domingo, 29 de agosto de 2010

Terapia musical



Eu tenho uma banda. Achei que devia contar isso à vocês. Mas o que quero realmente lhes contar, é sobre o fascínio que tenho pela música. Não, isso não é presunção, nem dizer que as músicas que tocamos são boas. É somente o que está escrito mesmo, a música me fascina e o fato de ter uma banda, é porque gosto da musicalidade bem perto de mim sempre que posso.

Para muitos, a música pode ser vista como nos dicionários, uma explicação curta, de pouco conteúdo, onde diz que é uma junção de sons que formam uma melodia. Para mim é, de longe, muito mais que isso.

Eu vejo a música como uma coisa que não está aqui somente para ser ouvida; ela é tão boa quanto um tratamento terapêutico ou medicinal. Tudo bem que muitas não fazem sentido algum, mas muitas delas são feitas para serem degustadas, escutadas diversas vezes para entender o que de fato ela te conta. Não estou classificando nenhuma como ruim ou boa, até porque seu estilo musical pode ser diferente do meu; não há como saber quem gosta do que eu não gosto e vice-versa, mas cada música tem seu momento, seu núcleo de som. É isso que faz da música uma coisa fascinante na minha vida. É escutá-la para me agitar ou simplesmente relaxar. Isso torna a musicalidade algo especial, que se faz importante para todos. Tente imaginar o mundo sem música? Seria um tanto quanto desanimador e faltariam amantes do ritmo, aqueles seguidores fervorosos de pessoas que fazem da musicalidade uma filosofia de vida, um ponto de nirvana existencial. Ora, grandes líderes tinham milhares de seguidores, admiradores e reuniam multidões por onde passavam. E o que mais passa perto daqueles que são líderes, são aqueles que são músicos. A música não precisa ser boa e você nem precisa ser um ótimo cantor, basta que ela fique gravada na mente das pessoas, que faça com que elas se emocionem. Tem que tocar o coração, tal fazia Shakespeare; acredite, eu posso comparar Adolf Hitler com John Lennon, não por serem parecidos, mas porque reuniam multidões que, de certo modo, os admiravam.

A música faz parte de mim, é uma forma de expressão cativante que te convida a lugares fantásticos dentro dos seus próprios ouvidos. É, poéticamente falando, ter o mundo em suas mãos com uma sequência de acordes.



"Eu também gosto de música, mas não do que virou música. Essa presença compulsiva e compulsória de qualquer forma de som, o tempo todo, de todas as fontes em todos os volumes. É por gostar de música, que eu busco o silêncio." Laerte, cartunista.

Rapidinha da Semana #13

A rede de restaurantes McDonald´s organizou pela 22ª vez consecutiva o McDia Feliz, que promove o evento em prol do Grupo de Assistência ao Câncer Infantil (Gpaci). Todo dinheiro arrecadado com a venda do Big Mac, o sanduíche n°1 do restaurante, é direcionado para a instituição.

O que provavelmente boa parte das pessoas não sabem sobre o McDia Feliz, é que o dinheiro arrecadado com as vendas só é direcionado para as instituições quando o Big Mac é vendido separadamente. Ou seja, quando você comprar a oferta (sanduíche + refrigerante + batatas fritas), não estará ajudando a ninguém. Para que a doação seja efetuada, é necessário comprar SOMENTE o sanduíche e infelizmente, isso eles não dizem na propaganda. E eu te pergunto: de tudo que foi vendido nesse dia, em que as vendas aumentam cerca de 25 a 30%... Quantos compram SÓ o sanduíche? Querem se aproveitar da sua nobreza e você nem se dá conta... Ficadica#.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Rapidinha da Semana #12



O Ministério Público Federal divulgou nesta terça que o ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, além de mais 9 investigados, foram condenados pela Justiça. De acordo com o MPF, Garotinho foi condenado a dois anos e meio de prisão por formação de quadrilha, convertidos a serviços à comunidade e suspensão de direitos! Todos ainda podem apelar da decisão em liberdade.

Garotinho, por sua vez, não se conforma e diz estar sendo injustiçado, pois, como divulgou em nota do seu blog oficial, está sendo perseguido covardemente e que não é mera coincidência essa acusação ter surgido a poucos dias das eleições. Com uma rápida investigação podem perceber, ainda segundo ele, que seu passado é de lutas e que seus bens foram conquistados unicamente com seu esforço e sem auxílio de ninguém. Ele recorrerá utilizando todos os instrumentos jurídicos que a lei disponibiliza e não permitirá que acusações sem fundamento continuem sendo feitas contra sua pessoa.


AH! Coitadinho do Garotinho! Pobre coitado, sendo injustiçado dessa maneira... Todos sabem que ele foi um homem santo durante seus mandatos! Deus não dorme, Garotinho mimado.

sábado, 21 de agosto de 2010

Ocorreu um erro no envio da postagem abaixo. Portanto peço que aqueles que forem comentar, comentem nessa nota aqui. Valeu!

Urnas pra que te quero!

