quarta-feira, 28 de abril de 2010

O ônibus errado





Num ponto de ônibus na Marechal Rondom, Flávio faz sinal para o 457. O coletivo para e ele sobe. Já em movimento, ele pergunta ao cobrador:

- Esse aqui é o que passa pela Igreja de São Francisco Xavier, certo?

- Não, responde o cobrador.

- Sério? Mas ele num segue ali pelo Colégio Militar?

- Não, não, ele vira antes...

- Ah é? Vira aonde?

- Ali no Maracanã, sabe? No rio, como quem vai pra CEFET...

- Ah! Pra Praça da Bandeira, né?

- Isso, isso, ele passa pela praça e vai direto.

- Sei... Mas ele não para nem perto da igreja?

- Olha, mais ou menos, sei te dizer ao certo não. Saltando ali na virada, o senhor vai andar bastante.

- É muito chão pra lá?

- Um pouco, uns 15 minutos andando.

- Ah, assim vou me atrasar! Não tem nenhum ônibus que eu possa pegar pra lá?

- Tem, tem, é até melhor! Saltando mais ali na frente, logo que ele entrar na São Francisco Xavier, sabe? Um pouco depois da UERJ... Dali tem o 638, o 623.

- Ah, beleza! Teria como me deixar no próximo ponto então?

- Tem sim, senhor. Aí, Rogério, vai descer!

O motorista para no ponto e Flávio salta. E sem pagar um tostão furado, ele chega ao seu trabalho, no começo da SFX. E, veja você, ele repete isso todos os dias...

Carta ao desabafo

Eu estaria sendo um ser repugnante (levei um bom tempo pra pensar em um termo conveniente) se admitisse pra mim mesmo que tudo está bem.
Ainda que pra mim, o convívio entre todos estivesse veemente normal, os 'todos' conspiravam por um Eu menos extravagante. Por vezes, muitas até, achei que nada podia ser tão podre que pudesse estragar tudo que estava ali, guardadinho. Guardado mesmo, tão la no canto do baú que ninguém foi capaz de procurar pra descobrir porque estava ali.
Tentei, tentei mesmo, juro, ser alguém que todos pudessem gostar e percebi que ainda tentando ser verdadeiro, uma meia dúzia de três ou quatro nao está satisfeita. E eu me pergunto: por que? Tudo aconteceu em dez minutos; um mar de opiniões veio à tona e eu me senti, repito, repugnante. Talvez o mais distraído do mundo. Por achar que tudo estava bem, quando estava errado. Estou triste, não está legal. E espero de coração aberto que tudo possa ser esclarecido, ainda que demore. Mas saibam que minha felicidade só estará completa depois que todos tenham ouvido e aceito: perdão. Por tudo que fiz e deixei de fazer ou por tudo que PARECEU que eu faria ou pensava.
Fica a critério de cada um a resposta final, e não culparei quem disser que não. Perdão.

Aos amigos Caio, Guilherme, Renan e Gustavo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Viva la vida!

O que é a vida? Possamos tratá-la como um rio, que está sempre ali, igual superficialmente, mas nunca é o mesmo; sempre mudando suas águas. A vida nada mais é o que você quer que ela seja. Muda só se quiser, pode até sempre parecer igual, ainda que não. E quais os melhores caminhos para determinar o que pode ser a sua vida?
Reinventar-se, vivendo sempre de um modo capaz de suportar todas as mudanças que lhe são sujeitadas. Expressar-se, mostrando a que veio, expondo as ideias e nunca, nunca deixar de ter cordas para se segurar. Metáfora, claro, cordas são os amigos, os pilares da vida, como diria Tony Gonçalves.
Falsidade? Longe disso. Viva sempre, mas nunca abra mão do que é e não sobreponha suas ideias, fazendo com que todos lhe chamem daquilo que nunca foi. E por mais conjunta que a contradição possa parecer, esteja de conciência limpa de que tudo não passa de um mal entendido, e não de um mal resolvido.
É, amigo, essa é a vida. Sempre cheia de surpresinhas. Mas quem não gosta de surpresas? Por piores que sejam, um dia servirão pra alguma coisa. Mas que não faltem reinventações do que se é viver. Francamente, já está tudo muito manjado e sem graça, todos querem mesmo é sujeitar a vida dos outros ao estereótipo. Tocante, verdadeiro, desnecessário. Seja a vida o começo bom e o final bom, nunca o igual e egoísta. E cá entre nós... Se a ti nada falta, parabéns, sua vida é tão cliché e previsível quanto uma novela.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O mendigo que lia livros

