quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O paciente do quarto 313

O Seu Jair era um pobre coitado, não tinha onde cair morto e mal conseguia pagar as contas que tinha, com o dinheiro que ganhava da venda de doces na rua. Talvez seja essa a sutil razão para que sua mulher, Dona Nádia, tenha o deixado para morar com um endinheirado dono de um restaurante da comunidade do Morro do Pombo Gordo. Como se não bastasse todo esse martírio, ainda foi encontrado por uma daquelas balas perdidas, enquanto descia do ônibus em frente à praia, onde costumava ficar trabalhando. É impressionante como perdem essas coisinhas por aí, mas enfim...
O Doutor Lauro era um médico conceituadíssimo e trabalhava num hospital particular de Botafogo e por coincidência do destino, encontrara o Seu Jair, estendido na rua, cercado de curiosos. Seu Jair não estava tão mal. Tudo bem, ele havia sido baleado, mas o tiro pegara no braço e apesar da dor, ele ainda podia conversar, só não queria se levantar. Por sorte dele, Dr. Lauro tinha bom coração e quis ajudá-lo. Mesmo sendo contra as normas dos hospitais particulares, ele pediu a carteira de identidade do Seu Jair e o levou para o Hospital Samaritano, onde trabalhava, para tratá-lo devidamente. Logo que chegou, seus superiores disseram que nada podiam fazer, pois quem não tem plano de saúde conveniado com o hospital não pode usar dos serviços, senão todos iriam querer usar e blá blá blá, mas por ser o melhor médico do hospital e provavelmente de todo o bairro de Botafogo, acabaram abrindo uma exceção, mas só quando ele ameaçou demitir-se.
Levaram o Seu Jair para sala de cirurgia, onde conseguiram retirar a bala. Após isso, o colocaram no quarto 313, um dos mais econômicos do hospital, para aqueles planos de saúde mais baratos.
Quando ele acordou, depois de umas 11 horas, não podia acreditar: estava de banho tomado, numa cama fofinha, com uma televisão em cima de uma mesa em frente à sua cama. Quis levantar, mas o braço ainda doía e preferiu ficar sentado.

- Bom dia, Seu Jair! Vim ver se já estava acordado. E aí, está se sentindo melhor?

Era uma enfermeira, que acabara de entrar no quarto. Era magra, bonita e usava um jaleco bem sensual, o suficiente para o Seu Jair ficar doido por ela.

- Onde eu estou? - perguntou ele, sem piscar os olhos para a moça.

- Está no hospital, oras! - respondeu ela. - O senhor levou um tiro na rua e o Dr. Lauro o trouxe para cá, não se lembra? Retiramos a bala e agora vamos cuidar de você até o ferimento sarar. Quando estiver melhor, liberamos o senhor para ir embora, fique tranquilo. Falando nisso, o Dr. Lauro quer falar com o senhor.

- Ah... sim, sim, tudo bem, pode chamar ele pra mim!

- Pode deixar, vou lá chamá-lo... - disse a enfermeira, como quem quisesse consertar o erro de português.

O Dr. Lauro entrou alguns minutos depois, junto com a enfermeira que trazia uma bandeja com um prato de torradas, geleia, biscoitos e um copo de suco. Com um sorriso, ela colocou a bandeja sobre Seu Jair, dizendo "aqui está, senhor, coma tudo!".

- E então, rapaz, como está se sentindo? - perguntou o Dr. Lauro, com a voz calma.

- Hum, está... tudo... bem... quer dizer... ainda dói... um pouquinho... sabe? - ia dizendo Seu Jair, com a boca cheia de torrada. Não conseguia parar de comer, estava morto de fome, provavelmente sem comer direito há dias.

- O senhor teve bastante sorte... - continuou o doutor. - Se fosse mais velho, talvez nem sobrevivesse, pessoas idosas são mais frágeis, mas o corpo de trinta ajudou muito na recuperação e...

- Sim, sim, eu sei, tem como ligar a TV? E eu ainda estou com fome, pode trazer mais torrada?

- Ah... sim, eu... - disse o doutor, transtornado. - Ana Luísa, poderia pegar mais torradas pra ele? Eu ligo a TV, Seu Jair.