É por isso que eu digo que o Brasil não vai pra frente. Não importa o que dizem ou o que pensam, pois quando ninguém faz nada em prol do seu próprio desenvolvimento, é certo que não há meios viáveis para o crescimento do lugar onde se vive. Mas aonde poderíamos nós, seres humanos comuns, mudar para que nosso país atingisse aquele patamar tão sonhado, que é o de ser um país desenvolvido, como os arrogantes europeus?
Analisando nossas condições, vemos que as pessoas têm o poder da mudança todo em suas mãos. A democracia existente por tanto tempo nos proporcionou esse direito; o de votar naqueles que devem ser os nossos porta-vozes na luta por uma vida melhor. Esse é o poder de um ser humano comum: ser capaz de eleger alguém como seu representante. E mesmo sabendo que essa é uma das poucas oportunidades que temos para melhorar nossas vidas, pelo menos metade da população a desperdiça, simplesmente por ignorância. Ou por cegueira, por não conseguir ver que certas pessoas não serão capazes de transformar o Brasil. Política não é uma brincadeira de criança qualquer, que se pode ficar escolhendo alguém como Burrinho da Oficina para ser nosso representante, só porque ele é seu vizinho e é simpático e engraçado. Se política é algo engraçado, então nós somos os palhaços que contam essas piadas sem graça, pois somos nós quem elegemos todos esses hipócritas risonhos que estão no poder, que tanto reclamamos de serem ladrões e corruptos. De algum modo eles chegaram até lá. E excluindo-se casos extremos como pistolões, nepotismo e afins, sobra-se o voto, o meio que nós mesmos tivemos a incapacidade de não usar do modo certo.
Não se vota em alguém por ser engraçado, atraente, famoso, rico ou que quer que seja, mas sim porque aquele candidato é honesto, tem um passado livre de confusões e fichas policiais e possui um leque de propostas que podem fazer bem a todos nós. Não fazer isso, o modo correto posso assim chamar, irremediavelmente torna-se motivo de gozação pelo mundo todo, e nosso país, que podia estar a pequenos passos do 1° mundo, está agora a milhas de distância. Pense como devem ficar os poderosos europeus sabendo que as mulheres-frutas foram eleitas para traçar um novo rumo para nosso futuro! Será que vai ser bonitinho? Com muito funk e bebida liberada no parlamento? Não dá.
Ainda dá tempo de sobra para tentar mudar. Temos esse direito, esse poder que não fazemos nem ideia que possuímos. O voto é nosso e ninguém tasca, portanto pensem bem antes de votar e não votem em pessoas que só querem ser eleitas para ficar igual aos nossos políticos atuais, sem fazer absolutamente nada, ganhando dinheiro às nossas custas. A prova está aí, com a candidatura de Tiririca para deputado. "Pior não pode ficar", mas poderia ficar bem melhor se todos nós tomássemos a devida iniciativa de querer mudar tudo aquilo que não aguentamos mais passar. Sejamos mais patriotas, dando mais valor e amor ao nosso Brasil e à nós mesmos. Vão às urnas e votem como verdadeiros brasileiros que são e façam com que essa corja vá para o inferno; urnas pra que te quero!

sábado, 14 de agosto de 2010

Hipocrisia social: Não me conformo

Estou simplesmente de mãos atadas: parece que a cada dia que passa, tudo fica mais banal. Posso parecer idoso, velho e desocupado, mas certo estou eu de reclamar que o mundo em que vivemos está ficando uma merda. E digo isso pois ninguém se incomoda mais com nada que acontece até mesmo em frente a sua casa, simplesmente por que tudo já virou tão normal, que nem mesmo acidentes envolvendo ônibus escolares e casos de estupro têm lá tanta importância. A sociedade se tornou hipócrita e fala mal de tudo que pode, sem perceber que é ela mesma que apoia tudo que diz detestar. São cada vez mais crimes acontecendo, pessoas morrendo, pornografia generalizada para conseguir sucesso... E tudo é um tanto quanto animador e fonte de audiência para todos aqueles que querem tirar uma casquinha da fama.
O cúmulo da baixaria, foi a notícia que saiu há poucos dias, sobre a famosa Twitcam, que virou uma bagunça. Antes o que era só para ser uma forma de se comunicar em massa, tornou-se chave de ignição para problemas muito piores, que já nem são mais possíveis de controlar, pois o buraco ficou tão fundo que nenhum ser humano dotado de inteligência quer colocar o pé. Crianças estão perdendo completamente a noção e tirando suas roupas na internet em troca de pessoas assistindo. Só isso, mostram seus corpos para um bando de marmanjos com o tesão à flor da pele; meras meninas iludidas atrás de sucesso passageiro. Não posso dizer que a culpa é dos pais, pode até ser, em parte, por conta do desleixo e da falta de educação que devia ser a base da evolução das pessoas, como sempre foi desde a Roma Antiga. Mas a culpa mesmo é desse sistema medíocre que controla tudo que é veiculado de tal forma que as pessoas se veem controladas também, sem perceber. As pessoas são a notícia, vocês fazem parte dessa notícia. As barbaridades que aparecem pela internet, pelo mundo em si, são geradas pelos próprios meios de integração, que parecem fazer de propósito certas coisas, para gerar polêmica e dinheiro. E fazem sucesso no mundo inteiro, já que todo mundo que questiona, assiste e gosta.
Falta educação, saneamento, ética, faltam valores. E tudo que se vê são peitos e bundas o dia inteiro. Não que eu não goste, é um tanto quanto perfeito, mas não sou só eu quem assiste e essa barbárie que é transmitida o dia inteiro para milhares de crianças que estão perdendo a beleza da infância, por que querem se tornar adultos muito cedo, falando de polêmicas, pessoas famosas e pornografia. O que se espera do futuro são adultos cheios de problemas incapazes de resolver, pois nunca tiveram a oportunidade de aprender as coisas no tempo certo. Tudo caminha para uma calamidade, que me faz pensar até em ter medo de ter filhos; colocar uma criança nesse mundo cheio de coisas doentias, é pedir pra sofrer. Ter que imaginar uma filha de apenas doze anos recebendo cantadas de homens de trinta ou um filho de dez que te pede dinheiro para comprar um cigarro e uma garrafa de cachaça... E o grande problema é que até dentro de casa eles correm riscos, por causa de uma coisa tão fácil de ser acessada. Meu filho vai viver numa bolha, sem internet. Se bem que do jeito que está, a babaquice vai tomar conta até dessa bolha e ele vai ser só mais um adulto sem cérebro.
Pra finalizar com chave de ouro: tudo acontece, vira notícia e fica sendo comentado por dias pelas pessoas. Ainda assim, coisas piores continuam acontecendo e ninguém toma providências. Sabe qual é a solução para tudo isso? Explodir a porra toda e começar de novo. Triste... mas real.

Fiz esse texto vendo tv na casa da minha vó e nem ia postar, mas é madrugada e bateu uma certa vontade. Está meio sem nexo e sem uma organização definida de fatos, mas valeu a revolta. Se gostar, comenta.

Rapidinha da Semana #11



O Twitcam é a forma mais fácil de partilhar a sua webcam com seus colegas (e com outros milhões de desconhecidos). Funciona como uma espécie de chat e já está sendo usada por muitos 'twiteiros' de plantão. E hoje em dia, está sendo usada por menores como fonte de material erótico, onde a menina ou o menino aguardam X visualizações para tirar a roupa ou se tocar. O twitter, além de não se responsabilizar, não se pronunciou e fez pior: criou o LingerieDay, onde as meninas devem trocar suas fotos de exibição por fotos em que estão apenas de calcinha e sutiã.




