segunda-feira, 29 de março de 2010

Com a palavra, a Hipocrisia da Justiça



Acho que todos devem ter acompanhado o caso da menina Isabela que acabou se tornando o mais polêmico do país nas últimas semanas. Uma coisa que aconteceu em março de 2008, aparecendo como um caso absurdo. Surpreendentemente, sumiu da mídia tão rápido como apareceu e agora, 2 anos depois, ganha força novamente após o julgamento, sendo comentado em todos os veículos de informação possíveis. Acho que já deu, né?

Em todos os lugares, em todos os programas, é sempre o assunto mais debatido. Já estou de saco cheio de ver isso. Mas claro, tudo não passa de uma discussão sociológica a fim de transformar nossa sociedade num lugar melhor, de maneira que casos como esse nunca mais aconteçam. Mentira.



O 'pretinho de rua' morre debaixo da ponte, o cidadão da favela morre de bala perdida na comunidade após um tiroteio, casos iguais a esse acontecem aos montes em todos os lugares, uma criancinha africana de barriga grande e ossos fracos tem que 'agradecer' por continuar viva... E por que nada disso ganha a mesma repercussão? Simples: não nos cabe, é indiferente.

O grande X da questão, é que Isabela era uma menina bonitinha, de família de classe média alta, tratada à paõ-de-ló pelos familiares. Ou seja, tirar a vida de uma criaturinha tão bela como era ela, amarga profundamente nossos corações!


Mas não os outros... um caso praticamente idêntico a esse aconteceu bem aqui, no meu prédio. Por que foi indiferente? Por que os outros casos não ganham a mesma repercussão, se são todos iguais? Pessoas que perdem as vidas injustamente, sofrendo sem piedade e passam desapercebidas pelas nossas vidas. Para a mídia é tão mais importante mostrar as pessoas da alta classe? É. Esses casos rodam o mundo e nada melhor para o nosso país uma tragédia numa família com grana. Não faria diferença para ninguém na Europa ver um pretinho da favela morrer debaixo da ponte, não é?



Entendo a dor da mãe e da família, e sei como é difícil perder alguém que amamos. Mas acontece que na nossa sociedade, tudo é tratado com desigualdade e talvez se esta família fosse um pouco menos 'endinheirada', provavelmente não teria causado essa polêmica nacional.

Não se enganem com o que a mídia nos mostra. Não faça estardalhaços por tudo que aparece na tevê, porque é exatamente isso que eles querem: ibope.

Daqui a pouco atropelam um cavalo de raça pura n'uma estrada e você vai se sentir mal pelo bichinho, não por você gostar de animais, mas porque a mídia chama aquilo de crueldade.

Um lindo Conto de Fadas Drogadas

Fada do Dente encontra com Fada Madrinha no saguão do castelo:

- Madrinha...

- Fala, dentuça!

- Odeio que me chamem assim...

- Ah, fala sério, amiga do dente, é brincadeira! Você não tem um pingo de senso de humor, parece mais a fada do saco. Falando nisso, quer dar um tapinha?

- Você sabe que eu não gosto disso, Madrinha...

- Ora vamos, não seja uma velha chata! O que você é, uma fada ou uma bruxa pelancuda malvada?! É gostoso, vai te deixar ligadona, quer dizer, se você não for como a fraca da 'Bela Adormecida', que só com o cheiro do meu cigarrinho já pegou no sono! Aquela história de espetar o dedo foi a maior viagem pra enganar o trouxa do pai dela, falo mesmo...

- Que horror, Madrinha...

- Mas é verdade! Dentucinha, você não faz ideia de como esses contos são falsos! A história é sempre a mesma, com animais mágicos falantes, princesas virgens e príncipes maquiados que não tem cara de gostar exatamente de 'princesas', mas por trás dessas fábulas... Senta essa bunda mágica aí, aperta e acende um e ouve.

Visto que não havia jeito, nem escapatória, a Fada do Dente sentou-se, acendeu um cigarro e começou a fumar também. Passadas algumas horas...

- Ah, fadão, só pode estar brincando!

- Não, eu juro! Todos os sete! O mais viciado é o Dunga, não larga aquelas balinhas. E a Branca de Neve foi na onda dos anões e montou uma Boca dentro do castelo. Agora ela é conhecida como a 'Branca do Pó' pelo reino inteiro!

- Nossa, não fazia ideia! E eu pensando que ela era boazinha, como a Cinderela...

- Cinderela?! Está brincando, né? Cinderela quase me sequestrou para que eu ficasse transformando abóboras em carruagens para ela vender no mercado negro! E ainda trai o príncipe com o Dengoso!

- Com o Dengoso?! Aquele anão viadinho?

- Viadinho? Aquilo é cena, ele é muito macho. E vou te falar que de 'anão' ali não tem nada!

- Caramba, Madrinha, que viagem! Só falta você me dizer que aquela Jasmin também está nessa!

- Xi, essa não vou nem comentar, estou devendo um favorzão para o marido dela, o Aladin. Ele me deixou usar o gênio pra pedir uma casa própria e um curso pra fadas estagiárias! E por falar nisso, precido ir, dentuça, a aula começa em meia hora!

- Nossa, agora que você falou também já estou atrasada! Tenho um molar pra pegar na Índia e um canino na Suécia. Tem trocado? Geralmente eu deixo cinquenta centavos...

- Nada, estou dura, dura! Gastei meu último salário inteiro ontem, comprando tinta pra cabelo.

- Mas pra que? Você nem pinta o cabelo!

- Não era pra mim, era pra Rapunzel!

terça-feira, 23 de março de 2010

Qual o verdadeiro valor de R$1,00? (2)

Hoje a criatividade está por demais. Logo após escrever a crônica aí de baixo, fui eu na cordialidade de sempre dizer que tinha roubado a ideia do título do amigo pra construir o texto.
E conforme a conversa, a gente percebe que tudo, por mais óbvio que seja, tem duas vertentes.
O motivo? Mais uma vez nos remetemos à pergunta de quanto vale R$1,00.
O que ele vale pra você num dia na rua? Um copo de guaraná talvez, umas xerox que você precisava de uns documentos, no mais importante o complemento de sua passagem no ônibus. Isso é o que devia ser pra todos, mas como a nossa sociedade é irregular e capitalistamente decadente, UM REAL se tornou indispensável para muitos cidadãos.
O quanto vale um real para homens de rua? Acreditem, vale um almoço. O que pra nós não é de suma importância, para outras pessoas é algo que podemos chamar de necessidade.
Pessoas que ficam pelas ruas em busca de trocados. Trocados estes que vão servir pra comer. Alimento este que vai ser o combustível pelo resto do dia. Dia este, que pode ser completamente diferente se aquela pessoa não receber os trocados. Trocados estes que vão deixá-la sem comer.
Não é nossa obrigação ajudar à essas pessoas que precisam; o governo está aí e é o grande responsável por essas ações. Mas se você tem bom coração tanto quanto eu e sabe que seu um real vale mais pra centenas de pessoas do que pra si próprio, então ajude. Um real no seu bolso pode não ser nada, mas na mão de quem necessita... é um dia de luta, quiçá um dia de glória.

