Política é um assunto chato. Você já deve ter ouvido centenas de pessoas repetirem esse bordão. É chato, comentado em pouquíssimas rodas de conversa e quase sempre quando se fala um pouco à respeito, alguém já pede pra parar e mudar de assunto. Essa é, infelizmente, uma dura realidade com a qual temos que conviver no nosso país. Ter que ver de quatro em quatro anos, milhões de pessoas jogando fora a única e perfeita oportunidade que têm de tentar mudar o lugar em que vivem para melhor. Um dia eu os culpei por isso, sem perceber que tem muito mais verdades escondidas por trás dessa 'chatice' que é a política. Os culpei porque pareciam estar cegos diante dos problemas que os cercavam e porque deixavam se influenciar por meias palavras. Nunca foi culpa do povo.
Não é culpa da população não se interessar nos assuntos ligados à política brasileira, simplesmente porque é muito mais fácil controlar as pessoas quando elas estão completamente alienadas a tudo que acontece ao redor. Quando elas deixam de ser uma nação e passam a ser uma massa de manobra, facilmente controlada por aqueles mesquinhos que só pensam no próprio benefício. Mas o que é esse controle? Nada mais é que o meio utilizado pelos políticos para conseguirem se eleger. As pessoas precisam ser ignorantes, burras como animais porque é do interesse desses malditos elitistas que elas sejam assim, pois se as pessoas estiverem sob controle, não haverão revoltas, passeatas e manifestações; tudo pode ser feito livremente, ninguém entende, ninguém vê.
A ideia de controle vem de muito tempo atrás, não é um conceito atual, mas sim uma sucessão de mazelas e problemas que hoje já são quase impossíveis de mudar. Irreversíveis, eu diria, os políticos não vão mudar porque não há interesse que o povo fique mais inteligente, isso geraria contestações. Enquanto não se sabe de nada, enquanto se aproveitam da pobreza e da miséria de milhões de pessoas, é mais fácil conseguirem votos. Me deixa completamente revoltado saber que o salário deles cresce a cada dia, ao passo que falta verba para crianças crescerem saudáveis e com nível de escolaridade decente. Mais revoltado ainda ver que oferecem qualquer coisa em troca de votos, principalmente para aqueles fortemente influenciáveis: os pobres. Uma pessoa que não tem nada, com certeza dará seu voto ao primeiro que lhe oferecer um lençol e um prato de comida. Pior; ainda vai bater palmas e chamá-lo de herói. Duro, porém verdade.
Me dá mais pena do que raiva, ver que as pessoas se contentam com pouco; dizem que o país cresceu, que muitas pessoas estão empregadas... Grandes merdas. O país cresceu pouquíssimo, só acompanhou a inércia de muitos outros anos e pessoas estão empregadas construindo estádios de futebol, uma coisa que só serve para deixar a população feliz. Não se tem dinheiro para investir em educação, em saúde, em saneamento e qualidade de vida, mas tem dinheiro de sobra para construir estádios. Como se não bastasse ainda fazem a bendita 'caridade' de dar cem, cento e cinquenta reais por mês para uma família de cinco pessoas e acharem que são os donos da felicidade. Vergonhoso, ver todos se contentarem com pouco porque nunca tiveram nada. E agora, graças aos bolsas-qualquer-coisa, o comodismo tomou conta da sociedade e ninguém mais quer tirar a bunda do sofá porque sabe que no final do mês vai ganhar uma graninha sem fazer absolutamente nada, quando esse dinheiro que é distribuído como esmola podia estar sendo investido em algo muito maior, que é o conhecimento e o desenvolvimento. E ai de quem acabar com o programa para investir em educação, não ganhará mil votos, sequer.