Esse é a evolução digital que a internet tem a oferecer para os jovens? Promover a pornografia e a banalização dos meios de se adquirir seguidores, fãs e babacas desocupados? Não há muito o que dizer, a não ser um 'PUTA QUE PARIU', bem mandado. Já nem sei mais em que mundo eu vivo...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O paciente do quarto 313

O Seu Jair era um pobre coitado, não tinha onde cair morto e mal conseguia pagar as contas que tinha, com o dinheiro que ganhava da venda de doces na rua. Talvez seja essa a sutil razão para que sua mulher, Dona Nádia, tenha o deixado para morar com um endinheirado dono de um restaurante da comunidade do Morro do Pombo Gordo. Como se não bastasse todo esse martírio, ainda foi encontrado por uma daquelas balas perdidas, enquanto descia do ônibus em frente à praia, onde costumava ficar trabalhando. É impressionante como perdem essas coisinhas por aí, mas enfim...
O Doutor Lauro era um médico conceituadíssimo e trabalhava num hospital particular de Botafogo e por coincidência do destino, encontrara o Seu Jair, estendido na rua, cercado de curiosos. Seu Jair não estava tão mal. Tudo bem, ele havia sido baleado, mas o tiro pegara no braço e apesar da dor, ele ainda podia conversar, só não queria se levantar. Por sorte dele, Dr. Lauro tinha bom coração e quis ajudá-lo. Mesmo sendo contra as normas dos hospitais particulares, ele pediu a carteira de identidade do Seu Jair e o levou para o Hospital Samaritano, onde trabalhava, para tratá-lo devidamente. Logo que chegou, seus superiores disseram que nada podiam fazer, pois quem não tem plano de saúde conveniado com o hospital não pode usar dos serviços, senão todos iriam querer usar e blá blá blá, mas por ser o melhor médico do hospital e provavelmente de todo o bairro de Botafogo, acabaram abrindo uma exceção, mas só quando ele ameaçou demitir-se.
Levaram o Seu Jair para sala de cirurgia, onde conseguiram retirar a bala. Após isso, o colocaram no quarto 313, um dos mais econômicos do hospital, para aqueles planos de saúde mais baratos.
Quando ele acordou, depois de umas 11 horas, não podia acreditar: estava de banho tomado, numa cama fofinha, com uma televisão em cima de uma mesa em frente à sua cama. Quis levantar, mas o braço ainda doía e preferiu ficar sentado.

- Bom dia, Seu Jair! Vim ver se já estava acordado. E aí, está se sentindo melhor?

Era uma enfermeira, que acabara de entrar no quarto. Era magra, bonita e usava um jaleco bem sensual, o suficiente para o Seu Jair ficar doido por ela.

- Onde eu estou? - perguntou ele, sem piscar os olhos para a moça.

- Está no hospital, oras! - respondeu ela. - O senhor levou um tiro na rua e o Dr. Lauro o trouxe para cá, não se lembra? Retiramos a bala e agora vamos cuidar de você até o ferimento sarar. Quando estiver melhor, liberamos o senhor para ir embora, fique tranquilo. Falando nisso, o Dr. Lauro quer falar com o senhor.

- Ah... sim, sim, tudo bem, pode chamar ele pra mim!

- Pode deixar, vou lá chamá-lo... - disse a enfermeira, como quem quisesse consertar o erro de português.

O Dr. Lauro entrou alguns minutos depois, junto com a enfermeira que trazia uma bandeja com um prato de torradas, geleia, biscoitos e um copo de suco. Com um sorriso, ela colocou a bandeja sobre Seu Jair, dizendo "aqui está, senhor, coma tudo!".

- E então, rapaz, como está se sentindo? - perguntou o Dr. Lauro, com a voz calma.

- Hum, está... tudo... bem... quer dizer... ainda dói... um pouquinho... sabe? - ia dizendo Seu Jair, com a boca cheia de torrada. Não conseguia parar de comer, estava morto de fome, provavelmente sem comer direito há dias.

- O senhor teve bastante sorte... - continuou o doutor. - Se fosse mais velho, talvez nem sobrevivesse, pessoas idosas são mais frágeis, mas o corpo de trinta ajudou muito na recuperação e...

- Sim, sim, eu sei, tem como ligar a TV? E eu ainda estou com fome, pode trazer mais torrada?

- Ah... sim, eu... - disse o doutor, transtornado. - Ana Luísa, poderia pegar mais torradas pra ele? Eu ligo a TV, Seu Jair.

Com um largo sorriso e pensando "me dei bem", Seu Jair continuou deitado, comendo torradas e vendo televisão.
Os dias foram passando, viraram semanas e finalmente um mês se passou e ele continuava lá no hospital, fazendo 3 refeições ao dia, tomando banho com ajuda da enfermeira Ana Luísa e vendo televisão. Nunca ficara tão bem assim. Em casa comeria só um pacote de biscoito salgado por dia. Nem banho tomaria, nem televisão veria, a água e a luz haviam sido cortadas por falta de pagamento. Estava vivendo como um sheik árabe e toda vez que lhe perguntavam se sentia-se melhor, fazia caras e bocas, dizendo que ainda sentia dores agudas e que ainda teria que ficar por mais uma ou duas semanas. Quem já não aguentava mais, era a coitada da enfermeira, que tinha que cuidar dele todos os dias. Numa dessas tardes de folga, em que Seu Jair estava cochilando, ela foi ter uma prosa com o doutor:

- Doutor Lauro, preciso falar com o senhor. - disse ela, com uma cara bem enfezada.

- Diga, Ana, diga...

- Eu não aguento mais esse Jair! Ele não faz nada, só fica lá deitado, ainda me chama de gostosa toda vez que tenho que dar banho nele! Ele já está bem e o senhor sabe disso, se o braço dele dói tanto ele não poderia ficar botando a mão na minha cintura sempre que eu vou lá!

- Eu sei, Ana, eu sei, mas não posso simplesmente expulsá-lo daqui. Ele já está sarado há dias, mas não tenho coragem de chegar e dizer que ele precisa ir embora... A não ser que...

- O que? - perguntou a enfermeira, dando um passo para trás. - Nem pense nisso, eu não vou fazer nada com ele!

- Não é nada disso, sua pamonha, relaxe...

Às quatro da tarde, o doutor foi até o quarto para fazer um check-up de rotina. Bateu à porta e entrou:

- Boa tarde, Seu Jair! Como está?

- Ah, dotô, sabe como é, ainda dói um pouco aqui, um pouco ali. Parece que o tiro pegou em vários lugares, sabe?