Com um largo sorriso e pensando "me dei bem", Seu Jair continuou deitado, comendo torradas e vendo televisão.
Os dias foram passando, viraram semanas e finalmente um mês se passou e ele continuava lá no hospital, fazendo 3 refeições ao dia, tomando banho com ajuda da enfermeira Ana Luísa e vendo televisão. Nunca ficara tão bem assim. Em casa comeria só um pacote de biscoito salgado por dia. Nem banho tomaria, nem televisão veria, a água e a luz haviam sido cortadas por falta de pagamento. Estava vivendo como um sheik árabe e toda vez que lhe perguntavam se sentia-se melhor, fazia caras e bocas, dizendo que ainda sentia dores agudas e que ainda teria que ficar por mais uma ou duas semanas. Quem já não aguentava mais, era a coitada da enfermeira, que tinha que cuidar dele todos os dias. Numa dessas tardes de folga, em que Seu Jair estava cochilando, ela foi ter uma prosa com o doutor:

- Doutor Lauro, preciso falar com o senhor. - disse ela, com uma cara bem enfezada.

- Diga, Ana, diga...

- Eu não aguento mais esse Jair! Ele não faz nada, só fica lá deitado, ainda me chama de gostosa toda vez que tenho que dar banho nele! Ele já está bem e o senhor sabe disso, se o braço dele dói tanto ele não poderia ficar botando a mão na minha cintura sempre que eu vou lá!

- Eu sei, Ana, eu sei, mas não posso simplesmente expulsá-lo daqui. Ele já está sarado há dias, mas não tenho coragem de chegar e dizer que ele precisa ir embora... A não ser que...

- O que? - perguntou a enfermeira, dando um passo para trás. - Nem pense nisso, eu não vou fazer nada com ele!

- Não é nada disso, sua pamonha, relaxe...

Às quatro da tarde, o doutor foi até o quarto para fazer um check-up de rotina. Bateu à porta e entrou:

- Boa tarde, Seu Jair! Como está?

- Ah, dotô, sabe como é, ainda dói um pouco aqui, um pouco ali. Parece que o tiro pegou em vários lugares, sabe?

- Sei, isso parece ser perigoso... Onde o senhor sente dores, exatamente?

- Bom... é... aqui e aqui e... aqui também, ai como dói aqui!

- Nossa... acho que temos um problema com a sua repimboca óssea. Está com tonturas e dores nas plantas dos pés?

- Nossa, muitas! Minhas plantas nunca doeram tanto! ...O que é uma repimboca?

- Isso é mau... quantos dedos o senhor vê aqui? - disse o doutor, fazendo um 'três' com a mão esquerda.

- CINCO!

- Como suspeitava, o senhor está com escabiose trombossal.

- Ah, é? E, e, e, isso é ruim, dotô?

- Ruim? O senhor corre risco de vida, Seu Jair, precisamos fazer um exame proctológico detalhado, para sabermos mais sobre o seu quadro.

- Exame pócrito-o-quê!?

- Proctológico, Seu Jair... é quando a gente...

O Doutor Lauro chegou bem perto de seu ouvido e fez diversos gestos com os dedos. A cara de espanto do Seu Jair aumentava cada vez mais.

- É o que, hômi!? Não, não, de jeito nenhum! - disse o Seu Jair, cobrindo a bunda com as mãos. - Tá doido, dotô!? Negativo, isso aqui é particular, amado e intacto até minha morte!

- Se quiser sobreviver é bom que aceite. Não vai doer, o senhor vai estar dormindo na hora.

- Dormindo!? Ainda vão querer me pegar desprevinido? Olha só, o senhor vê se para com essa coisa de passar o dedo nos outros, tá ouvindo?

- Mas, Seu Jair, é importante qu...

E sem falar mais nada, Seu Jair se levantou da cama e saiu correndo pelos corredores do hospital. Um dos enfermeiros que passava pelo corredor tentou segurá-lo, mas ele se desvencilhou e continou correndo. O jovem enfermeiro entrou no quarto 313 bufando e falou:

- Doutor Lauro, o paciente tá fugindo!

- Deixa ele, meu amigo. - disse o doutor, tranquilamente com uma risada. - Essa é boa, sempre funciona lá na Baixada!

Um comentário:

vituh correa disse...

E o Rio de Janeiro continua liindo