Sou completamente apartidário e como hoje é dia de eleição, escolhi aqueles candidatos que acho que podem fazer bem, não só a mim, mas a todos os brasileiros. Procurei me informar sobre todos eles e tentei tirar da cabeça aquela ideia de 'escolher o menos pior'. Fiz a minha parte... mas e o restante? Bem... o restante elegeu pessoas que a pouquíssimo tempo atrás eram considerados ladrões e que com meia dúzia de palavras carismáticas conseguiram novamente ser eleitos. Cabral, que hoje em dia é vaiado toda vez que entra num Corpo de Bombeiros, foi eleito no Rio de Janeiro como governador. Foi eleito por que? Criou as upp's, que pacificaram os morros. Mentira. O tráfico continua rolando solto nos morros 'pacificados' e só para quando a polícia vai verificar. Dessa forma, é fácil dizer que não há mais tráfico na área. Não inventei nada, um morador de comunidade pacificada me contou. Criou as upa's 24 horas, que atendem milhares de famílias carentes com eficiência. Mentira. Elas realmente funcionaram, mas somente quando os bombeiros tomavam conta do sistema. Os bombeiros, que diga-se de passagem ainda são a única corporação que eu respeito, tratavam das pessoas e mantinham as upa's em ordem. Foi só Cabral colocar política no meio e tirar os bombeiros que as upa's se tornaram uma desgraça, com filas e atendimentos precários. Conseguiu trazer as Olímpiadas para o Rio de Janeiro. Enquanto isso as escolas seguem destruídas, o ensino ridicularizado com um idep de 2.8 pontos em 10.0 e uma qualidade de vida questionavelmente limitada.
Não só me limito à Cabral, muitos políticos tiverem a coragem (cara de pau) de se eleger e o pior de tudo é que muitos foram eleitos! Garotinho foi eleito em primeiro lugar para deputado federal do RJ, Collor por pouco não foi eleito em alagoas como governador, ficou em terceiro com 350 mil votos a seu favor! Paulo Maluff ganhou 300 mil votos em São Paulo e pode ser eleito deputado, basta só a justiça eleitoral retirar as acusações que fizeram e que deixaram sua ficha suja. Tadinho do Maluff...
Tiririca foi eleito em primeiro lugar com mais de um milhão de votos e foi o candidato mais votado em todo o Brasil! Um comediante semianalfabeto foi eleito, provavelmente porque 90% dos seus eleitores o acham divertido! Assim, nunca iremos crescer e eu vou precisar criar muito mais textos assim por muitos e muitos anos, quando o que eu mais queria era criar um mundo melhor que pelo menos meus filhos e os seus pudessem aproveitar, mas enquanto a população for burra e controlada por essa corja, nosso país nunca vai mudar. E a única coisa que precisava ser feita era investir em educação, para que todos se tornassem mais inteligentes e o país todo ganhasse com isso. Educação... tão simples e tão inalcançável... continuemos então nosso caminho árduo para o inferno brasileiro. Vão à merda, malditos políticos mercenários!

Trama bem feita para o poderoso chefão.

Lá estava eu, de pé, em pleno dia de domingo, naquele maldito ônibus calorento. Como se não bastasse o suor escorrendo por baixo da minha camisa novinha de algodão fino, ainda tinha que dividir aquela experiência infame com a minha filha e com mais um bando de desocupados que lotam o ônibus num dia que deviam estar em casa. Bufei tão alto dessa vez que Carol resmungou:

- Que que foi agora, pai?

- Nada, Carolina, nada. Só não consigo mais engolir aquela premissa da física que diz que dois corpos não ocupam o mesmo lugar.

- Você reclama demais, parece que tem dois séculos de vida! Ninguém mandou achar que sabia mais de conserto de carro que o Paulo...

- Ele é um idiota, não sabe de nada!

- Ele é mecânico há trinta e cinco anos, pai!

- Por isso mesmo, os tempos mudaram e os carros estão diferentes... Mecânico maluco, o carro estava funcionando direitinho.

- Eu percebi, aqueles três estouros no motor são sinais de bom funcionamento...

- Isso foi azar. Pior agora é ter que ficar nesse coletivo fedorento, cheio de gente e com... - sussurrei. - esse boiolinha aí sentado na minha frente.

- Pai! - respondeu Carol, agora sussurrando também. - que horror...

- Horror? Mais uma curva dessas e ele vai achar que quero pedir o número do telefone dele! Saco, não sei por quê estou aqui!

- Porque você prometeu que ia conhecer meu namorado hoje.

- Ah é... que gracinha, eu e minhas promessas.

- Moço, dá licença? - pediu uma velha gorda pra mim.

- Vovó, se quiser mais espaço que isso, vou ter que sentar no colo do amiguinho de roupas apertadas aí, pra você passar.

Carol fez uma cara horrível e baixou a cabeça, enquanto o rapaz me deu um risinho meia boca, disfarçado com uma tosse forçada. Já estava me sentindo desconfortável, mais ainda quando a velha, que ficou rabugenta depois da minha resposta, tentou passar. Felizmente meu tormento acabou três pontos depois; enfim descemos daquele inferno sobre quatro rodas.