- Sei, isso parece ser perigoso... Onde o senhor sente dores, exatamente?

- Bom... é... aqui e aqui e... aqui também, ai como dói aqui!

- Nossa... acho que temos um problema com a sua repimboca óssea. Está com tonturas e dores nas plantas dos pés?

- Nossa, muitas! Minhas plantas nunca doeram tanto! ...O que é uma repimboca?

- Isso é mau... quantos dedos o senhor vê aqui? - disse o doutor, fazendo um 'três' com a mão esquerda.

- CINCO!

- Como suspeitava, o senhor está com escabiose trombossal.

- Ah, é? E, e, e, isso é ruim, dotô?

- Ruim? O senhor corre risco de vida, Seu Jair, precisamos fazer um exame proctológico detalhado, para sabermos mais sobre o seu quadro.

- Exame pócrito-o-quê!?

- Proctológico, Seu Jair... é quando a gente...

O Doutor Lauro chegou bem perto de seu ouvido e fez diversos gestos com os dedos. A cara de espanto do Seu Jair aumentava cada vez mais.

- É o que, hômi!? Não, não, de jeito nenhum! - disse o Seu Jair, cobrindo a bunda com as mãos. - Tá doido, dotô!? Negativo, isso aqui é particular, amado e intacto até minha morte!

- Se quiser sobreviver é bom que aceite. Não vai doer, o senhor vai estar dormindo na hora.

- Dormindo!? Ainda vão querer me pegar desprevinido? Olha só, o senhor vê se para com essa coisa de passar o dedo nos outros, tá ouvindo?

- Mas, Seu Jair, é importante qu...

E sem falar mais nada, Seu Jair se levantou da cama e saiu correndo pelos corredores do hospital. Um dos enfermeiros que passava pelo corredor tentou segurá-lo, mas ele se desvencilhou e continou correndo. O jovem enfermeiro entrou no quarto 313 bufando e falou:

- Doutor Lauro, o paciente tá fugindo!

- Deixa ele, meu amigo. - disse o doutor, tranquilamente com uma risada. - Essa é boa, sempre funciona lá na Baixada!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Dia maluco dos pais

Dia dos pais é sempre o mesmo. Na verdade é tão igual quanto ao dia das mães ou qualquer outra comemoração parecida. A família vai almoçar fora ou na casa da avó, aquelas risadas de sempre, a mesa cheia de comida, mas mesmo assim você sempre come pouco ou porque não gosta de quase nada ou porque todo mundo se serviu na sua frente. E o tio é sempre o primeiro a ficar bêbado. Mas uma coisa completamente diferente desse habitual aconteceu nesse dia dos pais fatídico. Primeiro porque os pais, Alex e Bete, meus padrinhos, são separados faz mais de cinco anos e segundo porque essa família não é nada convencional. Brenda, filha do casal e minha prima e que, diga-se de passagem, não tem nada a ver com isso, é a nossa protagonista. Me lembro como se fosse ontem e o engraçado é que foi hoje...
Como todo dia dos pais, lá fomos nós almoçar na casa dos avós. Fomos recepcionados por Brenda que já estava visivelmente irritada, pois iria almoçar com seu pai e ele ainda não havia chegado. E olha que já chegamos relativamente tarde, mas vá... Como em qualquer lugar, o almoço não estava pronto. As mulheres ficaram de papo na cozinha e na sala, enquanto eu e meu avô, Seu Almir, ficamos no terraço. O vovô é um ser humano um tanto quanto 'exótico'. Adora uma bagunça, gosta de desejar feliz natal durante o ano inteiro, come pimenta como se fosse biscoito e ri de qualquer coisa. E dessa vez ele fez questão de me mostrar sua plantação de rabanetes. Eu disse, ele é um sujeito muito louco, mas é uma pessoa boníssima. Também me mostrou uma peça de cristal que estava restaurando. Ele é vidreiro, é o trabalho dele. Explico-lhes o que é vidreiro, por favor não confundam com vidraceiro. Vidraceiro é aquele sujeito que faz vidros para sua janela. Vidreiro é a pessoa que restaura peças de cristal. Só existem somente uns cinco pelo Brasil inteiro e confesso que ele é o único que conheço e se não fosse meu avô, provavelmente nem o conheceria.
Dito tudo isso, descemos para o almoço e fiquei um pouco chateado pela minha prima; ela ainda estava lá.

- Cadê teu pai?

- Ai, nem me fala nisso! - começou ela; como fala, Jesus. - Acontece que meu celular está descarregado!

- Mas o que que tem isso?

- Esse é o problema, não consigo falar com ele!

- Tem seis pessoas aqui dentro e você não pediu o celular de ninguém?

- Não, eu pedi o da minha mãe, mandei mensagem pra ele ontem pedindo que me avisasse quando estivesse saindo de casa, mas ele não me ligou, nem nada, simplesmente apareceu aqui mais cedo! Só que, além d'eu estar dormindo, o telefone daqui foi cortado e o interfone da rua está escangalhado! Ele não conseguiu falar comigo de jeito nenhum...

- Ué, mas e o celular da sua mãe?

- Ele não liga pra ela, os dois são orgulhosos.

Pensei que 'teimosos' fosse a melhor palavra, mas preferi não dizer nada, apenas continuei ouvindo.

- Agora não consigo falar com ele de jeito nenhum, vou acabar indo de táxi e encontrar com ele na Tijuca!

Resolvi então ligar para o meu padrinho e saber onde ele estava. Magicamente ele me atendeu após dois "tu-tu" do telefone:

- Fala, meu padrinho! Onde 'cê' tá?

- E aí, meu afilhado? Estou aqui pela Tijuca, falei até com sua mãe hoje cedo pra vocês virem almoçar comigo, mas ela me disse que já ia almoçar aí com o Seu Almir, né?

- Pois é, fica pra próxima... Vem cá, a Brenda tá aqui do meu lado querendo saber se você vem buscá-la e...

- Ah, ela não atende a porcaria do celular, estive aí mais cedo e nada! O telefone parece que está com defeito e o interfone eu toquei umas 8 vezes e nada também!

- Bom, o interfone tá quebrado mesmo... Mas por que você não ligou pra minha madrinha então?

- Ah é que, bom, não vamos entrar em detalhes sobre essas coisas inúteis, não é? Avisa pra sua prima pra ela me ligar, já estou quase saindo de casa com a vó dela.