Qual o verdadeiro valor de R$1,00?

Estava eu lendo a minha lista de contatos do messenger e eis que me deparo com a frase-título dessa postagem. Quanto vale um real? Mais precisamente... quanto vale nosso dinheiro?
Hoje em dia vemos muitas ofertas de formas de pagamento; são prestações pra lá, descontos pra cá e mesmo assim parece que nada fica mais barato, pois quando se chegam as contas no final do mês, o nosso salário o quão grande seja, não dá conta do recado. Ora, meu amigo, estamos falando de valores astronômicos que ultrapassam as necessidades humanas.
Peguemos como exemplo os tão úteis eletro-domésticos. Bens que deviam ser considerados duráveis, mas que depois de uns 2 anos de uso ja estão praticamente condenados. E custaram caro... por que? Pense bem e veja se tem fundamento criarem coisas de boa durabilidade pra perder compradores no futuro. Vale? Pra eles não. E nessa matemática, vemos que tudo está mais caro e nada está mais acessível, sequer durável.
Quando se é de qualidade, colocam preços que até o dono da loja não compraria se fosse consumidor. Que diríamos das lindas camisas da Armani custando lá seus mil reais? Ou aquela máquina fotográfica que, acredite, tira FOTOS, custando o mesmo preço?
Ponha seu carrinho de compras pra pensar e veja se realmente tudo que consome é realmente o que precisa. Do jeito que está, a sua vida já vai estar na lista do Buscapé.com, sendo pesquisada por alguém querendo algo barato. Reflitam.

domingo, 21 de março de 2010

Um brinde à Ayrton!




Ser líder de pesquisas de opinião pública que o colocam como um dos principais ícones do País, certamente faz do nosso querido Ayrton Senna, um exemplo a ser seguido. Seus valores indispensáveis e seu amor pelo Brasil ainda fazem com que ele esteja no coração de nós, brasileiros. Talvez seja por isso que após 16 anos de sua morte, ele ainda seja lembrado com tanto carinho por todos, desde seus companheiros no automobilismo, nos fãs e pessoas próximas, até gerações que nem o viram correr.

E nada mais honroso pra mim que prestar a minha singela homenagem ao nosso tri-campeão.

Hoje ele completaria 50 anos; um cinquentenário que seria marcado por conquistas indiscutíveis pelo seu talento, tanto dentro quanto fora das pistas. Algo nele, uma espécie de motivação o diferenciava dos demais.

Dentro das pistas não preciso nem dizer; conhecia os carros que pilotava como a palma da própria mão e dominava os mínimos detalhes dos circuitos com maestria. Ayrton era, sem margem de dúvida, o melhor piloto do mundo.

Fora delas, Ayrton mais do que qualquer outra coisa, tinha orgulho de ser brasileiro. De mostrar a bandeira do país a cada conquista, mostrar um Brasil campeão junto com ele. A cada nova vitória, mostrava para todos que para ser campeão era preciso ter muita vontade, dedicação e determinação. Valores estes, considerados seus legados.

Bom homem de família, sendo filho, tio ou irmão, era sempre próximo. Gostava do carinho e do contato com os familiares. Talvez por essa razão desejava tanto que todas as crianças e jovens do país tivessem as mesmas oportunidades que ele. E essa vontade, esse sonho incontido que deu origem ao Instituto Ayrton Senna, criado por sua família após a sua morte, que oferece oportunidades educacionais a meninos e meninas. São cada vez mais conquistas feitas por uma pessoa que ainda enche nossos corações de alegrias até mesmo depois de 16 anos de ausência. E com certeza, de longe ele vê tudo com a sensação de dever cumprido. E está lá sim, ainda posso ouvir o ronco do motor...



À você, Ayrton Senna, a minha homenagem. Parabéns pelos vitoriosos 50 anos.

Enquanto isso, na feirinha dos royalties...

Quem você acha que vai descascar isso aí?


( ) O Senado;
( ) Lula;
( ) O Supremo;
( ) Ibsen Pinheiro;
( ) Ninguém.




Quem acertar leva um penino pra casa!

quinta-feira, 18 de março de 2010

Ibsen bobão, tira a mão do meu Petróleo!




Bato palmas para a manifestação carioca desta quarta! Apesar de não ter presenciado o grande movimento contra Collor em 92 (famoso impeachment do ex-presidente), por ainda ser muito novo na época, imagino que o movimento contra a emenda tenha sido tão representativo quanto.


O balanço divulgado pela PMRJ informou que mais de 150 mil pessoas estavam lá presentes. Nada mais do que certo, para uma população que sempre permaneceu acuada perante aos políticos abusadinhos que teimam em nos impôr as coisas.


A manifestação contra a emenda Ibsen, que diminui os royalties do nosso petróleo, foi só uma forma de mostrar que o carioca ainda não dorme. Não se tira o que é nosso por direito só pra "dividir" (leia-se converter e reverter a bolada para os bolsos da famigerada política que, como sempre, só olha para o próprio umbigo).


E tudo não passsou de um "royalty show":uma emenda ridícula, feita por um deputado babaca pra causar frisson no ano eleitoral. Um golpe de motivação política mesquinho que só irá prejudicar o Rio e não beneficiará em nada os outros estados, até porque 500, 600 mil reais em 26 estados não faz lá muita diferença, mas 7 bilhões em um só...


Mas continue de olho aberto, carioca: estão lutando para ter esse dinheiro de volta para que continue sendo investido em saúde e educação, que enfim estava se desenvolvendo em nosso estado. Er, er...

(In) Coerência Jornalística

Devo admitir: as coisas estão cada vez mais coerentes no nosso Rio de Janeiro. Cada dia que passa, vemos fatos mais que desnecessários ganharem espaço na mídia, enquanto que outros, sensatamente mais importantes, não são nem abordados / questionados.




O último caso de Adriano, O Imperador me deixou com uma vaca atrás da orelha. Deu uma moto para a mãe de um traficante, que coisa absurda! Bem feito, vai ter que prestar depoimento para explicar o motivo de ter dado essa moto novinha para quem não merece. Agora pare e pense: Qual o problema?


O dinheiro é DELE, a mãe do traficante doidão deve ser uma pessoa muito legal e, numa boa ação com quem ele gosta, Adriano deu a moto em seu nome à mulher. Por que o estardalhaço da imprensa? Querem colocar a moto na frente dos bois sempre, fazer dos casos mais simples (leia-se mais estúpidos) virarem uma crise. Crise essa que não existe. Ele faz o que quer com o dinheiro dele, dá presentes pra quem quiser. Se pode pagar, que mal tem? Duvido que você não aceitaria uma se ele desse!