Bastou uma olhadela para Ivo perceber que aquele mendigo era diferente. Sentado ao pé da calçada, do outro lado da rua... Lendo um livro.
Tinha que ir até lá, não era todo dia, aliás nunca, que se via um mendigo leitor.
Atravessou a rua e já foi tirando do bolso umas duas ou três notas amassadas de dois reais. Quando se aproximou, conseguiu ler o título "Contos Shakespearianos"; era fascinante, um mendigo leitor de Shakespeare! Tratou de colocar as notas no chapéu velho ao seu lado, de boca aberta, com muitas moedas e olhou para o homem.
O velho, com os cabelos ligeiramente embaraçados e a barba por fazer, nem lhe dera atenção; continuou lendo e sequer olhou, nem para o chapéu, nem para ele.

- Ei! - chamou Ivo. - Não vai agradecer?

O mendigo olhou-o e, muito sutilmente, disse:

- Ah, sim... Obrigado, senhor.

'Obrigado?', pensou Ivo. Cadê o famoso "Deus lhe abençoe", "Deus lhe pague"...? Cadê o olhar de gratidão e súplica?

- Só um obrigado? - perguntou Ivo em tom descontente.

O mendigo abaixou as mãos e apoiou o livro nas coxas. Fazendo cara de náusea, ele rebateu:

- E você queria o quê? Um 'obrigado' não é o suficiente? Quer se sentir superior por me ajudar ou quer que eu agradeça em francês? Merci... Mas que ideia...

- Você fala francês?! Que tipo de mendigo é você?

- Da espécie Mendigus Literarius, já ouviu falar?

- N-não...

- Pois bem, existe e faço parte dela. Agora se me der licença, estou no meio de uma leitura. Quero acabar 'Hamlet', se possível, ainda hoje. Pode pegar seu dinheiro de volta, se quiser, mas não estou sendo ingrato.

- Não, pode ficar. Mas como, quer dizer, quem lhe ensinou a ler e falar assim?

- Ai, meu Jesus, mais um... Um mendigo não pode saber ler e conversar? Não é só porque moro na rua que eu tenha que ser burro. Tem um montão de gente burra com casa própria por aí.

- Não foi isso que quis dizer... Sim, você é inteligente! Podia até arrumar um emprego, se quisesse!

- E eu não quero, vivo perfeitamente bem assim.

- Bem? Você mora na rua, como isso pode ser bom?

- Todo mundo acha isso, mas morar na rua tem suas vantagens. Eu não pago contas... Não dou satisfação à ninguém, muito menos tenho vizinhos me incomodando.

- Tá, tá, mas e pra comer, dormir, tomar banho...?

- Estou fedendo? Tomo banho todos os dias naquela loja ali ó. Em troca de banho eu arrumo o estoque. Faço duas refeições diárias com os trocados que ganho, às vezes até três, quando pessoas como você se impressionam sei-lá-com-o-quê. Posso fazer tudo igual. A diferença, é que eu tenho mais liberdade do que problemas pra resolver.

- Entendo. E pra dormir?

- Ora, amigo, a cidade é minha cama! Durmo no chão, ao ar livre... Nem problema de coluna eu tenho. Diferente de vocês, 'moradores', que sofrem de dores e doenças, mesmo com tanta tecnologia à disposição.

- E os livros?

- Sempre gostei, ué.

- Sim, mas... aonde os arruma?

- 'Lixo de uns, tesouro de outros', conhece essa? As pessoas jogam fora coisas impressionantes, algumas até que estão novinhas. E em meio ao lixo luxuoso, encontro os livros. Alguns são novos, outros são velhos, mas todos são sensacionais. Têm até clássicos antigos como este do William... Fico chocado com isso, as pessoas estão ficando ignorantes pois não fazem questão de aprender nada. E a pouca cultura que tem em casa, jogam fora. Quem joga isso aqui fora, só pode ser maluco.

- Às vezes já leram tanto que cansaram...

- Você não joga sua TV fora quando cansa dela, nem seu computador... Provavelmente, não sei, não jogaria sua esposa mesmo que se cansasse de vê-la todos os dias.