E após nos despedirmos, desliguei e fui explicar toda a conversa para a Brenda. "Meu pai é um cabeça-dura" foi a resposta que ela deu e que eu esperava ouvir. Aconselhei que ligasse para ele antes de sair para que combinassem melhor, mas ela não me ouviu; estava com a tromba arrastando no chão, minha prima é muito estressada. Despediu-se brevemente de todos e saiu.
Enquanto esperávamos notícias dela, ficamos almoçando e ouvindo meu avô falar sobre seus rabanetes, o molho que havia feito com cebola e vinho e que como queria que eu fosse vascaíno.

- Tá bom, tá bom, Almir... - disse minha vó, Wanda, sorrindo irônicamente. - Quando você vai tirar aquelas bandeiras do brasil da nossa porta?

- Wandéca, isso é uma fronta! Aquilo é uma marca de nosso país, representa nosso pavilhão e você está mandando eu tirar?

- Mas a Copa já passou, Almir, tira logo aquilo, cansei de abaixar a cabeça quando quero entrar em casa!

- Você está reclamando sem motivos, elas nem ficam tão baixas assim. Além disso, não preciso ser patriota só na época da Copa.

- Você é preguiçoso, isso sim... Mas seria bem melhor se fosse uma bandeira do Flamengo!

E depois de longas risadas vendo a discussão dos dois, o telefone de minha madrinha tocou; era Brenda.

- Oi, filha! ... Que foi, tá chorando por quê? ... Ah, é? Me passa o arroz, papAi, filh... Então vai lá onde vocês iam almoçar, ele deve ter ido pr... Ah, então vem pra casa... Tá bom, beijo... Tchau. Brenda choraando que Deus me livre. Disse que o pai não tá em casa e que tá voltando pra cá.

Mais uma vez minha cabeça pensando coisas que não quer dizer. "Falei pra ligar pra ele, não ligou..." fiquei pensando com meus botões, mas apenas continuei comendo minhas batatas, sem dizer nada.

Logo que chegou, Brenda não disse nada, apenas subiu para o quarto batendo os pés. Minha madrinha, como boa mãe que é, chamou-lhe para descer. Desceu do mesmo jeito que subiu, os pés batendo nos degraus como se fossem dois sacos de cimento. Ao fim da escada, ela abraçou a mãe e com um sonoro "ele é ri-dí-cu-lo!", começou a chorar. Não fiz nada, apenas esperei que minha madrinha saísse. Quando elas se soltaram e minha prima subiu novamente, fui conversar com ela. Tivemos uma prosa rápida e eu desci logo depois.
Passado algum tempo, mais precisamente após o término do jogo do Flamengo, comecei com o charme de uma criança de 8 anos para irmos embora. Mamãe conseguiu enrolar por mais uma hora, alegando que precisava terminar o café e tirei a conclusão que uma xícara de café pode ser uma espécie de tendência ao tédio. Mas enfim nos despedimos e estávamos prontos pra sair. E quando íamos saindo, meu padrinho apareceu. Seu semblante era indecifrável, pois estava sorridente e educado, falando comigo e minha mãe, mas ao mesmo tempo via-se uma certa fúria em seus olhos.
E então, falamos rapidamente com ele e saímos. Pegamos o carro e viemos para casa, eu e minha mãe. O resto da história? Bem o resto, fica a critério de vocês imaginar, se eles brigaram absurdamente ou se simplesmente abraçaram-se e conversaram como seres civilizados. Eu saí antes de acabar, então não sei. Podem ficar com raiva e com vontade de me agredir, mas garanto que a história prendeu vocês até o final e que agora estão pensando o que aconteceu de verdade. Boa sorte.

domingo, 8 de agosto de 2010

Obrigado, pai.



Eu não vim aqui para forçar as pessoas a terem pena de mim, muito menos para imaginar que estou me sentindo mal. O único motivo pelo qual estou aqui é que quero prestar por meio de palavras minha homenagem, não só ao meu, mas a todos os pais.

Eu tentei começar esse texto de diversas formas, mas nenhum deles foi de meu agrado. Alguns eram até bons, mas simplismente rabisquei, pois nenhum deles mostrava de verdade a gratidão e o amor que eu sinto.

Não faço a mínima ideia ainda do que é ser pai. Juro, nem imagino como seja. Pra mim, essa sensação de "sou pai" só começa mesmo quando sua mulher diz que está grávida e o homem, antes apenas um ser comum, exala no ar aquele cheiro doce de prazer. Nunca presenciei essa cena também, mas nos filmes isso sempre acontece e dá pra se ter uma noção.

A princípio, trata-se de uma missão quase impossível; ser pai é algo complicado, mais ainda pelo fato dos homens não serem lá tão carinhosos como as mulheres que se tornam mães. O homem tem aquele carinho bruto, posso assim dizer, e sabe amar de um jeito peculiar. Junte-se isso ao desespero que é pensar que tem que educar e alimentar alguém, ser responsável por outra vida... Mas ainda assim o homem não desiste, foca seus pensamentos apenas no fato de ser pai. Tenta dar de todos os jeitos o mundo para o filho toda vez que ele chora. Vive tentando protegê-lo dizendo que fazia isso no passado e sempre chega com surpresas em casa, só pra agradar.

O carinho, como já disse, é incomum. Um amor baseado nas conversas, nos conselhos; de vez em quando até em umas lutas de sofá. Apesar de não conseguir demonstrar muito bem, o pai está sempre ali, tentando dar apoio e fazendo de tudo para que o filho não se envolva em problemas. Mais do que isso, ele dá o braço a torcer, mesmo que sua cria esteja fazendo o que não deve. É chamado na escola por causa de brigas, notas baixas e mesmo assim ele afirma que seu filho nunca faria isso, pois a educação que recebe é exemplar.

Pai, pra mim, é isso. Não conheci mais nenhum tão bem quanto conheci o meu e minha ideia de pai é somente essa que vos escrevo. Um pai, pra mim, é aquele que gosta de levar o filho ao futebol, que quer sempre conversar pra entender melhor o que se passa na cabeça dele. Não pára de falar sobre seu passado e a melhor maneira que tem de explicar a vida é usando exemplos de sua juventude vivida. Também gosta de receber conselhos, de se sentir amado pelo filho e por mais durão que seja, acaba amolecendo e retribuindo tudo com sorrisos e monólogos, geralmente terminados com a frase "sinto muito orgulho de você". Quando as coisas vão mal, seja por aquele relacionamento que não deu certo ou por aquele jogo de futebol que seu time perdeu, não importa: tudo acaba com um sorvete ou um lanche na lanchonete da outra rua.