Estou sendo incoerente? Não. Ser incoerente é saber quem é a mulher, saber que ela é mãe do traficante, saber quem é o traficante e ainda assim não tomar as medidas necessárias. O cara está solto por aí traficando alguma coisa e a imprensa só se preocupa em denegrir a imagem de alguém que só tenta reconstruí-la. Não que eu defenda as besteiras que Adriano faz, mas se quer saber, a vida é dele e muitas outras pessoas fazem igual, talvez pior, mas passam desapercebidas, mas com ele não; ele é sempre visto, porque é o Imperador.

Tá vendo a incoerência? Se dessem devida atenção ao que realmente interessa e não ao que querem que ganhe repercussão nacional, talvez essa moto nem fôsse comprada, pois o traficante estaria preso e a "mãe" não a usaria. "Brasil, meu filho, fazer o quê?".

O calor, a falta de luz, o pátio de carros e o andaime.

Era uma tarde ensolarada bem comum do verão carioca. Perfeita pra quem curte uma boa praia, mas detestável para muitos outros, principalmente para Jorge, personagem de nossa historinha, que estava à caminho do trabalho em seu carro novinho, mas com o ar condicionado já pifado há mais de uma semana.
Sabe como é Rio de Janeiro, com suas temperaturas elevadas e as famosas 'sensações térmicas' mais elevadas ainda. A temperatura de hoje no jornal era de 30°, mas a maldita sensação térmica do Centro da Cidade beirava os 40°. O calor era tanto, que Jorge já sambava no banco de couro do carro por causa do suor.
Felizmente a sua sala no vigésimo terceiro andar do prédio de arquitetura tinha ar condicionado, o que ainda o dava ânimo para vencer o calor da rua e chegar até lá.
Tendo chegado, estacionou seu carro quase em frente ao prédio, como o de costume. Atravessou a rua já fazendo sinal para o porteiro do prédio ir abrindo o portão.
Chico, o porteiro, que sempre abria o portão de dentro da cabine com o controle remoto, desta vez foi abrí-lo pessoalmente com a chave:

- Tamo sem énérgia, seu Jógi. - falou Chico desanimado e suado.

Aquilo foi um banho de água fria em Jorge. Fria não; seria muito refrescante. Aquilo foi um respingo de água quente nele. Com o prédio sem luz, já sabia que o calor da rua seria o mesmo em sua sala.
Eu já mencionei que sua sala era no vigésimo terceiro andar? Pois é, quis dar uma certa emoção ao conto. Como Jorge vai chegar até sua sala sem luz? Escadas? Provavelmente, mas visto que subir vinte e quatro lances de escada (contando com o andar da garagem dos executivos) seriam exaustivamente perturbadores, ele resolveu pegar uma carona com os homens do andaime, que limpavam as janelas.

E aí, de repente, subindo no andaime, eis que uma corda arrebenta! Todos os nervos à flor da pele, o suor agora frio, a vida de Jorge (e provavelmente dos dois limpadores também) passando como um filme em sua mente. O peso era muito grande para o rudimentar elevador e então a segunda corda arrebenta e todos caem e morrem.

Mentira, eu queria chamar sua atenção, caso o conto estivesse muito chato. Jorge não morreu, não. Ele pensou nessa possibilidade das cordas arrebentarem e preferiu o sacrifício da escada. Nem preciso dizer que estava quase sem alma quando terminou. Ao chegar no 23°, parecia que ia entrar em trabalho de parto. Entrou na sua sala bufando, pedindo sete copos d'água para sua secretária.

- A água está quente, seu Chorche. A Cheladeira está desligada por causa da luzzz. - disse a sensual secretária.

Bebeu assim mesmo. Quente, quente, quente, mas parecia estar bebendo um Néctar Sagrado.
Andou até a janela só para pegar uma brisa antes de começar os trabalhos e, ao olhar pra baixo, percebeu que seu carro estava sendo rebocado.
Saiu então desembestadamente pela sala para tentar impedir o reboque. Apertou o botão do elevador sem lembrar que estava sem luz. Pensou em desistir só por causa das escadas. "Mas se eu não for, volto pra casa à pé!", pensou ele. Tratou de descer tudo novamente.
Convenhamos que descer é muito mais agradável, mas ainda assim, são 24 andares. Chegou lá embaixo de um jeito que parecia estar usando roupas que acabara de tirar da máquina de lavar.

- Ei, ei! Meu carro, amigo, meu carro! Para! - gritava ele.

- Sinto muito, senhor, mas estava estacionado em local proibido. - disse um guarda municipal aproximando-se com o bloquinho em punho.

- Proibido? - retrucou Jorge - Eu estaciono aqui todos os dias!

- Mas agora é proibido.

- Desde quando?

- Desde hoje de manhã.

- Mas não estou vendo nenhuma placa dizendo que não possa estacionar ainda!

- Também não estou vendo nenhuma dizendo que pode, senhor.

- Ora, amigo, pelo amor de Deus! Eu não sabia, sempre fiz isso! Pede pra ele descer meu carro dali, eu coloco na outra esquina!

- Lamento, senhor, mas agora só lá no pátio.

- E o que eu tenho que fazer?

- Vá até o pátio, ué. Mas antes ligue pra esse número aqui. - disse o guarda entregando o papel com o número à Jorge.

Pegou o papel e sem muito agradecimento (na verdade, sem muita educação), foi até o jornaleiro comprar um cartão telefônico para ligar. Depois de comprar e sair da banca, deu um urro alto e esboçou uma tentativa de quebrar o cartão ao meio. Estava sem luz; o orelhão não estava funcionando.
Ligou então do celular. Ia gastar uma nota preta ligando para um número residencial.

- Pátio de carros do Detran, Bruna, boa tarde? - falou a quase simpática atendente.

- Boa tarde, é... eu quero buscar meu carro de volta!

- Qual seu nome, senhor?

- Jorge Couto Mafalda.

- Qual o seu CPF?

- 668 ponto 212 ponto 375 tracinho 01.

- Telefone?

- 2216-5917.

- Qual o carro, seu Jorge?

- É um Punto vinho.

- Qual a placa dele?

- KND 8375.

- Tá ok, senhor, aguarda um momentinho que eu vou passar a ligação pro setor, tenha uma boa tarde.

- Não é um pátio de carros rebocados? Pra quê precisa de setores?

E antes de obter resposta, começou a musiquinha de espera; sempre ruim e que nos dá mais raiva de esperar.

- Pátio de carros do Detran, Glenda, boa tarde?

- Oi, boa tarde, eu acabei de falar com a sua amiga. Eu queria buscar meu carro!

- Qual seu nome, senhor?

- É o Jorge.

- Jorge de quê?

- De novo? Eu acabei de falar tudo pra outra!

- Mas meu sistema é diferente, senhor.

- Então por que ela pediu? Nem era o setor dela!

Depois de muito reclamar, Jorge passou as informações novamente.

- Senhor - disse a atendente - vou ter que mandar o senhor para outra linha de atendimento, agora é hora do meu almoço, dá licença e tenha uma boa tarde.

- Não, mas espera aí... !