- Mas isso é diferente!

- Diferente, é mole... Sabe por que é diferente? Porque é, principalmente, INdiferente, por isso a sociedade está assim. Todos pensam que livros são inúteis e chatos, que a cultura é um porre. Todos só olham para o próprio umbigo e para as babaquices geradas pela monotonia e a falta de assunto. Fiquem com as suas riquezas, com seus pensamentos mesquinhos e seu modo de vida atrasado. Esperto sou eu que sou mendigo. Nesse ritmo de cágado de vocês, em 2014, Presidente serei eu!


P.S.: Dica do Mendigo: "O que faz o brasil, Brasil?", de Roberto da Matta.

Querida, estiquei as crianças! (Ode à inocência)


Como era bom ser criança! Nem o que tinha um ar de maldade acabava com a nossa diversão. Mesmo as músicas do É o Tchan!, com marquinhas de biquíni, bundas e danças exóticas, não nos deixavam horrorizados. Com onze, doze anos, ainda sentia certa vergonha de meninas e de assistir cenas picantes na TV ao lado da mamãe.
Mas nós, crianças, crescemos. E nossa sociedade trouxe novos infantos e estes trouxeram consigo um modo novo de enxergar cores e brincadeiras.
Como um bom velho diria: No meu tempo, a brincadeira mais ousada era "salada mista", que Molejo e Xuxa cantarolavam com alegria. Era abraço, beijo na bochecha, no mááximo um selinho (alguém pensou em "gato mia"?).
E hoje? Bem, hoje as pulseirinhas são o ponto alto da excitação infantil. Foi-se o tempo em que verde era esperança, o vermelho era amor, o branco era paz, etc... AGORA, amigão, é sexo oral, dança erótica e mãozinhas onde quiser. Realmente mudou, e não precisou nem mais que uma década pra isso. As cores perderam a simplicidade e a pureza. Até o arco-íris da Xuxa foi pro saco... Literalmente.
Surprise, honey! Arco-íris agora pertence a bandeira gay e cada cor representa uma sacanagem, uma 'forma de expressar-se'.
E agora, cidadão? Quer dizer, e depois? Mais uma década e as crianças vão estar como? Não vão nem precisarr de pulseiras, cores e códigos. Basta um piscar de olhos para se acabar com a magia da infância e se tornar um adulto de dez anos. Um adulto imaturo, ilhado em problemas porque nunca teve a audácia de aprender a viver no tempo certo. Nada mais justo para um país em que a idade nunca foi documento.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Cadê o Plano de Emergência?



O mesmo caos... As mesmas desculpas. O Rio entrou em colapso por causa das chuvas que resultaram em tragédia. Em menos de 24 horas, tudo que já acontecia há 40 anos atrás se repete. Já são pessoas sem teto ou desalojadas, feridas ou mortas e o Rio expôs a sua velha fragilidade diante de eventos extremos. E por que o poder público não consegue reagir?
As explicações das autoridades não apresentam surpresa alguma, é sempre a mesma calúnia. A única coisa que poderia trazer alguma novidade, seria a realização do projeto (prometido em todas as eleições) de emergência. Projetos que se renovam e nunca saem dos documentos fiéis.

E em meio ao temporal, o Rio voltou a mergulhar no caos. Já são quase duzentas mortes (e esse número promete aumentar), os engarrafamentos vararam a madrugada, as encostas despencaram e o dia seguinte dos cariocas virou um pesadelo. A vida dos moradores da cidade foi soterrada pela tragédia e a rotina não pôde ser retomada, com faltas ao trabalho e cancelamentos de aulas; nem o comércio abriu. Agora, amigo, impressione-se: a desculpa para todo esse caos foi uma simples chuva atípica e uma marézinha cheia. Me poupe.
Ainda que seja uma 'chuva atípica', a cidade não soube lidar com ela. A drenagem não funcionou e tornou-se mais um problema longe de ser solucionado. Pra piorar, faltaram guardas munipais, contenção de encostas e policiamento. Este último ainda foi a ausência mais vergonhosa, facilitando a vida dos bandidos, que agiram sem pudor e saquearam ilhados, tanto motoristas quanto pedestres.
Ainda que seja um evento atípico, é algo que pode ser perfeitamente previsto, e mesmo que não pudesse ser, a cidade depois de passar por casos semelhantes, já devia estar preparada para tudo isso.
Mas, até hoje, não se sabe que fim levou o tal Plano de Emergência para o Rio, anunciado pelo nosso queridíssimo Eduardo Paes, que chegou a ter um grupo de trabalho constituído ano passado. Resta-nos saber se em todo evento atípico, ocorrerá sempre uma tragédia. E claro, se São Pedro vai deixar as torneiras bem fechadas durante a Copa do Mundo.