Lamento, mas vou ter que parar por aqui. Sei que pai é muito mais que isso, mas não sei dizer. A vida criminosa tirou o meu de mim muito cedo e nem pude saber a sensação de me formar, de entrar na faculdade, de casar e ter meu próprio filho, tendo meu velho ao meu lado. Pode parecer triste, e é na verdade, mas me sinto bem. O pouco tempo que tive foi mais que o suficiente para entender que pai é algo insubstituível e que a pessoa que mais me orgulho na vida é ele. Podem aparecer inúmeras pessoas, inúmeros problemas e divergências de opinião, mas sempre vai prevalecer aquilo tudo que meu pai um dia me disse. "Ser feliz é o que importa. Não importa a vida que se leve, os problemas que se têm, pois quando se sorri para tudo, nada nos destrói. Mendigo também sorri e não tem nada, por que você não pode sorrir?" Isso é ser pai.

Queria ter o prazer de te abraçar mais uma vez e te dizer com todo amor do mundo que eu te amo e que mesmo distante, até hoje você me faz crescer e sou o que sou graças ao que você ensinou. Não é a toa que até o jeito de me barbear, de sentar, dormir, falar, gesticular, andar, dirigir, tacar o pano na pia, enfim... Sou todo igual a você e sinto um orgulho indescritível de sentir e saber disso. Quero sorrir toda vez que me dizem que sou a sua cara, quero lembrar de você todos os dias e pensar no que você falaria a respeito de tudo. Quero sempre carregar essa doce lembrança do que você foi e principalmente: Quero ser igual a você no futuro e ser um pai tão bom quanto você foi.

Se isso não resume e não fala exatamente do que é ser um pai, então não sei mais o que dizer. Só posso dar parabéns e obrigado. Homenagem feita, me despeço.

sábado, 7 de agosto de 2010

O mercado

Tem certas coisas na vida que eu detesto. E eu não estou falando de falsidade, gente insuportável, nem nada de psicológico. Estou falando de coisas mais palpáveis, que temos que suportar no dia-a-dia. Uma delas é arrumar a casa, lavar a louça. Tudo bem que algumas pessoas tem 'toque' por limpeza e fazem dessas coisas extremamente perturbadoras as mais prazerosas em suas limitadas vidas. Minha mãe é uma delas, não consegue ver nada fora do lugar. Uma vez, juro, ela já ia andando para o quarto quando, subitamente, parou no corredor e voltou até a sala só para colocar o pano, que embelezava a mesa, dois centímetros para o lado. Coisas de gente fascinada, vai entender.
Mas o que me irrita mesmo é o maldito mercado. É só as palavras "amanhã precisamos fazer compras" pairarem no ar para que eu mude completamente o meu semblante agradável, mas não há jeito. Se há algo pior que ir ao mercado, é a fome proporcionada pela falta de visitas à ele. Então vamos, fazer o que.
A primeira coisa a fazer quando se chega num mercado é ficar atento a todo tipo de armadilha do ambiente. Desempacotadores passando munidos de suas caixas de papelão e aquela espécie de carro de rolimã gigante, para carregar as caixas quando estão cheias. Passado por esse assombro, é a hora de escolher o carrinho de compras. Cuidado! É preciso escolher muito bem, alguns deles podem vir com aquele defeito na roda, que faz com que você use uma força sobrenatural para mantê-lo em linha reta. Geralmente é difícil e você acaba acertando as prateleiras, quiçá outras pessoas que transitam. É por isso que digo que mercado também é perigoso, devia haver sinalização de via, como nas ruas. E claro, manter locais de acesso exclusivo à idosos e crianças pequenas, eles são bem traiçoeiros. Enquanto os senhores de idade abandonam seus carrinhos em espaços que só um pode passar, o que requer extrema habilidade de manobra, as crianças se sentem verdadeiros pilotos e correm com seus carrinhos pelo mercado, que diga-se de passagem são sempre os melhores em que a rodinha não trava, e têm certa vontade de atropelar alguém para rir e pedir desculpa.
Outro ponto importante que preciso alertá-los. Nunca discuta sobre o que comprar, principalmente quando for a sua mãe. O pai geralmente não liga, mas a mãe insiste em algumas coisas que, sabe-se lá Deus, daonde vem.

- Levo margarina? - pergunta a mãe despretensiosamente.

- Tanto faz, não vou comer.

- Ah vá, você sempre come margarina.

- Mãe, faz dez anos que eu não como margarina...

- Não exagera, você só usa isso pra passar no pão!

- Mãe, eu não como mais margarina, você cismou com isso.

- Como não? ontem mesmo você comeu!

- Ontem eu nem estava em casa, mamãe!

- Então tá legal, depois você fica reclamando que não tem, porque você tem mania de falar as coisas e a...

- Tá, tá bom mãe, leva, leva...

Tenho que avisar que isso pode se repetir por muito tempo, principalmente quando são as compras de mês. E eu nem vou falar da demora quando se fica escolhendo qual é o mais barato e quando a lata de milho não tem preço e você precisa ver quanto custa, mas a maquininha não funciona. Ou quando se é preciso pesar a cenoura, a batata e o tomate. Tome nota que quero parabenizar ao gênio que criou o caixa com balança, para pouparmo-nos tempo.
Mas de todo modo, o tempo vai passando e ao final das compras você já está se familiarizando com o ambiente; já está até mais sorridente por ver que só falta a pomarola e o sorvete na lista. Sorvete por último, não esqueça! Tudo parece bem, agora é só chegar no caixa, pagar a dolorida e sair. Doce ilusão. Você não está nem a um passo de se ver livre, nem a dois, nem a três. Pois mesmo com vinte caixas à disposição, só existem três atendentes: a Mariana, a Suzete e o negão, funcionário do mês. O que se pode concluir? Exato, uma fila de 16 pessoas, na qual até aquela velhinha que só tem um saco de pão e um pacote de café está presente, porque não sabe da existência do caixa rápido para dez volumes. O tempo voa e você continua lá, parece que a fila não anda e quando anda, para justamente na mulher que não consegue lembrar da senha do cartão. Chame-me de machista, mas é sempre uma mulher.
Até que finalmente chega sua vez. A felicidade dura bem pouco, pois se você for um sujeito educado e aquele cara barrigudinho pedir pra passar, porque só tem um engradado de cerveja nas mãos para pagar, você vai deixar ele ir na frente. O nome 'engradado' ainda faz a sua mãe lembrar que esqueceu os refrigerantes e ela te abandona na fila para ir buscar. A raiva já ultrapassa os limites aceitáveis e você não vê a hora de chegar em casa para abrir aquele pacote de biscoito; ao menos o mercado tem das suas vantagens.
Graças à Deus as compras passaram, o cartão de sua mãe também e você está livre. Quase. Os sacos não se carregam sozinhos e quando não se tem carro, você tem que carregar tudo sozinho, visto que sua mãe só consegue carregar o pão, o papel higiênico e a maldita margarina que ela fez questão de comprar.
No mais, é só se preocupar com a fragilidade dos sacos plásticos, a última e uma das mais mortais armadilhas. Tirando-se isso você conseguiu vencer a batalha de se ir ao supermercado. Mantenha-se ligado, no entanto, ainda falta chegar em casa e guardar as compras.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Bolsa-Surpresa