Novamente começou a musiquinha. E passados 5 minutos de angústia e uma tremenda vontade de balear alguém:

- Pátio de carros do Detran, Lindomar, boa tarde?

- Eu quero a porr* do meu carro!

- Qual seu nome, senhor?

E com uma extrema ignorância e palavras nada amigáveis, Jorge desligou o telefone e resolveu ir pessoalmente ao pátio.
Ia ter que subir tudo de novo para pegar seus documentos que deixara no escritório. Como estava com pressa e muita raiva, resolveu pegar carona no andaime dos limpadores de janela.
Agora sim! A corda do andaime arrebentou, Jorge caiu e morreu. Fim!

Não dê ouvidos à ninguém (?)


Pelo que se sabe, todos temos o mesmo tipo de ouvido. Uns escutam menos, outros escutam mais, outros escutam demais. Mas a grande questão é que ninguém ouve à ninguém, de fato.

Queria saber o que se passa na novela particular das pessoas, que teimam em olhar apenas para seus próprios umbigos, mas nem se importam em olhar para os corações daqueles que os rodeiam. Ora, não somos melhores do que ninguém, mas só se olha quando convém; só se aproximam por necessidade.

Não mais vemos frutivas amizades como as de antigamente, são raros os casos. Vemos muito mais devaneios, falsidades e uma extrema falta de companheirismo de todas as partes. Ninguém é todo ouvidos, todos dão apenas os ombros para o que devia ser necessidade nacional: a sinceridade e o caráter digno.

Pessoas que fingem estar ouvindo músicas em seus fones só para não dar aquele bom dia, boa tarde chatos ou só para não ceder o lugar pra'quela velhinha no ônibus. Pessoas que fingem não prestar atenção nos fatos só pra não se envolver, que proporcionam bloqueios mentais induzidos para não se aproximarem do que não querem; só se quiserem. Pessoas estas, que não olham nos olhos.

Ouça mais, fale mais. A vida não lhe tira pedaços por ser bom falante ou bom ouvinte. Dê ouvidos sim e os ombros... bem, os ombros não dê a ninguém. Guarde-os para si. Atenção e honestidade já bastam.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Dia (nem tão) feliz!

Ricardo acordou bem disposto essa manhã, levantando de pulo. Cantarolante pela casa, tratou logo de colocar seu short velho, quase sem elástico pra dar uma descida rápida. Foi à padaria comprar os deliciosos pães da Dona Cecília para tomar um belo café da manhã reforçado. Na padaria, muitos sorrisos, simpatia na hora de pagar e pegar os pães.
Já em casa, depois do café, escovou os dentes, tomou um banho quente e gostoso, à ponto de fazê-lo cantar no chuveiro.
No quarto, separou seu melhor terno, aquele que ganhou do chefe da empresa no Natal. Colocou seu perfume mais cheiroso, não queria deixar nenhum detalhe passar. Colocou o terno e seus sapatos devidamente lustrados e seu relógio de prata da sorte. Penteou os cabelos, deu uma última checada no visual e saiu, imponente, pelo corredor do prédio.
No corredor, a simpatia em pessoa; bom dia aos vizinhos, bom dia aos porteiros. Já na rua, outra demonstração de boa educação; bom dia para os já conhecidos rostos da calçada e do jardineiro do prédio em frente, que lhe tinha agrado.
Fez sinal pro táxi; entrou.

- Vai pra onde, patrão?! - perguntou o taxista.

- Pro cemitério, amigão, e rápido, já estou atrasado! Pela hora, minha sogra já deve estar sendo enterrada!

A de preto!

- Tá vendo aquela 'mulé' ali?

- Quem?

- Aquela ali ó, de preto...

- A loura?

- Não, a que tá do lado da loura!

- A de camiseta verde?

- Não, animal, do outro lado! Perto delas!

- Quem, meu Deus? Só tem a loura ali...

- Claro que tem, cara! Você é cego? De preto, cabelo castanho comprido...

- A de saia?

- Aquilo é azul! É a de preto, PRETO!

- Não é possível, Beto, você que já tá vendo coisas. Falei pra parar de tomar caipirinha...

- Não estou bêbado, você que não tá enxergando! É aquela morena, de vestido preto e cabelo comprido! Tá do lado da outra morena de saia azul... Ali! A que tá mexendo no cabelo agora, olha!

- Ah! Agora eu vi!

- Até que enfim! Mó gata, né?

- É... é a minha mãe.

terça-feira, 16 de março de 2010

A Doutrina Hiago

É inegável sustentar a ideia de que a vida é cercada de mudanças, acontecimentos inesperados e mais puramente de sonhos, que só quem tem a vontade de concretizá-los pode, de fato, realizá-los. E a história do Hiago foi mais ou menos assim.
Pobre coitado, só de escrever dá pena do pequeno garoto que, muito cedo, perdeu o pai. Começa de um jeito que muitas outras histórias ja devem ter começado, mas sendo Hiago um personagem humanamente vivido e verdadeiro, eis que ganha-se graça.

O que devíamos esperar de um filho único tendo apenas sua mãe como uma família? Óbvio, a responsabilidade de 3 vidas depositadas em uma; o homem da casa, o responsável detentor das obediências e da obrigação de se tornar adulto sendo uma relez criança.

O menino nunca fora pobre de espírito, muito pelo contrário. Apesar de não ser muito disposto a ter seus estudos em dia, era otimista e tinha certa facilidade com o aprendizado, tanto que nunca repetira de ano; não estudava com afinco, mas também não era de todo, um burro. Aí que morava o problema: quem é sozinho não pode viver tirando notas de valor questionável apenas para se graduar, não pode levar na flauta e achar que tudo é muito fácil, que virá de bandeja; tem de se esforçar mais do que qualquer outro tenha se esforçado para conseguir os objetivos já impostos desde sua (não desejada) evolução abrupta. Ora, seus primos todos haviam conseguido, por que então seria o único a não conseguir? A resonsabilidade que antes era de 3 vidas, agora já passou pra mais de 10, por ter que carregar a carga de outros primos que conseguiram o que ele ainda ia batalhar para ter; por ter o peso de uma família que nunca ajudou, mas dava pitacos sempre que podia.

Mas Hiago não desistia; tentava ao máximo se dedicar aos estudos, apesar de ser o que menos gostava de fazer quando era por pressão (entenda, gostava de aprender por vontade própria, e não para ser testado e graduado). Gostou de um livro que comprara e começou a ter gosto por leitura. Ainda lia pouco, mas com eficiência. E com o pouco tempo do dia que lhe sobrava, ainda assistenciava a mãe dentro de casa, fazendo tarefas básicas.
O que lhe surpreendia era o fato de sua mãe, Dona Margarida, ausente o dia inteiro, sempre questioná-lo por tudo na vida. Chamava-o de burro, incapaz, vagabundo, preguiçoso e tantos outros adjetivos impublicáveis. Certamente que isso mexia por demais com a pequena cabeça do garoto, que não via razão concreta para sua mãe fazer estardalhaços por coisas que ele sempre fazia, mas que pareciam ser invisíveis aos olhos dela. E arrastaram-se esses problemas durante 4 longos anos.