"Uns põe a culpa em outros, outros põe a culpa em uns, mas a verdade é que a culpa não é nem de uns, nem de outros, e sim de todos nós."


Créditos da Charge: Aroeira.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Novo feriado carioca: Dia da Chuva!

Ping! As escolas suspenderam as aulas e os patrões liberaram os funcionários. O comércio ping de portas fechadas, não pode nem pensar em abrir e o sistema 'rodoprecário' público não está nem em ritmo de circulação. Ping!
Ninguém sai de casa, deixam a cidade ping à deriva e abandonam até os carros no meio da rua, simplesmente porque no feriado forçado, ping não pode usar carro.
Até mesmo ping o Governador e os afeminados da Defesa Civil e da Prefeitura não querem molhar os pézinhos; não fazem nada, sair na chuva pra quê? Ping!
E no ritmo de feriado, nem a luz e os telefones queriam ping trabalhar, todos tiraram uma folguinha pra dar uma pitada extra de caos ao nosso dia de folga. Dia de folga ping muito bem aproveitado pelos malandros, ping que estavam até tirando uma soneca no trânsito.
Ping! O dia em que o RJ parou. Parou porque, sabe como diz o ditado, tá na chuva, é pra se molhar, e molhado foi o que não faltou.
E a culpa é de quem? De quem? Da chuva. Tadinha, ela não pode nem tirar o cavalinho de si própria pra argumentar e é culpada de coisas que ping ping ping! Calma, deixa eu terminar... coisas que nós mesmos temos culpa. Ser Humano é foda, tem mania de colocar a culpa em tudo que causa tragédia... Ping ping ping ping ping! Droga de goteira, te odeio, Chuva!

P.S.: E a Copa vem aí! Quero só ver. Er, er...

Ano eleitoral: o ano da Santidade!

Confesso que levei anos pra concluir esse estudo e depois de muito investigar, finalmente descobri que o 'ano eleitoral' é um marco religioso. Pode até parecer estranho, uma opinião singular, mas provavelmente você pense assim por não ter ido a fundo neste assunto como eu.
Pensemos: o governo nunca tem dinheiro para nada, tudo que é projeto é ideal, claro que 'ideal' vem de 'ideia' e 'ideia' é só pensamento. Logo, o que é algo ideal fica só na mente, e consequentemente esse projeto idealizado fica estagnado. A cidade fica de pernas pro ar (embora essa semana, o termo "afogada" seja o mais adaptável) e todos os que deviam lutar pra manter a saia da cidade abaixada durante o vento, nem sequer fazem força, 'deixa voar, o rabo já apareceu mesmo'. Isso durante três anos, porquê no quarto ano, amigo... Tudo muda. A verba aparece, a cidade cresce 150% em relação aos últimos três anos e surgem samaritanos aos montes só pra te dizer que estão trabalhando. Como? Só pode ser milagre.
Os políticos se tornam Santos! E estes profeciam que a cidade, o estado, talvez o país, sem eles não crescerá e que todos os concorrentes são uma espécie de Judas. Os crucificados, como Anthony Garotinho, reaparecem, pregam sermões e mostram as asinhas para todos aqueles que eles mesmos, um dia, espetaram com o tridente. Ora, santo que é santo não comete pecados! Dilma que o diga. A nossa santa candidata à presidência, que nas horas vagas provavelmente lê dicionário (vai gostar de falar bonito assim lá onde Judas perdeu os votos), acusa veemente que candidatos ao poder deixaram o país às escuras! Talvez fale isso com coragem por saber que Deus perdoa os pecados de todos, pois a mesma que acusa, deixou tudo num breu total durante seu mandato no Ministério de Minas e Energia.
Mas todos eles são santos, de fato. Santo que é santo faz milagre, e todos estão transformando nossa água em chorume.