Sérgio já estava indo para casa. Era bem tarde e já havia rodado quase o dia inteiro com seu táxi pelas ruas da zona sul. Tinha acabado de deixar um cliente amissíssimo na Nossa Senhora de Copacabana e já pegava a orla para voltar para a querida zona norte, onde morava. Queria logo chegar em casa, tomar um bom banho quente, ficar um pouco com seu filho que nascera há poucos meses e depois deitar ao lado de sua mulher para dormir. O problema é que nem sempre o trânsito ajuda e apesar de quase não haver carros por já ser mais de dez da noite, haviam radares espalhados em todos os semáforos da avenida. Mas mesmo com a demora, Sérgio não era o tipo de pessoa que se irritava facilmente, e enquanto estava parado esperando o sinal abrir, aproveitava para ver a praia e as pessoas que transitavam.
E todo bom carioca sabe que por lá tem de tudo, inclusive aquelas 'mulheres' cheias de surpresinhas e muito mais coisas exóticas. Vai entender, são coisas de Rio de Janeiro.
E em um dos muitos sinais em que Sérgio teve que parar, um transsexual encostou no carro, fazendo gestos de alguém que quer conversar. Sérgio muito educado e, acima de tudo, heterossexual, recuso apenas negando com o dedo. Mas a 'moça' insistia e pediu para que baixasse o vidro. Já com o sinal verde e com extrema paciência, Sérgio atendeu ao pedido.

- Fala, meu filho. - disse ele, sereno.

- FILHA, meu amado! Mouço, por favoar, eu já fiz sinal pra tantos, mas nenhum quis parar pra euzinha... Eu só quero ir até o final da rua, eu pago a corrida! - dizia a quase moça, segurando a barra da saia de látex e batendo os pés.

E Sérgio, pessoa humilde, bondosa, típico do bom nordestino que era, aceitou e deixou-a entrar. Ela agradeceu com um sonoro "Aii!" e entrou.
Pelo caminho, se apresentara como Sílvia, seu Nome de Guerra e não parava de repetir o quanto ele era um bom homem e como as pessoas eram preconceituosas; tudo isso com uma voz bem afetada. Ao final da avenida, Sérgio encostou seu velho táxi dizendo "vou te deixar aqui, tá certo?"

- Aqui está ó-ti-mo, abençoado! - disse a mocinha.

- Beleza, deu seis e cinquenta, meu bem - disse ele, tentando ser simpático.

- Ai, péra, deixa eu pegar aqui na bolsa...

E subitamente ela tirou uma navalha da bolsa e a colocou no pescoço de Sérgio.

- Passa o celular, coroa. - Disse a moça, agora com um tom bem mais masculino, o natural que Deus havia lhe dado.

- Que isso, meu filho... - disse Sérgio, bem assustado. - Vamos conversar, eu tenho família, não tenho como pagar outro celular. Caramba, te trouxe aqui, como você pediu e você vai fazer isso comigo?

- Eu não perguntei nada, irmão, eu pedi o celular! - disse ele ou ela, já nem sei mais, interrompendo-o.

Vendo que não tinha jeito, entregou-lhe o celular com cara de desamparado.

- O dinheiro também.

- Ah, companheiro, aí não dá, você quer acabar com o leite da minha criança?

- O dinheiro, amado, o dinheiro! Anda! - disse o irritado traveco, agora apertando a navalha contra o pescoço de Sérgio.

Felizmente, Sérgio era um homem astuto e separava sempre o dinheiro todo que ganhava dentro de suas meias. Pegou uma nota de vinte e uma de dois, que acabara de ganhar do seu último cliente, que não tivera tempo ainda de guardar, e entregou:

- É só isso. Sabe como é, precaução, deposito tudo no banco...

- Tá, tá, tá legal! - disse o traveco, pegando rapidamente as notas e descendo do táxi.

Logo que desceu, seu jeito de moça voltou completamente e com um aceno caloroso, ela foi andando. Sérgio teve uma vontade imensa de seguí-la e de atropelar-lhe com seu Santana, mas preferiu ir para casa logo de uma vez, para evitar mais problemas. "Tem cento e oitenta e cinco reais na sua meia, esquece isso", pensou ele, então saiu.
Já chegando em Vila Isabel, por volta das onze, Sérgio estava doido para chegar em casa. Pela hora, já nem ia mais ficar com o filho, ia tomar um banho e dormir. E passando pela universidade, viu uma velhinha fazendo sinal. Mesmo cansado, com o corpo doendo de ficar sentado naquele banco de couro quente o dia todo, ele não podia deixar uma velha senhora sozinha aquelha hora e resolveu parar. A velhinha abriu a porta e foi logo tagarelando:

- Ai, ai, meu queridinho, isso vai demorar um pouco. Essa dor nos joelhos mata a gente. Posso me apoiar em você? Só pra levantar as pernas. Isso... ai, muito obrigado, moço, a outra agora... Ui, foi! Vamos ali, para a Miguel Barbosa, tá?

Para Sérgio não ia ser tão ruim, até porque não iria sair de sua rota e ele foi. A senhora foi bem quieta, apenas reclamando das pernas e dos braços que doíam por demais. Logo que chegaram, ela disse:

- Você vai ter que descer pra me ajudar a sair do carro. É um sufoco isso, a gente vai ficando velho e num pode mais fazer nada sozinho!