E Hiago continuava ali, sempre sozinho, lendo seus livros e estudando à sua maneira, enquanto Dona Margarida exausta das 14 horas na rua após o trabalho diário, só era reclames para o garoto logo assim que chegava; breves sorrisos, longos questionamentos.
De tanto conviver com isso, Hiago acabou por se acostumar com os fatos e não mais prestava atenção em tudo que sua velha mãe rabujenta dizia. Passou a se dedicar apenas aos livros, ah! a literatura nacional, tão bela e cheia de uma personalidade que era tão parecida com a dele; as outras disciplinas não lhe agradavam muito, apenas história, geografia e um pouco da matemática, era o que ainda lhe dava base para terminar os estudos.

E assim caminhava Hiago, O Questionado. Dedicado, com sucessos invisíveis e fracassos aparentes, sempre vistos como quem é digno de ser uma ovelha negra. Era amado, porém todos desconfiavam que um dia poderia ter a sorte que todos os outros tiveram, pois era muito preguiçoso e não queria nada com a vida, seus esforços nunca foram vistos. E após essa jornada incontestável de derrotas, eis que numa noite ja quase acabada, Dona Margarida fala como se fosse o último dia na Terra:

- Será que você não percebe? A vida passando e você sem se interessar por nada? Sempre sentado aí na frente desse computador, vivendo como um merda, sedentário, não quer saber de nada, acha que tudo é fácil e não vê o mínimo esforço que sua mãe faz pra sustentar tudo que a gente tem? Que que há com você? Quatro anos não serviram de remédio?

Inabalavelmente, Hiago responde:
- Quem não se deu conta ainda foi você, que até hoje nunca esteve em casa para ver se eu estava realmente estudando ou não. Agora está aí o resultado: fui classificado em terceiro lugar no exame do vestibular. E o grande motivo de estar sempre no computador, é que tenho um site com textos que crio, onde deposito toda minha angústia e meus pensamentos. Textos esses que fizeram um homem se interessar e me convidar a participar de um projeto de publicação.
Prazer, esse é o filho que você teimava em não conhecer. Hiago, O Inquestionável.

Historicamente modificado.

Talvez esse seja o acontecimento mais marcante; o espaço ortodoxo entre o que foi uma angústia e tensão radicais e o que poderá vir a se tornar a virada na minha vida, a nova fase, quem sabe buscando uma nova imagem, abandonando a velha e já manjada versão de um sedentário pessimista.
Não. O marco agora me mostra o tão sonhado otimismo, a tão paupável vontade de mostrar pro mundo que eu sou capaz. Senti na pele. Sim, foi doloroso, ver os rostos de face à mim, encarando com ar de superioridade e dizendo que nada era tão simples que não pudesse se complicar ainda mais em minhas mãos.
Taxado de merda e imcompetente, posso agora, enfim, mostrar o quão forte e dedicado posso ser. Bater de frente com qualquer um que pestaneje pra trás e fazer com que a que me colocou nesse mundo louco sinta o meu valor de braços não mais cruzados.
Deixar pra trás a velha ideia de que tudo é igual e que nada se transforma quando se prova pra si mesmo que as oportunidades de uma vida estão em uma oportunidade da juventude.
Mais que objetivo, serei guerreiro e mostrarei pra quem quiser ver que o babaca tá na lata do lixo; o que sobrou do céu, agora azul de nuvens brancas, está aqui perante ao futuro promissor.
E ai de quem disser que o pessimismo ronda; o final quem dita, agora sou eu.

Dia 15/03/2010: o dia em que passei no vestibular.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Globo, Globo...

E completamente sem sono e com vontade de passar meu tempo lendo algo, eis que me deparo com uma coisa que há tempos me incomoda, mas nunca tive vontade de falar sobre, até porque não vejo necessidade ou até mesmo, porque não vejo remédio.
O site da Globo.com era um dos melhores em notícias, com tudo que rolava pelo Brasil e pelo mundo, quiçá no espaço.
Mas... Por que hoje em dia, essas notícias decentes deram lugar ao lixo? Certamente que a vontade das pessoas é ver notícias que não tem fundamento nenhum como "Fulano é fotografado com Cipriana na praia" ou "Matéria do Fantástico de domingo que vem vai ensinar como dançar como macacos-prego". Pergunto à vocês que me leem: O que isso importa?

Podíamos ler sobre cultura, diversão e arte juntos (sim, isso existe) ou ecologia, mas não. Preferimos ler sobre as fotos tiradas do homem mais pelancudo do mundo, coisa que, certamente, não vai fazer de você um cara mais inteligente.
Podíamos ir à teatros, cinemas, comprar livros, mas não. Preferimos ficar em casa, vendo os vídeos da casa mais vigiada do Brasil, coisa que, certamente, vai te fazer um cara antenado nas rodinhas de conversa e se encher de orgulho quando diz: 'Ele é meu ídolo'.

Cultura, arte, ecologia e qualquer outro tipo de 'gias'... no que isso importa mais? Nadica. Tudo agora que devia ser importante virou manchete de terceira página. Tudo que podería nos tornar um povo menos ignorante, pelo menos um povo mais culto, já virou coisa de gente idiota. Mas fazer o quê, de Presidente à flanelinha, só falta um livro de gramática.
E sabe de quem é a culpa disso tudo? Governo? Não não... NOSSA. Simplesmente porque damos ouvidos a tudo que nos impõe, a tudo que nos oferecem e a tudo que nós aceitamos por sermos desprovidos de opinião própria e vontade de erguer a cabeça e dizer que o Brasil é nosso. Parabéns à Globo.com e à vocês, brasileiros, que dão moral a essa babaquice.

Literatura e juventude, combinam?

Confesso que tomei um gosto danado por escrever e ler há pouco tempo. Verdade, nunca fui tão fã de ler como sou hoje. Antigamente achava que já era por demais, quando lia na média 4 livros por ano e achava aquilo total intelectualidade.
Hoje, lendo meus 15 livros por ano, acho que estou trilhando um caminho muito grande, que almeja a leitura de muito mais livros em menos tempo.
Mas talvez essa paixão disfarçada em prosa e poesia tenha se configurado devido ao grande time de autores (as) que têm no nosso Brasil brasileiro. Dentre eles, Machadão, Dona Rachel, Veríssimo e Mário de Andrade têm um lugar especial nas minhas horas de leitura, por serem os escritores que mais me sinto bem por ler, pela sua atualidade velha e pela sua afinidade com o meu jeito de ler e escrever. Tanto que toda vez que me pego lendo, acabo lendo um conto que seja de pelo menos um dos quatro, me fazendo perder a conta de quantas vezes ja tenha lido a Missa do Galo ou Tangerine-Girl, por exemplo. E se querem saber, a releitura é muito melhor do que a leitura. Os detalhes aparecem, as partes complicadas passam a ser entendidas com praticidade e, dizia Nelson Rodrigues, "É preciso relê-los sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E no entanto, o leitor se desgasta, se esvai em milhares de livros mais áridos do que três desertos."