- Na volta vamos de táxi, adoro ser segregacionista - bradei, enquanto olhava minha filha ajeitando a roupa. - e vê se cobre essas pernas, vai pegar uma doença se continuar usando esses cintos que você teima em chamar de 'saia'.

- Tá, pai, tá...

O apartamento ficava nas Laranjeiras, em uma das transversais da Rua Pinheiro Machado. Era um prédio antigo, de poucos andares, me parecia muito familiar. Até demais. Estava com a fachada muito sucateada e o jardim quase sem plantas. Mas fazer o quê, ao menos o bairro é decente.
Subimos as escadas; prédio velho não tem elevador. Toquei a campainha que mais parecia uma marcha fúnebre e esperamos a porta abrir. Continuava muito familiar...

- Oi, boa tarde! Entrem, fiquem à vontade! - disse uma garota com as vestes sujas e manchadas de água sanitária.

Parecia ser a empregada. Nos sentamos à sala e esperamos alguns minutos até que, pra minha tristeza, um garoto magricela, de cabelos bagunçados e óculos remendados apareceu pelo corredor.

- Tavares?!

- Chefe?

Não podia ficar pior; o namorado da minha filha era o Tavares, meu pior funcionário. Não que seu serviço fosse de todo ruim, mas era muito lento e demorava pra entender minhas ordens, o que me deixava extremamente estressado. Senti minha cara torcendo como se tivesse chupado um limão e ele percebeu que não gostei. Tinha que ser simpático com aquele que sentia vontade de estrangular todos os dias.

- Então, você é o namorado dela...?

- Pois é... mundo pequeno né?

- Jesus amado, que que você viu nesse bambu com pernas, Carolina?

- Pa-pai...

- Tudo bem, tudo bem, amor - respondeu ele, com aquele jeito tranquilo que me irrita. - Seu pai e eu temos essa relação engraçada no trabalho também, não é, sogrão? - continuou dizendo, dando-me cotoveladinhas na altura dos peitos.

- Senhor Gonçalves ainda, Tavares...

E enquanto discutíamos aquela desgraça sem fim, começo a ouvir uma voz muito familiar, aproximando-se pelo corredor.

- Léozinho, meu amor, pega aquela caixa de grampos no armário pra sua mãe, CACETE! REGINALDO?

- CÉLIA?

Eu havia me enganado. AGORA sim, não podia ficar pior. Era Célia Regina, minha ex-amante.

- Eu vou te matar, cachorro! - gritou ela, tentando pular nas minhas costas.

- Sossega o faxo, mulher! - gritei, impondo meu respeito de sempre.

- Sossega, sossega, até hoje você só sabe me dizer isso? Seu safado, você some, me deixando com criança pequena pra criar so-zi-nha e ainda tem a cara-de-pau de aparecer aqui assim, desse jeito! Mas então... quer dizer que essa é a sua filha com aquela vagabunda?

- Vagabunda?! - dissemos eu e Carol, juntos.

- Papai, que que está acontecendo aqui? - perguntou-me Carol, completamente fora de sintonia.

- Minha filha... essa mulher... eu tive um caso com ela quando comecei a namorar com a sua mãe, espera, espera, deixa eu acabar! - disse eu, segurando-a, quando tentou me interromper. - Quando comecei a me apaixonar pela sua mãe, eu deixei ela, a Célia, pra ficar só com a sua mãe, entendeu? Mesmo sabendo que eu a havia deixado gráv... Droga.

- Droga o quê? - perguntou Carol.

- Célia, quer dizer qu...

- É, ele é seu filho também.

Desisti de achar que meu dia não podia ficar pior, pois um dia da minha vida nunca havia sido tão devastador quanto esse de hoje. Meu empregado feio e idiota agora era meu filho, empregado feio e idiota!

- Opa, calma aí, calma aí... - interrompeu Carol. - então o meu namorado, o garoto que eu gosto, agora é meu meio-irmão?! Cacete, pai, até isso você estraga...

- Desculpa ué, o que eu posso fazer?