Muito calmo, Sérgio desligou o carro, tirou a chave da ignição e saiu para ajudá-la. Com muita força conseguiu suspendê-la e ela ficou de pé. E a velhinha muito contente agradeceu e abriu a bolsa. Quando Sérgio viu, não podia acreditar. Chegara a conclusão que bolsa de mulher realmente tem de tudo. A senhora sacara uma pistola cromada, daquelas de colecionador.

- Passa a chave do táxi, bundão. E é bom que seja rápido!

domingo, 1 de agosto de 2010

Quem atirou a primeira pedra, o povo ou a polícia?



Podemos imaginar transeuntes e policiais como duas moléculas diferentes colocadas uma diante da outra. Elas se atraem, provocam aquele mágico encontro de energias e geram o atrito. E quem começou?
Há muito tempo atrás, as antigas manifestações estudantis eram a justificativa básica para tanto rigor das autoridades diante das mesmas. Era apenas 'repressão à comportamentos inaceitáveis', diziam eles. Pelo menos as armas não eram soluções comuns ainda naquela época. Hoje em dia tudo mudou, meu caro. Hoje, tiro pro alto espalha confusão e tiro na cabeça elimina provas de crime. Mas está além da confusão, dos tiros... O ponto chave aqui, é o comportamento da polícia para com as pessoas, que tem sido uma completa barbárie. Grosseiros, violentos e incompetentes foram os termos mais usados pelos pedestres que entrevistei. 'Corruptos' também, mas este não tem a ver com o texto que vos escrevo. E tudo bem que as pessoas estão sujeitas desde que nasceram a reações de natureza violenta. Se segurarmos os braços e as pernas de um bebê, ele se debaterá, manifestando através do choro a sua cólera. Mas ainda assim o comportamento policial não deixa de ser inaceitável.
A prova está nas ruas, com trabalhadores comuns que são parados e espancados porque estão desarrumados e sujos. Os cavaleiros dos estádios, que jogam seus cavalos em cima dos torcedores, juntamente com xingamentos e cacetadas. Isso tudo é um prato cheio para protestos que de nada adiantam, uma vez que o sistema não toma providências.
Mas o triste mesmo é que há quem diga que isso tudo é extremamente normal no trabalho de um policial! Claro, meu senhor, ele ainda não lhe tirou à força de seu carro e arreganhou suas pernas em público dizendo que você estava fazendo merda, muito menos bateu no seu filho quando ele foi comprar o ingresso do jogo. Mal sabe você que, por mais pacíficos que sejam seus meios de comunicação, também não conseguirá o respeito que merece dos fardados. E afinal, quem está com a razão, já que para muitos é apenas um homem fazendo o seu trabalho? Experimente bater num policial...


Nota: em virtude dos comentários que recebi tanto no blog, como no Messenger, quero deixar claro de uma vez que os termos 'polícia', 'policial' e 'fardados', não se referem ao corpo inteiro de policiais, mas sim a um grupo que denigre a imagem de todos eles. Isso é uma crônica crítica, é opinião. Quando um policial me tratar com respeito, pode ter certeza de que vou postar uma crônica crítica falando bem deste policial e generalizarei chamando-o de 'fardados' também, do mesmo jeito. Peço desculpas aos que se sentiram ofendidos, não foi a intenção, mas ainda assim peço que olhem nas ruas e vejam se esse texto não tem ao menos um pingo de verdade.

Dilma Roussef ou José Serra? Maldita escolha de Sofia!

Antes de começar a escrever, quero, primeiramente, explicar o título. A 'escolha de Sofia', como muitos devem saber, é a história de uma mulher judia nos campos de concentração nazista. A mulher, mãe de duas crianças, é forçada por um soldado alemão a escolher entre o filho e a filha - um será executado e o outro será poupado. Se ela se recusasse a escolher, os dois seriam mortos. Ela escolheu então o menino, que por ser mais forte, tinha mais chances de sobreviver. Porém ela nunca mais recebera notícias dele. 'Escolha de Sofia', então, tornou-se sinônimo de decisões quase impossíveis de serem tomadas e entre duas opções ruins. Agora, pois bem, vejamos... Dilma ou Serra? Decididamente, essas são as duas 'potências' (leia-se opções) para as eleições presidenciais. O problema é... em quem votar?
Como podemos ver, a realidade brasileira oferece um monopólio de esquerda na política nacional. PT e PSDB dominam as cadeiras e pode-se dizer que são até bem parecidos, não fosse a tamanha cara de pau do PT em conquistar as coisas de qualquer maneira usando do poder absoluto e se juntando a ditadores malucos. O PSDB ao menos é mais na dele, está mais agarrado a ética social. Mas estamos falando de algo mais, vamos direto na ferida. Pensemos na realidade brasileira tendo Dilma Roussef e José Serra como candidatos.
Dilma não precisa apresentações, é autoritária e extremamente incoerente, seguindo em anexo seu passado vergonhoso, com assaltos, tentativas de matar o presidente dos Estados Unidos da época... Sim, Dilma era uma jovem comunista completamente neurótica. E o pior é que sente orgulho disso e não esconde de ninguém que era uma terrorista maluca na juventude. E eu lhes pergunto: como anular um voto, sabendo que esta senhora louca pode assumir o poder?
É por isso que digo que escolher entre Dilma e Serra é como uma escolha de Sofia, é impossível tomar uma boa decisão tendo estas opções. Anular o voto nem se cogita, cada voto é uma preciosidade que pode livrar-nos de todo o mal. Embora é como ter que escolher entre um tiro na mão ou um tiro no pé.
E falando em tiro, Serra é um tiro no escuro, não se sabe muito bem a caixinha de Pandora que ele carrega, mas o meu voto é, acima de tudo, anti-PT. Meu voto não é para o Serra, mas sim contra o PT, que fique claro.

Sei que de nada vai adiantar tudo isso, não até tirarmos toda aquela corja que está no poder. Uma andorinha só não faz verão, assim como um político honesto só não faz milagre econômico. Muito mais do que um presidente honesto, precisamos tirar todos aqueles petistas que tomaram conta de Brasília e estão acabando com isso que chamamos de país. E para os liberais de plantão, peço que, por favor, não anulem seus votos; essa será a única chance de salvar o pouco que nos resta. E aos demais, quero que parem e reflitam se realmente vale a pena continuar a gestão petista do governo Lula ou se é melhor trocar pelos tucanos que, ao menos, estabilizaram a economia do Estado de São Paulo. O poder é de vocês.