Mas me entristeço muito de saber que eu e a grande minoria dos jovens se interessa por uma boa leitura. Não sou nerd, tampouco sou do tipo que acha festas coisa do demônio. Saio SIM, bebo SIM, faço merdas SIM. Mas isso não me tira o gosto pela leitura.
Os jovens acham isso estranhamente chato e não sabem provavelmente o que perdem, deixando de ler Luís Fernando Veríssimo e seus contos engraçadíssimos! Ou quem sabe Mario Quintana e suas poesias tão atuais e tão interessantes. Sinceramente não sei, mas sabe como é, cada um com seu cu, cada um com seu gosto, não sou eu quem pode colocar vontade em cada um pra ter na mente algo que preste, deixando "Atoladinha" e "Bota com raiva" de lado em pelo menos uma hora de suas vidas.
É fato que daqui ha um tempo, sucumbiremos na ignorância de muita gente, mas como nós brasileiros temos essa mania e esse jeitinho repugnante, também entro na onda e digo que não é comigo. Eu enriqueço meu cérebro com literatura brasileira, e vocês? Enriquecem suas mentes fracas com a 'Prova do Líder'? 'Ficadica'.

Toca, promoção, toca!

Caio era louco por curiosidades. Tão louco que, costumeiramente chato, adorava contar um pouco da sua cultura inútil às pessoas. Bom seria se contasse em situações oportunas, mas parecia gostar muito de esbanjar sabedoria. Quem sofria mais com tanta inteligência desperdiçada era Regina, sua esposa, que já tem, praticamente, vaga garantida em algum lugar do céu.

- Você sabia que...

- Lá vem você de novo.

- Que foi?

- Você falando das coisas que lê na internet!

- Mas essa é interessante!

- Ah, meu bem, pra você tudo é interessante!

- Mas juro que é! Sabia que a coelha tem uma gestação de apenas trinta dias e os filhotes já engatinham após uma hora após o nascimento?

- Nossa, jura...?

- Juro! E quando eles fazem mais ou men...

- Ai, Caio, chega! Vai almoçar, daqui a pouco você tem que ir trabalhar!

À noite, após chegar do trabalho, Caio fez tudo que rotineiramente fazia: tomava banho, comia, via tevê com Dona Regina e finalmente lá ia ele para seu computador à procura da tão conhecida cultura desnecessária.

- Ah não, hoje você não vai ler isso! Desliga, DESLIGA, CAIO!

- Mas amor, hoje enquanto comia pipoca no trabalho fiquei me perguntando como surgiu a pipoca! Eu tenho que descobrir!

- Não! Deixa isso pra lá, você pode continuar vivendo sem saber disso!

Até que veio o dia da promoção. Durante o seu trabalho, Caio recebe um telefonema:

- Senhor Caio Ribeiro?

- Sim...

- Parabéns! Você está sendo convidado a participar do "Toca, promoção, toca!", da Rádio Guarani! Esta é sua chance de faturar vinte mil reais!

- Deus do céu, jura? O que eu preciso fazer?

- Basta passar-nos o número de seu telefone residencial; faremos um questionário de 20 perguntas e, se acertar todas, você leva a bolada!

- Eu topo! Mas podem ligar mais tarde? Estou no serviço ainda...

Após o acordado, Caio pediu ao chefe pra sair mais cedo. Cantarolante, foi para casa esperar a ligação. Avisou à esposa que, de tanta euforia, nem ao salão, foi. Na verdade, se arrumou toda, só para esperar o telefone tocar. Passadas algumas horas, eis que ele toca:

- Senhor Caio?

- Sim, sim, sou eu! Pode perguntar!

- Calma, calma. Peço que se afaste de qualquer tipo de consulta enquanto responde e para garantir que não trapaceará, terá apenas 5 segundos para dar a resposta; se errar, está fora!

- Ok, pode falar!

Inteligente e rapidamente, Caio foi respondendo todas as perguntas do questionário. Totalizando dezenove perguntas, contadas por Regina, restava-lhe apenas uma perguntinha para levar o prêmio:

- Pode mandar! ... O quê? ... Bom, é... Ah não, por favor! Só mais uma chance! Por uma! Tudo bem... Muito obrigado... Tchau. Perdi.

- Você perdeu, Caio? Deus meu, na última pergunta?

- É, queriam saber de onde veio a pipoca...

Ocupados

- Amor, eu estava pensando...

- Peraí, to vendo o jogo!

- Não, é sério, me escuta. Tenho andado tão chateada esses dias com os problemas da mamãe...

- Vai, vai! Não, meu filho, não! Essa bola era pra chutar...

- Tá ouvindo alguma coisa do que eu estou falando?

- Claro que estou... Aaaah, Aguiar! Com o Leandrinho sozinho na outra ponta, é brincadeira!

- O que eu disse então?

- Ai, Carmen, agora não, você teve o dia inteiro pra me falar disso e, na hora do jogo, você quer falar de problemas? Chuta, chuta! Chuuuta, porr*!

- O que eu disse, Leonardo?

- Deus do céu... Você disse que tá chateada com a pentelha da sua mãe, posso assistir o jogo agora?

- Eu disse que estava chateada com OS PROBLEMAS da mamãe, e não com ela!

- Tá, tá, depois a gente conversa!

- Ok então, já que é assim! Vou sair com, com... O meu amante! ... Tá?!

- Pergunta pra ele se ele não quer passar aqui pra ver o jogo e tomar uma cerveja!

- Arghh, você me irrita! Desisto!

Uma hora depois...

- Pronto, meu benzinho, sobre o que você queria conversar mesmo?

- Sério? E depois? Ai, peraí, peraí... Agora não, Leonardo, tô no telefone...

quarta-feira, 10 de março de 2010

Não é o que parece.

Evandro tinha um amor. Não aquele tipo de amor comum, que você acha em qualquer esquina e já está amando no dia seguinte; era um amor forte, de longa data. Seu jeito falava por si só: era tão apaixonado por Clara, que à ela não faltavam mimos e boa vontade. Mas não pense que Clara recebia carinhos sozinha, não. O amor era recíproco e Clara era tão apaixonada quanto.
Namoravam há treze anos e estavam noivos, esperando só a situação financeira se normalizar para formalizarem o cônjuge. Enquanto Evandro se acomodava em seu novo emprego na metalúrgica, Clara terminava sua faculdade de História.
Tudo parecia perfeito, sabe como é, vida de filme, tudo pacato e feliz. Até que...

Uma breve pausa. Sei que usar um 'até que...' para mudar o rumo da história é cliché deveras, mas é uma boa forma de expressar que boa coisa não virá, até porquê isso foi uma adversidade. Mas pois bem, voltemos ao que interessa.