A sala toda se mergulhou em silêncio. Todos se encaravam sem dizer uma só palavra, já não aguentava mais aquela situação... pensei em ir embora ou pedir um copo com água e uns três quilos de açúcar para acalmar os nervos, mas achei melhor ficar quieto. Acabei levantando alguns segundos depois, sou muito impaciente.

- Aonde você vai? - perguntou-me Célia.

- Ao banheiro, posso? - respondi, secamente.

Andei pelo corredor e antes que chegasse ao banheiro, me deparei com o quarto de Tavares. Entrei por impulso, não sou fofoqueiro. Olhei ao redor, parecia tudo muito arrumado, ao menos isso ele havia puxado... o pai, droga. Havia um armário branco grande num canto, com a cama de molas bem em frente. No outro canto, tinha uma escrivaninha com computador e um monte de papéis pequenos presos num quadro da parede. Ele tinha a mesma mania que eu, pendurar papéis com as tarefas escritas para não esquecê-las. Li uma por uma, vendo as coisas que ele costumava fazer. "Ir ao banco", bem comum, essa eu não escreveria... "Comprar toalhas", importante, nunca lembro de comprar essas coisas, mas não entendi o motivo das toalhas... "Carregar peça", peça? Mas o que é isso? "Terminar poderoso chefão". Essa preocupa... terminar poderoso chefão... o que ele quis dizer com isso? Será que o termo 'poderoso chefão' era pra mim e o tempo de convivência o fez criar uma súbita vontade de me matar? Não, não pode ser isso... aliás, agora que estou vendo, tudo se encaixa! 'Carregar peça' é um código! Ele está falando da munição de sua arma cacete, ele quer me matar, sim! E 'terminar' pode estar ligado a EXterminar... que garoto malandro, nunca imaginei Tavares ser capaz de bolar isso e a maldita da Célia ainda deve ser cúmplice... mas e as toalhas? Audacioso... é um código também! Quer contratar alguém para fazer o serviço sujo de sumir comigo, me cobrir sem que ninguém descubra! Ah, não vai ficar assim! Ele pensa que me engana, mas eu sou Reginaldo Gonçalves e ninguém me passa a perna! Tenho que fazer alguma coisa, mas com dignidade, ele me chamou de poderoso chefão...
Corri até a sala novamente e peguei minha maleta. Enquanto os três e a empregada me olhavam, sorria forçadamente. Voltei pelo corredor, dessa vez indo até o banheiro. Lá, abri a maleta e tirei minha mini-pistola do fundo falso. Voltei até a sala e sem dizer uma palavra dei três tiros: matei a Célia, a empregada e o Tavares. Me senti heróicamente revigorado.

- PAI, você ficou maluco? - gritava Carol, olhando para os três estendidos no chão.

- Ele queria ME matar, Carolina! Não podia deixar isso assim, eu li o que ele planejava fazer no mural do quarto dele!

- Você o quê? Impossível...

Vendo que ela estava meio aturdida, levei-a até o quarto para lhe mostrar o que estava dizendo.

- Olha só! - disse eu, largando a arma na cama e pegando o quadro com as mãos. - Leia!

Carol foi lendo e sua expressão ficava cada vez mais horrorizada:

- Ai, pai... 'carregar peça' significa carregar celular, enquanto que 'terminar poderoso chefão', é o Livro que ele estava lendo e faltavam poucas páginas pra acabar! - disse ela, abrindo o armário e pegando o exemplar 'O poderoso chefão', para me mostrar.

Fiquei completamente sem ação. Encarei durante minutos o quadro e os papéis que ele havia escrito. Sem ter muito o que dizer, virei para dar um abraço na Carol, mas não consegui. Quando virei, ela me deu dois tiros. Já caído no chão sem forças, só consegui ver o Tavares aparecendo pelo corredor sem camisa, com apenas um colete à prova de balas, abraçando-a por trás. Ouvi um pouco da conversa:

- Conseguiu, né? - perguntou ele, com uma cara muito diferente daquela que era seu normal.

- Consegui... - disse ela, com a voz trêmula. - Já arrumou suas coisas? Nós temos duas horas e meia até nosso voo pra Paris sair.

- Sim, sim, está tudo arrumado, pensei que fosse demorar mais, mas até que deu tudo certo. Desgraçado, matou a empregada também, agora quem tem que limpar tudo sou eu. Liga pro Paulo da oficina pra vir nos buscar, enquanto eu pego as toalhas pra limpar isso aqui...