Evandro não era do tipo ciumento; não costumava olhar recados, nem confiscar bolsas. Tinha total confiança em Clara. Tanto é que o que descobriu foi por acaso.
Acabara de chegar em casa do exaustivo trabalho; Clara não estava. Subiu até o quarto, como de costume, para pegar uma roupa limpa e tomar um belo banho. Entrou no quarto e, muito comum, haviam pequenas bolas de papel amassadas pelo chão do quarto. Certamente eram de Clara, vivia escrevendo poesias, mas sempre as amassava e as jogava fora. Não gostava de nenhuma, mas Evandro adorava lê-las, por piores que fôssem, e sempre as pegava, desamassava, lia, antes de finalmente jogar no lixo. Lia todas uma à uma, mas uma delas o deixou com ar de espanto:

"Queria ter como te explicar
Mas não é fácil pensar assim;
Saber que posso te deixar
A qualquer segundo, num triste fim."


Evandro lia e relia aquela poesia como quem não tivesse entendido, e lia para ver se havia pulado uma linha. Era isso mesmo? Clara ia deixá-lo? O que se passara pra ela mudar assim tão de repente? Clara sempre foi muito aberta e sempre declarou seu amor... Então porquê essa mudança? Evandro precisava saber.
Pouco mais de uma hora depois, Clara chegou. Encontrou Evandro na sala, sentado na poltrona, olhando para a tevê sem assisti-la, de fato.
- Aconteceu alguma coisa, meu bem? Perguntou ela, visivelmente preocupada.
- Onde você estava? Perguntou ele, como se não tivesse ouvido a pergunta dela.
- Ah... eu... estava na casa de uma amiga... botar a fofoca em dia, sabe como é.
- Sei... bem, vou deitar. Estou muito cansado.
E foi-se Evandro para o quarto mais cedo, muito mais cedo do que seu habitual. Na cama, embora coberto e de olhos fechados, ele não conseguia dormir. Pensava alternadamente no que Clara havia escrito e na desculpa que havia dado de onde estava a tarde toda. 'Estava na casa de uma amiga', que desculpa ridícula! Certamente isso mexeu muito com ele. Tanto que passou a noite quase que em claro, pegando sempre no sono, mas acordando de dez em dez minutos. Ele sabia que não ia aguentar o dia inteiro pensando nisso; precisava de uma ajuda. Mas quem? Quem poderia ajudá-lo? Evandro não era um rapaz de muitas amizades e, veja você, as únicas que tinha estavam a quilômetros de distância em sua terra natal, pois ele viera para o Rio de Janeiro à procura de emprego. Psicólogos nem pensar! Eram caros demais e estavam fora de sua realidade financeira. Tendo isso em mente e o fato de sua superstição ser maior que seu ego, Evandro já sabia onde ir: Numa cartomante.
Aproveitando que era sábado e não ia trabalhar, saiu cedo de casa e procurou por toda a sua cidadezinha, e após obter diversas informações com os residentes, pareceu encontrar o que procurava. Sua busca o levou à um sobradinho, no final de uma ruela sem saída. Bateu à porta e ninguém o antendeu. Virou, então, a maçaneta e a porta estava aberta. A mesma dava para um hall mal-iluminado, com as paredes muito sujas, pintadas do que parecia ser marfim e um carpete vermelho bem desbotado ao longo do piso do corredor. No fim do corredor, havia uma escada em espiral enferrujada. Subiu. A cada degrau dela, Evandro sentia mais medo do que apreensão. Viu então uma luz fraca saindo de uma porta em frente ao fim da escada.
Quando passou pela porta, encontrava-se numa sala que mais parecia uma biblioteca de filme de terror. Iluminada apenas por uma luz vermelha de uma imagem de Santo na parede em cima da porta, a sala era toda empoeirada, com pilhas de livros e pergaminhos velhos. Haviam muitos tocos de vela pelas estantes e o que mais o incomodava era o cheiro de fungos, que davam a impressão de que todos aqueles livros podiam ganhar vida a qualquer momento e sair andando pela saleta.
- Posso ajudar? Perguntou uma senhorinha sentada numa cadeira de madeira ao lado dele.
Evandro parecia ter ficado sem alma. Espantou-se tanto com o ambiente que nem tinha se dado conta de que a velha senhora estava ali o tempo todo. Depois que voltou ao mundo real, respondeu com arrogância:
- Você é a tal cartomante?
- Sim, sou eu, respondeu ela, porquê veio?
- Ora, disse Evandro surpreso, achei que você soubesse! Afinal, você é a adivinha.
- Pelo visto seu problema é sentimental. E dos sérios. Alguma coisa te preocupa e você não consegue nem dormir com isso.
Evandro calou-se e seu rosto novamente ficou branco. Era exatamente o que sentia.
- Como pode saber disso tudo? -Perguntou sem rodeios.
Não foi muito difícil, sua cara de criança amedrontada e olheiras de quem dorme mal a dias, o denunciaram. - disse a cartomante serena.
- Ora, pare de brincadeiras! - retrucou Evandro, alteando a voz e diminuindo novamente percebendo que a sala fazia eco - Estou com um problema, pode me ajudar?
Sem responder, a velha levantou-se de sua cadeira e foi até a estante mais próxima da porta. Afastou alguns livros e pegou uma caixa empoeirada que estava por baixo de uns papéis velhos. De dentro da caixa, tirou um baralho mofado que aparentava ser mais velho que ela própria. Embaralhou e as distribuiu numa sequência tradicional.
Evandro não parava de olhar para a mulher. A estranheza do ambiente já não importava mais, só prestava atenção nos movimentos que ela fazia.
- Vou começar, disse ela, qual seu nome?
Evandro respondeu prontamente, e sem dizer mais nada, a cartomante começou a virar as cartas uma à uma. Sua expressão de horror aumentava, à medida que as virava e finalmente disse:
- Não precisa se preocupar. Vai ficar tudo bem.
- Verdade?! Disse Evandro, agora demonstrando grande entusiasmo a cada sílaba que saía cantarolante da sua boca.
- Não posso garantir que tudo ficará bem entre você e a pessoa que diz amar. Posso apenas dizer-lher que você ficará bem, mesmo que tente fazer loucuras.
Evandro ficou olhando sem entender as palavras da cartomante. Contrariado, pagou a consulta com umas notas amassadas que havia em seu bolso e saiu.
Os pensamentos não paravam de se revirar em sua cabeça. Pensava e repensava nas palavras da cartomante e tentava entender o que ela queria dizer. "Não posso garantir que tudo ficará bem entre você e a pessoa que diz amar." Que diabos ela quis dizer com isso? "Posso apenas dizer-lhe que você ficará bem, mesmo que tente fazer loucuras." O que irá acontecer? Evandro só conseguia imaginar Clara terminando tudo e indo embora com todos os seus pertences. A ida à cartomante só aumentou mais a sua preocupação.
Sem perceber, Evandro havia passado tempo demais na salinha da cartomante e o laranja avermelhado do entardecer já estava se tornando um azul muito escuro. Anoitecera e ele precisava voltar pra casa. Durante o caminho, ficou imaginando todo tipo de fábula que poderia acontecer.
Quando chegou, encontrou a casa vazia. Ficou completamente desesperado. Clara havia realmente o deixado, não podia ser... Foi ver o guarda-roupa e percebeu que faltavam pelo menos 4 mudas de roupa.
Sem pensar mais, Evandro jogou o colchão de sua cama pra longe e pegou uma arma que estava escondida entre as madeiras. Engatilhou-a e disparou.
Ao abrir os olhos novamente, Evandro estava num quarto de hospital com a barriga enfaixada. Ainda sentia muita dor quando tentava se mexer para ver ao seu redor.
- Finalmente acordou! Eu estava apostando com os enfermeiros que você ia dormir mais de 2 dias, e olha que beleza, ganhei! - Disse um médico surgindo por detrás da cortina de sua cama - Você tem muita sorte, rapaz. Se não fosse a sua vizinha, não o socorreríamos a tempo. Agora que você está descansado, tenho boas e más notícias.
- Nada pode ser tão ruim depois que eu passei esses dias, disse Evandro. Eu quero a boa primeiro...
- A boa, disse o médico, é que você vai se recuperar do ferimento em pouco tempo. Já a má... bem... você era marido de Clara, não é?
- Não, apenas noivos, eu acho... porquê?
- Bem... lamento muito, mas ela faleceu hoje pela manhã.
Evandro ficou imóvel. Não podia acreditar. Logo depois de deixá-lo! E antes que pudesse esboçar qualquer tipo de reação maior, o médico completou:
- Ela estava com câncer no intestino. Demorou demais para nos procurar para se tratar. Aparecia às vezes para fazer exames, mas nada que detectasse um problema, até que ela chegou anti-ontem sentindo muitas dores e a internamos. Mas ainda assim, ela sempre pedia para que nunca lhe contasse, não queria que você sofresse com a dor dela. De todo modo, ela deixou uma carta e pediu que eu lhe entregasse assim que você acordasse.
Evandro olhou o envelope e parecia não saber o que fazer com ele. Após alguns segundos, ele tomou fôlego e o abriu:

"Meu amor, me perdoa por não ter lhe contado antes. Não sabia como você reagiria e não quis te preocupar. Se a hora chegar e não nos encontrarmos mais, quero que saiba pelo menos através desse parágrafo que você foi meu amor maior, e todo amor que eu tinha pra dar era SEU! Não importa o que aconteça, sempre vou estar com você de onde estiver.
Obrigado por tudo e um beijo muito grande, Clara."

terça-feira, 9 de março de 2010

Mulher, conhece?

Algumas dispensam o cumprimento, outras simplesmente reclamam quando damos um carinho especial, mas de tal maneira, tantas outras preferem valorizar esse dia e se sentirem bem. Nada mais do que justo criar um dia para celebrar pelas pessoas que mais subjugadas foram e comemorar o quão evoluídos se tornaram os espíritos femininos.

"É sempre um grande mistério, a alma feminina. Eu tenho uma grande curiosidade com relação à mulher, como ela pensa, como ela age. Eu sou um espectador, um voyeur, um vedor de mulher. Gosto de ver como elas se movem, como elas raciocinam, como elas reagem diante das coisas. É sempre uma surpresa pra mim. Não acaba. Conversa não resolve nada, você fala, fala, fala, mas há coisas que permanecem numa zona de mistério.
Eu me considero um grande desconhecedor da alma feminina. Ao contrário do que se fala, virou um lugar-comum por causa das canções e tal... Mas eu sou um sujeito muito curioso exatamente por desconhecer, por querer saber, querer entender e não entender nunca." - Chico Buarque

Seja abrindo as pernas ou abrindo o coração; no jeito de ser machista e vê-la como uma peça de desejo, de delícias ou simplesmente vê-la como normal e ver uma mulher que luta, gladia pela sua vontade, anda em terrenos desconhecidos e viaja nas suas próprias incertezas a procura de respostas. Basicamente, é lidar com uma inconstância infinita, mas é de aplaudir de pé as mulheres que lutam diariamente com hormônios que mudam até a forma de pensar delas; é deixar essa baboseira toda de lado e simplesmente viver. Os números estão aí, mas de que adiantam números se a coerência feminina já mostra o inverso? Chico, Chico, realmente são todos desconhecedores das mulheres, e a julgar pela sua simplicidade, deixo claro que não estamos no mesmo patamar (fato, estou muito abaixo do seu) e essas benditas mulheres que festejam hoje são a alegria nossa de cada dia. Parabéns pra todas!

segunda-feira, 8 de março de 2010

Reengenharia mental

Só nascemos com o dom de sorrir e o dom de chorar. Os outros, a gente vai pegando pelo caminho.
Agora, dizer que a pessoa é boa no que é porque nasceu com o dom, é tirar todo o mérito de sua vontade por aprender. Ser aquilo que é por simples (talvez nem tanta) determinação, pelo fato de encarar tudo com dedicação e otimismo.
E quando tudo passa à prova de fogo, para nos testar para uma "segunda fase", é chegada a hora de fazer a chamada reengenharia mental; pensar em tudo que ja fizemos, em tudo que ja pensamos e nos moldarmos para o futuro, com uma nova perspectiva.
Desistir no meio do caminho por achar que tudo é obra do divino, é dizer-se incapaz de correr atrás do que se quer. No fundo, somos todos Einsteins, Darwins... só precisamos desenvolver essa ideia./

Escrevi após um documentário sobre os Paralamas do Sucesso e, cá entre nós, ter Herbert Vianna como fonte de inspiração é uma honra; tê-lo como fonte de admiração, é entrar para uma legião de admiradores.
Por muitos outros dons, Herbert nasceu e cresceu para ter o dom da persistência e da perseverança. Para sermos sonhadores, guerreiros e revolucionários, basta só despertar os Einsteins e Herberts dentro de nós; o dom não é divino, mas a vontade de tê-lo, é.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Só pela mera vontade de postar

Francamente, escrever sem inspiração é como cagar sem vontade.
É sério, você fica no vaso, olhando tudo ao seu redor, pensa na vida, conta azulejos, lê revistinhas da turma da mônica, faz origamis de papel higiênico... e num adianta, só sai aquele projetinho de cocô.
Então, veja você, a vontade de postar era tanta, que apesar da falta de inspiração resolvi vir!
Queria pensar em alguma coisa pra escrever... estou me sentindo só no meu quarto, num tédio infindável, sem a mínima vontade de fazer qualquer coisa que eu ja tenha feito nas últimas 18 horas.
Tédio, solidão, abandono... vou escrever um pagode. Bingo! Pra fazer um pagodão só falta sofrer por amor.
Depois dessa matemática sem sentido, descobri que falta de inspiração = falta de mulher.
Será? Se alguém se candidatar eu vejo se me inspiro e me dedico às composições.